GramáticaNoções de Morfologia.

Tema 16: Noções de Morfologia. Adjetivo.

By 25 de janeiro de 2010 4 Comments

Lições de Português   –   Roteiro nº 16

1. TEMA: Noções de Morfologia: adjetivo. Classificação do adjetivo. Nome substantivo e nome adjetivo. Substantivação do adjetivo. Locuções adjetivas.

2. PRÉ-REQUISITO: a. Ler compreensivamente

b. Ter concluído, com êxito, os Roteiro de 11 a 15.

3. META: As atividades deste Roteiro visam oferecer condições de aprendizagem sobre a formação e uso do adjetivo.

4. PRÉ-AVALIAÇÃO: Se você já tem algum conhecimento a respeito do assunto deste Roteiro, responda à auto-avaliação que se encontra no final deste livrinho. Se você obtiver um mínimo de 80 pontos, parabéns! Você não precisa estudar esta lição. Caso contrário, aconselho-o a ler os textos, procurando entender as explicações dadas.

5. ATIVIDADES DE ESTUDO: Ler com entendimento é pré-requisito para se aprender qualquer coisa através da leitura. Por isso, leia o texto do ANEXO A para treinar sua interpretação. Embora a leitura dos anexos em si seja também interpretação de texto, ela é voltada para uma finalidade mais específica, que é a aprendizagem dos conceitos gramaticais. O texto do Anexo A é mais genérico e serve de treinamento para a compreensão geral da língua. Portanto faça o seguinte:

  1. Tenha um dicionário de Português ao seu alcance, para consultá-lo sobre as palavras que você desconhece o significado.
  2. Procure um lugar sossegado para ler os textos e fazer os exercícios. Leitura é uma atividade que necessita de concentração e ambiente adequado, sem barulho.
  3. Leia primeiro o texto; faça, em seguida, os exercícios; compare suas respostas com o gabarito; veja o que errou e retorne ao texto para verificar o porquê do erro.

6. PÓS-AVALIAÇÃO: Após realizar todas as atividades previstas e quando você tiver certeza de que aprendeu o conteúdo deste Roteiro, responda à Auto-avaliação. Você deverá obter, no mínimo, 80 pontos para se considerar APTO nesse assunto.

7. ATIVIDADES SUPLEMENTARES: Se você não atingiu os padrões exigidos neste Roteiro, refaça a leitura e os exercícios até ter certeza de não haver mais dúvidas e responda à auto-avaliação.

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ANEXO A – INTERPRETAÇÃO DE TEXTO

AQUELE ESTRANHO ANIMAL

1.          Os de Alegrete dizem que o causo se  deu  em  Itaqui, os  de  Itaqui dizem que foi no Alegrete, outros juram que só  poderia  ter  acontecido em Uruguaiana. Eu não afirmo nada:  sou  neutro. Mas,  pelo  que  me contaram, o primeiro automóvel que apareceu entre aquela brava indiada, eles o mataram a pau, pensando que fosse um bicho.

2.         A história foi assim como já lhes conto, metade pelo que ouvi dizer, metade pelo que inventei e a outra metade pelo que sucedeu às  deveras. Viram? É uma história tão extraordinária mesmo que até tem três metades… Bem, deixemos de filosofança e vamos ao que importa. A coisa foi assim, como eu tinha começado a lhes contar.

3.           Ia um piazinho estrada fora no seu petiço – tropt, tropt, tropt – (este é o barulho do trote) – quando de repente ouviu – fufufupubum! fufufupu! bum! chiiiipum!

4.            E eis que a “coisa”, até então invisível, apontou por detrás de um capão, bufando que nem touro brigão, saltando que nem pipoca,  chiando que nem chaleira derramada  e  largando  fumo  pelas  ventas como  a mula-sem-cabeça.

5.              “Minha Nossa Senhora!”

6.            O piazinho deu meia-volta e largou numa disparada louca rumo da cidade, com os olhos do tamanho de um  pires  e  os  dentes  rilhando, mas bem cerrados para que o coração aos corcoveios não lhe saltasse pela boca. É claro que o petiço ganhou luz do bicho, pois no tempo  dos primeiros autos, eles perdiam para qualquer matungo.

7.         Chegado que foi, o piazinho contou a história como pode, mal-e-mal e depressa, que o tempo era pouco e  não  dava  para maiores  explicações, pois já se ouvia o barulho do bicho que se aproximava.

