GramáticaNoções de Morfologia.

TEMA 20 – Noções de Morfologia. Pronome pessoal reto, oblíquo e de tratamento. Função e uso dos pronomes pessoais.

By 25 de julho de 2010 11 Comments

ROTEIRO N° 20

1 – TEMA: Noções de Morfologia. Pronome: pessoal (reto, oblíquo e de tratamento). Pronome substantivo e adjetivo. Função dos pronomes pessoais. Alterações do uso de alguns pronomes na fala brasileira.

2 – PRÉ-REQUISITO: Ler com compreensão.

3 – META: Ao final do estudo, você deverá ser capaz de:

. identificar e classificar o pronome de acordo com suas diversas características;

. empregar corretamente o pronome, de acordo com o padrão culto da língua.

4 – PRÉ-AVALIAÇÃO: O objetivo da pré-avaliação é diagnosticar o quanto se tem conhecimento de um assunto. Para isso, basta que você responda à Auto-avaliação que está no final deste Roteiro, antes de ler qualquer texto existente nele. Se você alcançar um resultado igual ou superior a 80 pontos, não precisa estudar o assunto, pois você já o domina suficientemente. Caso contrário, vá direto para as Atividades de Estudo.

5 – ATIVIDADES DE ESTUDO: Ler com entendimento é pré-requisito para se aprender qualquer coisa através da leitura. Por isso, leia o texto do anexo A para treinar sua interpretação. Embora a leitura dos anexos em si seja também interpretação de texto, ela é voltada para uma finalidade mais específica que é a aprendizagem dos conceitos gramaticais. O texto do Anexo A é mais genérico e serve de treinamento para a compreensão geral da língua. Portanto, faça o seguinte:

a) Tenha um dicionário de Português ao seu alcance, para consultá-lo sobre as palavras que você desconhece o significado;

b) Procure um lugar sossegado para ler os textos e fazer os exercícios;

c) Leia primeiro o texto; faça em seguida os exercícios; compare suas respostas com o gabarito e veja o que errou; retorne ao texto para verificar o porquê do erro.

6 – PÓS-AVALIAÇÃO: Após ter feito o estudo dos textos e os exercícios, responda às questões propostas na Auto-avaliação. Creio que você agora, acertará todas. Caso isso não aconteça, consulte as orientações dadas nas Atividades Suplementares.

7 – ATIVIDADES SUPLEMENTARES: Se você não conseguiu alcançar 80 pontos na Pós-avaliação, volte à leitura dos textos, agora com mais atenção. Sem pressa. A leitura com compreensão é a base da aprendizagem.

______________________________________________________________________________

ANEXO A – Interpretação de Texto

RACONTO DE NATIVIDADE

1.          – Senhor doutor, estou aqui no bolso com um milhão de cruzeiros de uma boiada que vendi e quero lhe comprar aquelas suas terras para cima do ribeirão. Pago à vista.

2.          O médico mediu de alto a baixo seu interlocutor. Era moço, feições de caboclo, vestido com decente modéstia.

3.          – Um milhão de cruzeiros, à vista, pelas terras? Pois o que lastimo é que elas não sejam minhas. O senhor se enganou. São de um meu primo advogado . O nome é parecido com o meu. Eu sou médico.

4.          Com fala mansa, o visitante pediu ao médico que interviesse no negócio. Tinha urgência em comprar as terras. Não pagava muito, mas pagava à vista. O dinheiro estava ali no bolso. Houve uma telefonada e o dono disse que não queria vender as mesmas. Nem por um, nem por dois milhões. O outro coçou a cabeça, triste. Da segunda vez que viu  o rapaz, o médico estava em seu hospital. Era o único bom hospital da zona. Nessa ocasião, o caboclo vinha acompanhado da esposa, que esperava o primeiro filho. O médico ofereceu um quarto pequeno, sem banheiro, com diária razoável, mas o moço abanou a cabeça. Para a patroa, queria outra coisa. Foram vendo os apartamentos maiores, que o rapaz indagou, com certa impertinência, se não havia nada me lhor do que aquilo tudo.

5.        – Há. Mas é um apartamento de grande luxo. Quase nunca está ocupado. Da última vez que serviu, foi para a nora do coronel Quinzinho. Sim, aquele, sim, servia. Duas salas com tapetes e rádio, com terraço e até gaiola de passarinho, para não falar no telefone e no quarto de banho. Chegando à casa, o médico relatou o fato à esposa.

