Redação

REDAÇÃO 6 – A expressividade dos sinais de pontuação

By 2 de junho de 2010 7 Comments

CURSO DE REDAÇÃO – ROTEIRO N° 6

1.TEMA: Os sinais de pontuação e seu uso.

2. PRÉ-REQUISITOS: Gostar de ler.

3. META: As atividades deste Roteiro tem o objetivo de proporcionar ao estudante estudo sobre o uso correto dos sinais de pontuação.

4. ATIVIDADES DE ESTUDO:

a) Leia os textos A e B. Faça os exercícios, depois que tiver certeza que entendeu bem as explicações dadas.

b) Por fim, faça uma última leitura e reveja todos os exercícios com o objetivo de fixar os conceitos estudados.

c) Se encontrar dificuldade, procure um professor de português ou um amigo que possa ajudá-lo a esclarecer as dúvidas surgidas no decorrer do estudo.

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ANEXO A – LEITURA EXPRESSIVA

A VIDA ENTRE PARÊNTESES

(Moacyr Scliar. Jornal Zero Hora, 05/02/1992)

Leitor pergunta por que uso tantos parênteses nas minhas crônicas (leitores inteligentes conseguem descobrir no texto particularidades significativas). A pergunta me fez pensar (não chega a ser um evento raro na minha existência, mas pensar entre parênteses não era algo que eu fizesse com freqüência). E então me dei conta de que os sinais gráficos, mais que as letras (por muito importantes que estas sejam), veiculam emoções. Quanta emoção numa exclamação! E pode haver dúvida maior que a do ponto de interrogação? Sobre isso sempre somos reticentes… Mas temos que admitir que certos sinais, como, por exemplo, a vírgula, esta pequenina serpente que, de espaço em espaço, atravessa o caminho, sempre acidentado, de nossa frase, é uma evidência, não muito clara, decerto, mas evidência, sim, de nossa indecisão.

Já os parênteses (a discussão a respeito foi propositalmente omitida no parágrafo anterior) têm uma significação (alguns não admitirão que é uma significação, mas enfim), os parênteses, dizia eu quando os parêntese me interromperam, traduzem não apenas uma forma de escrever, mas, (o que é mais importante), um modo de viver. Sim, porque se pode viver (ainda que não plenamente) entre parênteses. O garoto (ah, esses garotos) que no meio do tema se distrai pensando na sua coleguinha (aquela lindíssima) está vivendo entre parênteses. O executivo, que no meio da tarde (nessas horas que os americanos chamam de “menores” mas que para muitos são as maiores), sai para uma escapada (e deem a esta escapada a interpretação que vocês quiserem) está vivendo como? (a pergunta era para ficar soando retoricamente, mas não me furto a dar aqui a resposta: entre parênteses).

Sim, confesso: gosto de parênteses (deve ser uma espécie de perversão). Uma vez escrevi um livro chamado (O Ciclo das Águas). O título era assim mesmo, entre parênteses, (eu queria simbolizar com isto um ciclo fechado). Deu tanta confusão que, nas edições seguintes, tive de tirar os parênteses (para escapar dos parênteses, só mesmo assim, em novas edições. Lamentável é que a vida tenha uma única edição. Muitas vezes esgotada. Muitas vezes entre parênteses).

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ANEXO B – A EXPRESSIVIDADE DA PONTUAÇÃO

A língua escrita apresenta muitas diferenças em relação à língua falada.

Na fala, podemos contar com uma série de recursos para transmitir nossa mensagem, tais como gestos, tom de voz, expressão facial, entoação. Enfim, quando falamos, nossa mensagem vem reforçada por inúmeros recursos que não temos quando escrevemos. Para tentar reproduzir, na escrita, os recursos de que dispomos na fala, contamos com vários sinais gráficos denominados sinais de pontuação.

Você deve ter observado que no texto do Anexo A, foi usado vários desses sinais para nos informar que tom de voz e entoação das palavras deve ser usado para o entendermos.

Os sinais de pontuação servem para marcar pausas na leitura ou na melodia da frase.

O emprego dos sinais de pontuação não é somente marcado por regras. Existem também razões de ordem subjetiva, ou de estilo, que determinam a pontuação de um texto.

Os sinais de pontuação usados em português são:

1. vírgula                                    ,

2. ponto                                      .

3. ponto-e-vírgula                    ;

4. dois ponto                              :

5. ponto de interrogação        ?