8.             Pois bem, minha gente: quando este apareceu na entrada da cidade, caiu aquele montão de povo em cima dele, os homens uns com porrete, outros com garruchas que nem tinham tido tempo de carregar de pólvora, outros com boleadeiras,  mas todos  a pé,  porque  também  nem houvera tempo para montar,  e  as  mulheres  umas  empunhando  as suas vassouras, outras as suas pás de mexer marmelada, e os guris, de longe, se divertindo com os seus bodoques, cujos tiros iam  acertar  em cheio as costas dos combatentes. E tudo abaixo de gritos e pragas que nem lhes posso repetir aqui.

9.                Até que enfim houve uma pausa para respiração.

10.           O povo se afastou, resfolegante, e abriu-se uma clareira, no meio da qual se viu o auto emborcado, amassado, quebrado, escangalhado, e nem digo que morto, porque as rodas ainda giravam  no  ar,  nos  últimos transes de uma teimosa agonia. E quando  as  rodas  pararam, as pobres, eis que o motorista, milagrosamente  salvo,  saiu  penosamente engatinhando de seu ex-automóvel.

11.         – A la pucha! – exclamou então um guasca, entre espantado e penalizado – o animal deu cria!

(Mário Quintana, Almanaque do Correio do Povo, Porto Alegre, 1971)

Responda às questões de acordo com o texto.

1. O fato narrado no texto passou-se:

a. (   ) na Bahia       b. (   ) no Rio Grande do Sul       c. (   ) No Amazonas

2. Justifique sua resposta, transcrevendo do textos seis palavras ou expressões típicas daquele Estado.

1._______________________            2. ____________________________

3._______________________            4. ____________________________

5. _______________________           6. ____________________________

3. No dizer do autor, a história é “tão extraordinária mesmo, que até tem três metades” (par. 2). Isso quer dizer que:

a. (   ) é uma história absolutamente verídica.

b. (   ) é uma história absolutamente inverídica.

c. (   ) como todos os “causos” gauchescos, é um fato relatado com exagero e fantasia.

4. Quem foi o primeiro a ter conhecimento do estranho objeto?___________

5. O piazinho:

a. (   ) viu a “coisa” antes de ouvi-la.

b. (   ) ouviu a “coisa” antes de vê-la.

c. (   ) viu e ouviu a “coisa” ao mesmo tempo.

6. Justifique a sua resposta, transcrevendo passagens do texto:

____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

7. Em: “… todos a pé, porque também nem houvera tempo para montar…” (par. 8), é estranho que os gauchos do texto estivessem a pé, porque:

a. (   ) o gaucho que trabalha nos pampas é, tradicionalmente, cavaleiro e inseparåvel de seu cavalo.

b. (   ) o fato ocorreu longe da cidade.

c. (   ) o fato ocorreu na cidade e as pessoas não tinham cavalo.

8. Numere os instrumentos usados no “combate”, relacionando-os com as pessoas:

a. (   ) vassouras

b. (   ) boleadeiras                                          1. homens

c. (   ) porretes                                                2. guris

d. (   ) garruchas                                            3. mulheres

e. (   ) pás de mexer marmelada

f.  (   ) bodoques

9. Numere de 1 a 7, as passagens abaixo na ordem em que aconteceram os fatos.

a. (   ) “… chegado que foi, o piazinho contou a história como pode, mal-e-mal e depressa.”

b. (   ) “… exclamou então um guasca, entre espantado e penalizado: o animal deu cria!”

c. (   ) “Ia um piazinho estrada fora no seu petiço quando ouviu um barulho estranho…”

d. (   ) “… quando este apareceu na entrada da cidade, caiu aquele montão de povo em cima dele…”

e. (   ) “O piazinho deu meia-volta e largou numa disparada louca, rumo da cidade, com os olhos do tamanho de um pires.”

f. (   ) “O povo de afastou, resfolegante, e abriu-se uma clareira, no meio da qual se viu o auto emborcado…”

g. (   ) “… o motorista saiu penosamente engatinhando…”

10. Em:” … pelo que sucedeu às deveras.” (par. 2), a palavra em destaque significa:

a. (   ) aconteceu       b. (   ) substituiu        c. (   ) transmitiu

11. Em: “… deixemos de filosofança…” (par. 2), a palavra em destaque é uma forma para significar:

a. (   ) alta filosofia

b. (   ) conversa fiada

c. (   ) argumentações importantes

12. Piazinho é um diminutivo de __________, termo usado na região _____ e que significa _________

13. Em: “E eis que a “coisa… apontou por detrás de um capão…” (par. 4) a palavra grifada significa:

a. (   ) apareceu      b. (   ) indicou       c. (   ) anotou

14. Relacione as duas colunas de acordo com o sentido das palavras usadas no texto:

a. (   ) extraordinária (par. 2)             1. Corrida impetuosa

b. (   ) clareira (par. 10)                         2. Direção

c. (   ) ventas (par. 4)                              3. Fechados

d. (   ) disparada (par. 6)                       4. Tomando fôlego, respirando

e. (   ) rilhando (par. 6)                          5. Fora do comum, anormal

f.  (   ) cerrados (par. 6)                          6. Pistola de carregar pela boca