6.        – Você veja. Aqui em Goiânia tem gente de dinheiro que nem se suspeita. O apartamento de grande luxo foi ocupado por uma moça, acaboclada, mulher do homem que me procurou, não faz muito tempo, com um milhão de cruzeiros no bolso…

7.        A esposa do médico estava regando sua lata de gerânios. Suspendeu a operação e disse:

8.        – Eu vi quando aquele moço veio. Ninguém dava nada por ele. E com um milhão no bolso!

9.        O parto foi difícil, mas o médico era hábil. A parturiente teve a melhor assistência. Dez dias depois de ter ela dado à luz um menino forte, o pai, muito contente, procurou o diretor do hospital. Iriam embora ao dia seguinte. Acontecia que estava lá embaixo, com o carro, um irmão seu e a mulher começara a chorar com saudades de casa. Não fazia diferença que fossem àquela tarde e não na manhã seguinte? Claro que não fazia diferença. A cliente e a criança estavam passando muito bem. Mas o diabo era que o moço havia esquecido em casa seu talão de cheques. O médico sorriu:

10.        – Pois a coisa é assim. O parto vai lhe custar muito menos que um milhão. Vá embora para casa, sossegado, e venha amanhã saldar sua conta.

11.        Nem em uma semana, nem em duas o estranho rapaz apareceu. Ao fim desse tempo, o médico foi procurar o endereço da cliente. Tomou seu carro e rodou para lá. Fora da cidade, localizou o caboclo, de manga arregaçada, lavrando um mofino campo.

12.        – Que é isso, rapaz? Você se esqueceu da conta?

13.        O outro retrucou, manso, que não se esquecera. Nem da conta, nem de toda gentileza de que sua esposa fora alvo. Apenas não podia pagar nem um tostão, pelo menos naquela dura época do ano. Talvez, depois da colheita, se Deus ajudasse, ele saldaria pelo menos a quinta parte da dívida. E prosseguia olhando a sua terra mesquinha.

14.        – Mas não posso entender! O senhor é um homem à míngua de recursos! Como é que ainda outro dia tinha um milhão no bolso?

15.        – Ter um milhão, eu não tinha, seu doutor. O que tinha era vontade que meu primeiro filho nascesse em quarto de gente rica e minha patroa fosse tratada a modo de mulher de fazendeiro. Por isso, maquinei aquela história das terras. Agora que a criança nasceu, se o senhor quiser me prender, me prenda.

16.        O médico estava furioso quando tornou à casa e contou o fato à mulher. Por coincidência, ela regava os mesmos gerânios. Estacou no gesto. Ouviu o relato inteiro e começou a chorar:

17.        – Se você puser aquele pobre coitado na cadeia, eu rasgo seu diploma de médico. Nunca ouvi história mais bonita em toda a minha vida!

18.        Eu também não. E é por isso que a passo aos leitores, à guisa de crônica de Natividade.

(SILVEIRA, Helena. In:____Sombra Azul e Carneiro Branco. São Paulo, Cultrix, 1960)

GLOSSÁRIO

Raconto – narração, relato, narrativa

Intervir – servir de mediador

À míngua – em extrema pobreza

Mofino – infeliz, pequeno, acanhado

À guisa de –  à maneira de

_________________________________________________________________________

O relato apresenta uma situação de contraste social: como o dinheiro (ou a falta dele) pode alterar o comportamento  das pessoas.

Vamos, então, à análise do texto.

I – Marque com um X o sinônimo adequado das palavras grifadas, de acordo com o texto:

1. “Pois o que lastimo é que elas não sejam minhas.” (par. 3).

a. (   ) desejo           b. (   ) invejo     c. (   ) lamento     d.(   ) agradeço

2. “Tinha urgência em comprar as terras.” (par. 4).

a. (   ) pressa     b. (   ) necessidade    c. (   ) desejo     d. (   ) prazer

3. “… até que o rapaz indagou…” (par. 4).

a. (   ) reclamou     b. (   ) perguntou   c. (   ) resmungou   d. (   ) exclamou

4. “Por isso, maquinei aquela história das terras.” (par. 15).

a. (   ) apresentei    b. (   ) inventei    c. (   ) fabriquei    d.(   ) alterei

5. “O médico estava furioso quando tornou à casa…” (par. 16).

a. (   ) triste     b. (   ) aflito      c. (   ) curioso     d. (   ) enfurecido

II – Marque com um X a alternativa correta, de acordo com o texto:

6. Quando procurou o médico pela primeira vez, o caboclo queria:

a. (   ) internar a esposa que esperava o primeiro filho             b. (   ) comprar terras

c. (   ) comprar gado                                                                            d. (   ) vender terras