6. ponto de exclamação          !

7. reticências                            …

8. travessão                               –

9. aspas                                    “   ”

10. parênteses                        (   )

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ANEXO C – O USO DE CADA SINAL DE PONTUAÇÃO

1. VÍRGULA ( , )

Marca uma pausa de curta duração e serve para separar elementos de uma oração e orações de um período.

Quando a frase não segue a ordem natural ou direta (sujeito + predicado + complementos), o uso da virgula se faz necessário para que a mensagem seja interpretada corretamente. Isso acontece quando intercalamos alguma palavra ou expressão entre os termos imediatos, quebrando a sequência natural da frase.

Ex: Fomos, depois do almoço, ao cinema.    (a sequência natural é: Fomos ao cinema depois do almoço)

Além disso, usa-se a virgula:

1. para separar termos do mesmo valor sintático, usados numa sequência.

Ex: Ela era alta, bonita, simpática, inteligente.

(alta, bonita, simpática, inteligente exercem a mesma função sintática: predicativo do sujeito e estão em sequência, na frase)

2. nas datas. Ex: Brasília, 04 de janeiro de 2010.

3. para indicar o supressão do verbo, em uma oração.

Ex: Fomos ao cinema; eles, ao teatro. (foram)

4. para separar o aposto ou qualquer outra expressão explicativa.

Ex: Jorge Amado, autor de “Gabriela, cravo e canela”, é um excelente escritor brasileiro. (autor de Gabriela, cravo e canela – aposto)

5. para separar o vocativo.

Ex: Crianças, aqui está o que prometi!

(em qualquer lugar da frase que se coloque o vocativo criança, ele será separado por vírgula: Aqui está, crianças, o que prometi! Aqui está o que prometi, crianças!)

O uso da vírgula, para separar orações em um período composto, segue o mesmo princípio de uso no período simples, em relação às orações que o compõem.

No período composto por coordenação, as orações serão separadas por vírgula quando tiverem o mesmo valor sintático.

Ex: Joana foi ao cinema, comprou pipoca, sentou-se na primeira fila de cadeiras, mas dormiu durante o espetáculo. (neste período, todas as orações têm o mesmo valor sintático – são orações coordenadas – e se apresentam numa sequência).

No período composto por subordinação formado por orações substantivas, adjetivas e/ou adverbiais, o uso da vírgula vai obedecer aos mesmos princípios de uso para separar os termos, como no período simples. Termos da oração na ordem direta, sem vírgulas; na ordem inversa, usa-se a vírgula nas situações exigidas. Ex:

“ O enunciado não se constrói com um amontoado de palavras e orações porque elas se organizam segundo princípios gerais de dependência e de independência sintática e semântica que são recobertos por unidades melódicas e rítmicas que sedimentam estes princípios.” (adaptado)

(Evanildo Bechara, Moderna Gramática Portuguesa. 37a. Edição, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2009)

No exemplo acima, não foi usada nenhuma vírgula porque as orações que exercem a função de complemento da oração principal (o enunciado não se constrói com um amontoado de palavras e princípios) foram posicionadas na ordem direta da frase. Entretanto, deve-se evitar a construção de períodos muito longos, mesmo que feitos na ordem direta, para que a mensagem se torne clara ao leitor.

Cabe, ainda, salientar que a vírgula pode alterar a interpretação de uma mensagem. Veja:

–  Não atirem!             – Não, atirem!

Por isso, ao redigir um texto, deve-se cuidar para que a pontuação, principalmente a vírgula, esteja no lugar adequado a fim de evitar mal-entendidos. Como afirma Evanildo Bechara, a frase é um enunciado que obedece a princípios gerais sintáticos, semânticos e melódicos e nem sempre a ordem direta será a melhor alternativa para tornar clara uma mensagem.

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Exercícios.

A. Use  a vírgula onde for necessário. Depois, coloque na ordem direta ou natural, as frases que estiverem na ordem inversa, mas observando sempre a clareza da informação:

1. Se estudares serás aprovado; caso contrário não cursarás medicina  o que te deixará frustrado.

2. Logo depois do nascimento do filho em 21 de janeiro de 2000 os pais foram para o interior.

3. No primeiro dos  três artigos que publicou na imprensa O presidente nefasto são numerosos os argumentos contra a venda de empresas estatais.