g. (   ) resfolegante (par. 10)                 7. Espaço vazio

h. (   ) emborcado (par. 10)                   8. Cada uma das fossas nasais

i.  (   ) transes (par. 10)                           9. Posto de boca para baixo

j.  (   ) rumo (par. 6)                               10. Rangendo os dentes

k. (   ) garruchas (par. 8)                      11. Momentos de aflição, angústia

15. Em: “Ia um piazinho estrada fora no seu petiço…” (par. 3), a palavra destacada tem o mesmo sentido que em:

a. (   ) Que fora ele levou de Maria!

b. (   ) Entendeu tudo, fora o principal.

c. (   ) O potro disparou campo fora.

d. (   ) Se não fora por ele, nunca teria ficado.

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GABARITO

  1. b
  2. causo, brava indiada, piazinho, petiço, a la pucha, guasca
  3. c
  4. um piazinho que ia pela estrada no seu cavalo.
  5. b
  6. “… quando de repente ouviu – fufufupubum! chiiiipum! E eis que a coisa, até então invisível…” (linhas 12 a 14)
  7. a
  8. a.(3)     b.(1)     c.(1)      d.(1)      e.(3)      f.(2)
  9. a. 3      b.(7)     c.(1)      d.(4)      e.(2)      f.(5)       g.(6)
  10. a
  11. b
  12. piá, sul do Brasil, menino
  13. a
  14. a.(5)     b.(7)    c.(8)      d.(1)     e.(10)     f.(3)     g.(4)     h.(9)     i.(11)   j.(2)   k.(6)
  15. c

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ANEXO B – O ADJETIVO

O adjetivo é a classe de palavra que expressa uma qualidade, um modo de ser, a aparência ou estado de um objeto nomeado pelo substantivo.

  • Qualidade – moça gentil
  • Modo de ser – homem sério
  • Estado – criança enferma
  • Aspecto ou aparência – jardim florido

Nome substantivo e nome adjetivo. Substantivação do adjetivo. Locução adjetiva.

Como o adjetivo tem uma estreita relação com o substantivo, às vezes a mesma forma pode ser usada como substantivo ou adjetivo. A única maneira de distinguirmos uma classe da outra é verificarmos as caracaterísticas da palavra dentro da frase. Veja os exemplos abaixo.

1. Um velho cego pedia esmolas.       2. Um cego velho pedia esmolas.

Na frase 1 temos a palavra “velho” que é um substantivo. Indica uma pessoa em idade avançada. Mas a palavra “cego” está indicando um estado desta pessoa, que poderia ser baixa, gorda, triste, alegre, magra, etc…

Na frase 2, as palavras mudaram de lugar. “Cego” passou a ser substantivo e indica uma pessoa que não vê. “Velho” aqui indica o estado desta pessoa, que poderia ser baixa, gorda, jovem, alegre, magra, etc…

Uma palavra que, intrinsicamente é um adjetivo, pode passar a ser um substantivo. Isto acontece quando usamos um artigo antes do adjetivo, fato esse que chamamos de substantivação do adjetivo, isto é, transformar um adjetivo em substantivo. Observe a diferença nas frases abaixo:

1. O céu cinzento indica chuva.        2. O cinzento do céu indica chuva.

Na frase 1, “cinzento”  é usado como adjetivo, indicando uma aparência do substantivo “céu”. Já na frase 2, “cinzento” aparece como substantivo, determinado por um artigo, seguido de uma expressão (do céu) equivalente a um adjetivo (celeste). Às vezes, o adjetivo aparece representado por mais de uma palavra. Ex.:

Juca chutou a bola de borracha ( bola emborrachada) que bateu na cerca de arame (cerca aramada) e furou.

As expressões sublinhadas estão qualificando o substantivo que as antecedem. Em geral, podem ser substituídas por um adjetivo que equivale ao sentido expresso. Essas expressões são chamadas de locuções adjetivas. Mas nem sempre a locução adjetiva pode ser substituída por um adjetivo. Veja o exemplo:

mesa de madeira.

“De madeira” está qualificando a mesa, entretanto não é possível substituir essa locução por um adjetivo que expresse o seu sentido.