4. Porque os pais estavam desempregados o menino vendia balas na rua mas o seu sonho era frequentar a escola.

5. Depois quando já tinham vendido todas as empresas nacionais deram-se conta de que os compradores remeteriam o lucro para o exterior onde ficavam as matrizes.

6. Sexta-feira às 12 horas iremos esperá-los no aeroporto.

7. Ele era honesto; o banqueiro desonesto.

8. Naquela manhã João ia sair para fazer compras.

9. Assim como há quem reclame do trabalho outros reclamam de não trabalhar.

10. Os maiores culpados são os que não contestam não lutam pelos seus direitos acham que não há solução que a vida é assim mesmo que cada povo tem o governo que merece.

11. Sua casa ficava na Favela do Angu na periferia da cidade o que o fazia gastar muito tempo para chegar ao trabalho.

12. O prefeito mandou construir um obelisco depois patrocinou um desfile de modas.

13. Este ano como se sabe é ano de eleições. Cabe ao jovem feliz ou não votar com consciência.

14. Desejosos de escolher a nova diretoria do grêmio da escola Henrique por exclusão acabou votando na chapa de Antônio.

B. A frase abaixo, foi escrita num testamento deixado para a irmã do falecido. Um irmão, sorrateiramente, modificou a pontuação para que fosse ele, o beneficiado. Escreva como ficaria a nova frase com essa alteração.

Deixo os meus bens: ao meu irmão não, aos sobrinhos nada, aos netos.

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GABARITO

Questão A.

1. Se estudares, serás aprovado; caso contrário, não cursarás medicina o que te deixará frustrado.

Ordem direta: Serás aprovado se estudares; caso contrário, não cursarás medicina, o que te deixará frustrado.

2. Logo depois do nascimento do filho em 21 de janeiro de 2000 os pais foram para o interior.

Ordem direta: Os pais foram para o interior em 21 de janeiro de 2000 logo depois do nascimento do filho.

3. No primeiro dos  três artigos que publicou na imprensa, O presidente nefasto, são numerosos os argumentos contra a venda de empresas estatais.

Ordem direta: Os argumentos contra a venda de empresas estatais são numerosos no primeiro dos três artigos, O presidente nefasto, que publicou na imprensa.

4. Porque os pais estavam desempregados, o menino vendia balas na rua, mas o seu sonho era frequentar a escola.

Ordem direta: O menino vendia balas na rua porque os pais estavam desempregados, mas o seu sonho era frequentar a escola.

5. Depois, quando já tinham vendido todas as empresas nacionais, deram-se conta de que os compradores remeteriam o lucro para o exterior onde ficavam as matrizes.

Ordem direta: Depois, deram-se conta de que os compradores remeteriam o lucro para o exterior onde ficavam as matrizes, quando já tinham vendido todas as empresas nacionais.

6. Sexta-feira, às 12 horas, iremos esperá-los no aeroporto.

Ordem direta: Iremos esperá-los no aeroporto, sexta-feira, às 12 horas.

7. Ele era honesto; o banqueiro, desonesto. (a frase já está na ordem direta)

8. Naquela manhã, João ia sair para fazer compras.

Ordem direta: João ia sair para fazer compras naquela manhã.

9. Assim como há quem reclame do trabalho, outros reclamam de não trabalhar.

Ordem direta: Outros reclamam de não trabalhar assim como há quem reclame do trabalho.

10. Os maiores culpados são os que não contestam, não lutam pelos seus direitos, acham que não há solução, que a vida é assim mesmo, que cada povo tem o governo que merece. (a frase já está na ordem direta)

11. Sua casa ficava na Favela do Angu, na periferia da cidade, o que o fazia gastar muito tempo para chegar ao trabalho. (a frase já está na ordem direta)

12. O prefeito mandou construir um obelisco; depois, patrocinou um desfile de modas.

Ordem direta: O prefeito mandou construir um obelisco; patrocinou um desfile de modas depois.

13. Este ano, como se sabe, é ano de eleições. Cabe ao jovem, feliz ou não, votar com consciência.

Ordem direta: Este ano é ano de eleições, como se sabe. Cabe ao jovem votar com consciência, feliz ou não.

14. Desejoso de escolher a nova diretoria do grêmio da escola, Henrique, por exclusão, acabou votando na chapa de Antônio.

Ordem direta: Desejoso de escolher a nova diretoria do grêmio da escola, Henrique acabou votando na chapa de Antonio, por exclusão.

Questão b.