Abaixo damos algumas locuções adjetivas e o adjetivo a que se referem.

Vegetação de lago          –     vegetação lacustre

Rebanho de cabras         –     rebanho caprino

Água para beber              –     água potável

Pureza de anjo                 –     pureza angelical

Prova do mês                   –     prova mensal

Guarda da floresta           –     guarda florestal

Rebanho de ovelhas        –     rebanho ovino

Água das chuvas             –      água pluvial

Água dos rios                   –      água fluvial

Peixe do mar                    –      peixe marinho

População da cidade        –     população urbana

Homem sem cabelo          –     homem calvo

Patas de trás                    –      patas traseiras

Rodas da frente                –      rodas dianteiras

Rebanho de cavalos         –      rebanho equino

Criação de porcos            –      criação suína

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ANEXO C   –   CLASSIFICAÇÃO DO ADJETIVO

Quanto à formação, os adjetivos são classificados em:

Simples – quando apresentam uma única palavra. Ex.: comida nordestina

Composto – quando apresentam mais de uma palavra. Ex.: acordo luso-brasileiro

Primitivo – quando não é originado de outra palavra. Ex.: gravata azul

Derivado – quando provém de outra palavra. Ex.: água esverdeada, moça tristonha

Pátrio – são aqueles que se referem à nacionalidade, isto é, ao país, continente, cidade, região de origem do ser ou objeto.

Ex.: amazonense (originário do Amazonas)

Em geral, os adjetivos pátrios são derivados de nome de lugar, utilizando-se da raiz ou radical da palavra que a origina.

Ex.: Maranhão – maranhense

Entretanto, alguns adjetivos fogem a essa regra. Abaixo damos alguns desses adjetivos:

Espanha – hispânico

Rio Grande do Sul – gaúcho

Rio de Janeiro (cidade) – carioca

Rio de Janeiro (estado) – fluminense

Rio Grande do Norte – potiguar

Espírito Santo – capixaba

Portugal – lusitano

Japão – nipônico

Alemanha – teutônico

Alguns adjetivos pátrios são usados na composição dos adjetivos compostos sob forma reduzida. Abaixo damos alguns dos mais usados:

Anglo         –        Inglês                                      Austro    –     austríaco

Euro           –        europeu                                    Franco   –     francês

Hispano     –        espanhol, hispânico           Indo       –     indiano

Ítalo            –        italiano                                    Luso      –     português, lusitano

Nipo            –        japonês, nipônico                Sino       –    chinês

Teuto          –        alemão, teutônico

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AUTO-AVALIAÇÃO

1. Use as siglas entre parênteses para identificar os adjetivos (adj) e locuções adjetivas (loc.adj) existentes nas frases abaixo:

a)     Era de impressionante beleza a filha mais nova do imperador.

b)     Ovídio era um garoto gordo e baixo, porém a irmã era magra e esbelta.

c) Havia flores azuis e vermelhas no lindo vaso de porcelana.

d)     O satélite metereológico envia imagens nítidas à Terra.

e)     Estou ansioso por conhecer a mais nova pretendente ao cargo.

f)      Alguns programas de TV são de péssima qualidade.

g)     O gavião traiçoeiro levou a pobre avezinha desprevenida.

2. Transforme as locuções adjetivas grifadas em adjetivos:

a) Havia flores do campo no vaso. _________________________________

b) Alguns programas de TV são de péssima qualidade. ________________

c) Existe um órgão de proteção aos índios. __________________________

d) Os queijos de Minas são muito apreciados. ________________________

e) Os ventos dos mares suavizam o calor. ___________________________

3. Expresse através de um adjetivo os conceitos abaixo:

a) aquilo que não se pode descrever é _____________________________

b) o que não se pode corrigir é ___________________________________

c) o que não se pode ler é ______________________________________

d) o que não se pode tocar é ____________________________________

e) o que não se pode tragar é ____________________________________

f) o que não se pode perdoar é ___________________________________

g) o que não é possível é ________________________________________

h) o que não é real é ___________________________________________

i) o que não se pode realizar é ____________________________________

j) o que não se pode limitar é _____________________________________

k) o que não é próprio é ________________________________________

l) o que não é legal é __________________________________________

m) quem não é feliz é _________________________________________

n) quem não é honesto é ______________________________________

o) o que não tem conforto é ____________________________________

__________________________________________________________________________

GABARITO

Questão 1:

  1. impressionante, nova – adj
  2. gordo, baixo, magra, esbelta – adj
  3. azuis, vermelhas – adj;  de porcelana – loc. adj
  4. metereológico, nítidas – adj
  5. ansioso, nova – adj
  6. de TV – loc.adj;  péssima – adj
  7. traiçoeiro, pobre, desprevenida – adj

Questão 2:

a)      Havia flores campestres no vaso.

b)      Alguns programas televisivos são de péssima qualidade.

c)      Existe um órgão de proteção indígena.

d)      Os queijos mineiros são muito apreciados.

e)      Os ventos marítimos suavizam o calor.