Deixo os meus bens ao meu irmão, não aos sobrinhos, nada aos netos.

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2. PONTO – ( . )

É usado para:

a)     indicar o fim da frase.

b)     indicar abreviaturas. Ex: Exmo. Sr. Dr. Desembargador Fulano de Tal.

O ponto, numa situação de se ditar um texto para outra pessoa escrevê-lo, é chamado por nomes específicos, dependendo da situação em que se encontra no texto.

Isto me lembra os comandos que eu, aluna das primeiras séries do Ensino Fundamental (antigo Primário, na década de 1950), ouvia de minha professora, quando estava a fazer um exercício de ortografia chamado “ditado”. Funcionava assim: os alunos ficavam atentos à fala da professora, que pronunciava, pausadamente, as palavras do texto. Nós, os alunos, escrevíamos, no caderno, essas palavras (tínhamos que escrevê-las corretamente!). Ao surgir, no texto, o ponto, a professora dizia:

–        Ponto seguido! (para continuarmos a próxima frase na mesma linha da pauta da folha do caderno)

–        Ponto parágrafo! (para escrevermos a próxima frase na outra linha da pauta da folha do caderno, deixando-se um pequeno espaço da margem do papel)

–        Ponto final! (indicava que o texto chegara ao fim)

Na realidade, era uma convenção didática, usada pelos professores da época. Esta convenção ajudou-me a entender, posteriormente, porque existem espaços entre grupos de frase, num texto.

O ponto não indica somente o fim de uma frase ou de um texto.

Quando expomos nossas idéias através da escrita, costumamos separá-las em cada parágrafo do texto e é nesta organização das idéias que entra o ponto “parágrafo” de que falava minha professora, citada linhas atrás.

Quando passamos de um grupo a outro de idéias a respeito de um assunto, marcamos essa transposição pelo ponto “parágrafo”. Deixa-se, então, em branco, o resto da linha em que termina essa exposição e iniciamos a próxima exposição na linha abaixo, com um pequeno recuo de espaço a partir da margem do papel. Com isso, ao lermos um texto, fica mais fácil identificar as idéias do autor e resumir o texto.

3. PONTO-E-VÍRGULA ( ; )

O ponto-e-vírgula marca uma pausa maior que a vírgula e menor que o ponto. Por ser um sinal intermediário entre a vírgula e o ponto, fica difícil sistematizar seu emprego. Entretanto, há algumas normas para sua utilização.

Usamos o ponto-e-vírgula para:

a) separar orações coordenadas dentro de um período que tenha certa extensão ou que apresentem certa força expressiva.

Ex.: “De repente, armou-se um temporal, que parecia vir o mundo abaixo; o vento era tão forte, que do mar, apesar da escuridão, viam-se contradançar, no espaço, as telhas arrancadas na cidade alta.” (Manuel Antonio de Almeida, Memórias de um sargento de Milícias)

b) para separar os diversos itens de uma enumeração (em leis, decretos, portarias, regulamentos, etc.).

Damos como exemplo, parte do art. 5o. da Constituição Brasileira: Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos.

Art. 5o.  Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

I – homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição;

II – ninguém será submetido à tortura e nem a tratamento desumano ou degradante;

III – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;

IV – é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem;

V – é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias;

VII – é assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva;

VIII – ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei;

IX – é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;

X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;

XI – a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou durante o dia, por determinação judicial;

XII – é inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas, salvo, no último caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de investigação criminal ou instrução processual penal;

XIII – é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer;

XIV – é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional;

_ _ _ _ _ _ _ _

4. DOIS PONTOS ( : )

Os dois pontos marcam uma sensível suspensão da voz na melodia em uma frase não concluída. Emprega-se antes de:

a)     uma enumeração.

Ex.: Comprou diversas mercadorias no supermercado: artigos de limpeza, gêneros alimentícios e brinquedos.

b)     uma explicação.

Ex.: Quando o vi, fiquei contente: sabia que me traria boas notícias.

c)     Uma citação ou fala de alguém.

Ex: “… vibrava entusiasmado as cordas metálicas de uma viola ordinária, acompanhando (…) os versos que improvisava e outros que trazia de cor:

Lá vai a garça voando

Para as bandas do sertão

Leva Maria no bico

Teresa no coração!”