Questão 3:

a) indescritível            b) incorrigível         c) ilegível        d) intocável         e) intragável

f) imperdoável            g) impossível          h) irreal           i) irrealizável        j) ilimitável

k) impróprio                 l) illegal                 m) infeliz        n) desonesto        o) desconfortável

Você deverá ter 22 respostas corretas para ser considerado apto neste assunto.

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LEITURA PARA DESCONTRAÇÃO E REFLEXÃO.

ABC

Quando a gente aprende a ler, as letras, nos livros, são grandes. Nas cartilhas – pelo menos nas cartilhas do meu tempo – as letras eram enormes. Lá estava o A, como uma grande tenda, O B, com seu grande busto e sua barriga ainda maior. O C, sempre pronto a morder a letra seguinte com a sua grande boca. O D, com seu ar próspero de grão-senhor. Até o Z, que sempre me parecia estar olhando para trás. Talvez porque não se convencesse que era a última letra do alfabeto e quisesse certificar-se de que atrás não vinha mais nenhuma.

As letras eram grandes, claro, para que decorássemos a sua forma. Mas não precisavam ser tão grandes. Que eu me lembre, minha visão na época era perfeita. Nunca mais foi tão boa. E no entanto os livros infantis eram impressos com letras graúdas e entrelinhas generosas. E as palavras eram curtas. Para não cansar a vista.

Á medida que a gente ia crescendo, as letras iam diminuindo. E as palavras, aumentando. Quando não se tem mais uma visão de criança é que se começa, por exemplo, a ler jornal, com seu tipos miúdos e linhas apertadas que requerem uma visão de criança. Na época em que começamos a prestar atenção em coisas como notas de pé de página, bulas de remédio e subcláusulas de contrato, já não temos mais metade da visão perfeita que tínhamos na infância, e esbanjávamos nas bolas da Lulu e no corre-corre do Faísca.

Chegamos à idade de ler grossos volumes em corpo 6 quando só temos olhos para as letras gigantescas, coloridas e cercadas de muito branco, dos livros infantis. Quanto mais cansada a vista, mais exigem dela. Alguns recorrem à lente de aumento para seccionar as grandes palavras em manejáveis monossílabos infantis. E para restituir às letras a sua individualidade soberana, como tinham na infância.

O E, que sempre parecia querer distância das outras.

O R! Todas as letras tinham pé, mas o R era o único que chutava.

O V, que aparecia em várias formas: refletido na água (o X), de muletas (o M), com o irmão siamês (o W).

O Q, que era o O com a língua de fora.

De tanto ler palavras, nunca mais reparamos nas letras. E de tanto ler frases, nunca mais notamos as palavras, com todo o seu mistério.

Por exemplo, pode haver palavra mais estranha do que “esdrúxula”? É uma palavra, sei lá. Esdrúxula. Ainda bem que nunca aparecia nas leituras da infância, senão teria nos desanimado. Eu me recusaria a aprender uma língua, se soubesse que ela continha a palavra “esdrúxula”. Teria fechado a cartilha e ido jogar bola, para sempre. As cartilhas, com sua alegre simplicidade, serviam para dissimilar os terrores que a língua nos reservava. Como “esdrúxulo”. Para não falar em “autóctone”. Ou, meu Deus, em “seborreia”!

Na verdade, acho que as crianças deviam aprender a ler nos livros do Hegel e em longos tratados de metafísica. Só elas têm a visão adequada à densidade do texto, o gosto pela abstração e tempo disponível para lidar com o infinito. E na velhice, com a sabedoria acumulada numa vida de leituras, com as letras ficando progressivamente maiores à medida que nossos olhos se cansavam, estaríamos então prontos para enfrentar o conceito básico de que vovô vê a uva, e viva o vovô.

Vovô vê a uva! Toda a nossa inquietação, nossa perplexidade e nossa busca terminariam na resolução desta enigma primordial. Vovô. A uva. Eva. A visão.

Nosso último livro seria a cartilha. E a nossa última aventura intelectual, a contemplação enternecida da letra A.

(VERÍSSIMO, Luis Fernando. Comédias para se Ler na Escola.Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2001)

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