(Aluisio de Azevedo. O MULATO)

5. PONTO DE INTERROGAÇÃO ( ? )

1. Usado sempre no final da frase, serve para marcar as frases interrogativas diretas.

Ex.: “ – E por que não? Que tenho eu com o preconceito dos outros? Que culpa tenho eu de te amar?

(Aluisio de Azevedo, O Mulato)

2. Pode-se combinar o ponto de interrogação com o ponto de exclamação, quando se quer fazer ma pergunta traduzindo surpresa.

Ex.: – Josefa desmanchou o noivado.

– O quê?!

3. Há escritores que, para acentuar a atitude de expectativa, num diálogo, usam o ponto de interrogação no lugar de palavras.

Ex.: “ – É… mas está na cara, patrão! Um vidrinho assim, três cruzados. Estou vendo que tenho de vender a paineira.

??

– Não vê que Chico Bastião dá dezoito mil reis por ela – e inda um capadinho de choro.”      (Monteiro Lobato, Urupês)

Esses recursos, não só tem valor linguístico como também visam indicar a expressão do rosto e do corpo do falante.

6. PONTO DE EXCLAMAÇÃO ( ! )

É usado sempre no final da frase para indicar surpresa, espanto, admiração, raiva, desejo, susto, ordem, etc.

No texto abaixo, retirado da obra romântica “Senhora”, de José de Alencar e que foi transformado em novela de televisão (“Essas mulheres”), temos o uso do ponto de exclamação indicando as várias tonalidades da fala dos personagens. A melhor maneira de perceber essas tonalidades é ler o texto em voz alta. É o que chamamos de interpretação do personagem.

“A moça fez um esforço.

– Esse moço, que está justo com a Adelaide Amaral, é o homem a quem eu escolhi para marido. Já vê que não podendo pertencer a duas,e necessário que eu o dispute.

– Conte comigo! acudiu o velho esfregando as mãos, como quem entrevia os benefícios que essa paixão prometia a um tutor hábil.

– Esse moço…

– O nome? perguntou o velho molhando a pena. Aurélia fez um aceno de espera.

– Esse moço chegou ontem; é natural que trate agora dos preparativos para o casamento que está justo há perto de um ano. O senhor deve procurá-lo quanto antes…

– Hoje mesmo!

– E fazer-lhe sua proposta. Estes arranjos são muito comuns no Rio de Janeiro.

– O senhor sabe melhor do que eu como se aviam estas encomendam de noivos.

– Ora, ora!

– Previno-o de que meu nome não deve figurar em tudo isto.

– Ah! Quer conservar o incógnito.

– Até o momento da apresentação. Entretanto pode dizer quanto baste para que não suponham que se trata de alguma velha ou aleijada.

– Percebo! exclamou o velho, rindo. Um casamento romântico.

– Não, senhor; nada de exagerações. Só tem licença para afirmar que a noiva não é velha nem feia.

– Quer preparar a surpresa?

– Talvez. Os termos da proposta…

– Com licença! Desde que deseja conservar o incógnito, não devo aparecer?

Aurélia refletiu um instante.

– Não quero que isto passe do senhor. Caso ele o reconheça como meu tio e tutor, não poderia o senhor convencê-lo que eu não tenho nisso a mínima parte? Que é um negócio da família ou dos parentes?

– Bem lembrado! Eu cá me arranjo; não tenha cuidado.

– Os termos da proposta devem ser estes; atenda bem. A família de tal moça misteriosa deseja casá-la com separação de bens, dando ao noivo a quantia de cem contos de reis de dote. Se não bastarem cem e ele exigir mais, será o dote de duzentos…

– Hão de bastar. Não tenha dúvida.”

– – – – – – – – – – –

7. RETICÊNCIAS ( … )

As reticências marcam uma interrupção da sequência lógica da frase. Indica principalmente:

a) a suspensão do pensamento.

Ex.: Estive pensando sobre… Bem, não importa agora.

b) certas tonalidades da voz de natureza emocional: hesitação, dúvida, timidez, sarcarmos, etc.

Ex.: “ – É promessa, há de cumprir-se.

– Sei que você fez promessa… mas uma promessa assim… não sei…

Creio que, bem pensado… Você, que acha, prima Justina?”

(Machado de Assis, Dom Casmurro)

8. TRAVESSÃO ( – )

É usado para:

a) indicar mudança da pessoa que fala, nos diálogos.

Ex.:  Posso falar com você agora?

Aguarde só um instante.

b) para substituir a vírgula que separa termos intercalados, quando se quer dar-lhes destaque.

Ex.: Pelé o maior jogador de futebol de todos os tempos hoje é um  empresário bem-sucedido.

9. ASPAS ( “ ” )

Emprega-se, principalmente, no início e no fim de uma citação ou expressão, para distingui-la do resto do contexto.

Ex:

. Algum sábio já afirmou: “Agir na paixão é embarcar durante a tempestade”.

. Estavam no “hall” do hotel.

. “Escrava Isaura” é o título de uma novela brasileira conhecida mundialmente.

10. PARÊNTESES (  )

Usa-se os parênteses para inserir, no texto:

a) uma explicação.

b) uma reflexão ou comentário sobre o que se afirma.

Você pode ver exemplos contidos no texto de Moacir Sclair, no início deste Roteiro.

Exercícios.

Reescreva o texto abaixo, usando a pontuação adequada, inclusive criando parágrafos.

Um homem ontem chegou à porta do circo e se apresentou o dono do circo disse já tem emprego mas explique o seguinte como se tornou domador de elefantes muito encabulado o domador respondeu eu era domador de pulgas porém a vista foi enfraquecendo enfraquecendo

GABARITO

Um homem, ontem, chegou à porta do circo e se apresentou.

O dono do circo disse:

– Já tem emprego. Mas, explique o seguinte: como se tornou domador de elefantes?

Muito encabulado o domador respondeu:

– Eu era domador de pulgas, porém, a vista foi enfraquecendo, enfraquecendo…

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LEITURA REFLEXIVA         –          PONTOS

No início era um ponto. Ponto de partida. O ponto onde a tangente toca a circunferência, e faz-se a vida. Ponto pacífico.

O círculo é a timidez do ponto. A linha é o ponto desvairado. O travessão é o ponto-ante-ponto, a primeira exploração embevecida, a infância. Ligando palavras. Nasceu num ponto qualquer do mapa. Sua mãe levou pontos depois do parto. A linha reta que é o caminho mais chato entre o parto e o ponto final, preferiu o ziguezague. Teve uma vida pontilhada: os pontos que caíam nos exames, os pontos que subiam na Bolsa, os pontos de macumba, os pontapés. Mas sempre foi pontual.

O ponto é a vírgula sem rabo.

A vírgula não é como o ponto e vírgula (ponto vírgula) a vírgula qualquer um usa mas o ponto e virgula requer prática e discernimento (virgula) modéstia à parte (ponto).

Nova linha. Fez ponto em frente à casa da namorada, uma circunferência com vários pontos positivos, como sua a mãe apontada acima. Não dormiu no ponto, acabou convidado para entrar quando já estava a ponto de desistir, pontificou sobre vários pontos, não demora já era apontado como íntimo da casa, jogava cartas (pontinho) com a família, parecia pontífice, não desapontou. Casaram. Tinham muitos pontos em comum.

O sexo! Ponto de exclamação. Querida, estou a ponto de … não! Cuidado. Ponto fraco. A tangente toca a circunferência. Outro ponto no mapa. Parto. Pontos.

Tiveram muitos pontos em comum. Os outros caçoavam: que pontaria! Discordavam num ponto: a pílula.

Zig-zag-zig-zag. Os ponteiros andando. Um dia, no futebol – jogava na ponta – sentiu umas pontadas. Coração. O ponto-chave. O medico insistiu num ponto: pára. Mas como? Chegara a um ponto que não podia parar, era um ponto projetado no espaço, a vida é um ponto com raiva, parar como? A que ponto? Saiu encurvado. Como um ponto de interrogação.

Só uma solução, dois pontos: os 13 pontos da loteria. Senão era um ponto morto. A linha reta do eletro, outro ponto pacífico, o ponto no infinito onde as paralelas, a distancia mais curta entre, cheguei a um ponto em que, meus Deus… três pontinhos.

Jogou o que tinha num ponto de bicho e o que não tinha num ponto lotérico. Não deu ponto.

Em casa a circunferência e os sete pontinhos. Resolveu pingar os pontos nos is. Melhor deixar uma viúva no ponto.

De um ponto de ônibus mergulhou, de ponta-cabeça, na ponta de um táxi, ou de um ponto de táxi na ponta de um ônibus, é um ponto discutível. Entregou os pontos.

(Luis Fernando Veríssimo. O popular. Rio de Janeiro, José Olympio, 1973)

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