7. Quando procurou o médico pela segunda vez, o caboclo queria:

a. (   ) conversar                        b. (   ) vender gado

c. (   ) internar a esposa          d. (   ) insistir na compra das terras

8. Dentre os quartos do hospital, o caboclo escolheu:

a. (   ) o mais barato                            b. (   ) um quarto pequeno

c. (   ) um apartamento de luxo        d. (   ) um apartamento médio

9. O caboclo não pagou a conta do hospital porque:

a. (   ) não gostou do atendimento dado à esposa              b. (   ) não costumava pagar suas contas

c. (   ) esqueceu                                                                            d. (   ) não tinha dinheiro

10. Quando o caboclo disse que não tinha dinheiro para pagar a conta, a reação do médico foi de:

a. (   ) compaixão       b. (   ) tristeza     c. (   ) raiva       d. (   ) compreensão

11. O caboclo maquinou a história das terras porque queria:

a. (   ) dar um trote no médico.

b. (   ) queria que seu filho nascesse em quarto de gente rica e que sua  esposa fosse bem tratada.

c. (   ) que todos, na cidade, pensassem que era rico.

d. (   ) ficar com as terras e não pagar

12. Ao saber do fato, a esposa do médico reagiu da seguinte maneira:

a. (   ) ficou furiosa e aconselhou o marido a mandar prender o caboclo

b. (   ) não se interessou pelo caso

c. (   ) chorou e disse ao marido que se mandasse prender o caboclo ela rasgaria o seu diploma

d. (   ) deu boas gargalhadas

13. Levando em consideração o atendimento que é dado às pessoas nos hospitais, o caboclo teve razão ou não para agir do modo que agiu? Por quê? Dê sua opinião e justifique-a.

_______________________________________________________________________

GABARITO

1. c    2. A      3. B    4. B     5. D    6. B    7. C     8. C    9. D     10. C     11. B   12. C

13. resposta pessoal (mostre-a a um amigo ou pessoa do seu relacionamento e discuta a situação que levou o caboclo, o médico e sua esposa a terem as ações descritas)

________________________________________________________________________

ANEXO B – O pronome substantivo e o pronome adjetivo. Os vários tipos de pronome.

Em outros Roteiros desta série, já estudamos o substantivo, o adjetivo, o artigo e o numeral. Neste Roteiro vamos continuar o estudo sobre PRONOME, que é uma classe de palavra variável muito importante no Português.

Costumamos dizer que o pronome é a palavra que substitui ou acompanha o nome (substantivo). Veja os exemplos:

  1. Ele não sabia o que era plebiscito.
  2. Aquela gaiola está muito suja.

“Ele”, na frase 1, está substituindo um substantivo que pode ser o Pedro, o João, o José. Portanto é um pronome. Neste caso, desempenha a função de um substantivo. Por isso, é chamado de pronome substantivo.

Na frase 2, “aquela” está acompanhando o substantivo gaiola. Mas não está lá só de enfeite. O substantivo está presente na frase (gaiola) e o pronome (aquela) que o acompanha, acrescenta uma ideia particular sobre a gaiola. Não é uma gaiola qualquer. Nesse caso, o pronome é chamado de pronome adjetivo, porque modifica o substantivo. (Lembre-se que o adjetivo modifica o substantivo, por isso o pronome, nessa situação, é chamado de pronome adjetivo).

É fácil distinguir esses dois tipos de pronomes: o pronome substantivo vai sempre substituir o substantivo e costuma aparecer na estrutura da frase, sem acompanhamento de outras palavras. Já o pronome adjetivo aparece sempre acompanhando o substantivo, com o qual concorda em gênero e número. Veja:

Ela não viu o meu canário.

Ela = Pronome substantivo              meu = pronome adjetivo

Portanto:

Pronome é a palavra variável que substitui ou acompanha o substantivo dentro da frase.

______________________________________________________________

ANEXO C – Classificação do pronome. O pronome pessoal reto, oblíquo e de tratamento.

Há sete espécies de pronome: pessoal, possessivo, demonstrativo, indefinido, interrogativo, relativo e de tratamento.

Vamos começar nosso estudo pelo pronome pessoal.

1. PRONOME PESSOAL

Este pronome tem como característica a representação das pessoas gramaticais ou do discurso. Ao conversarmos com alguém, há sempre a pessoa:

  1. que fala = eu, nós (1a. pessoa)
  2. com quem se fala = tu, vós (2a. pessoa)
  3. de quem se fala = ele(s), ela(s) (3a. pessoa)

As pessoas que fazem parte de uma conversa, ou seja, da comunicação, são chamadas de pessoas gramaticais. No diálogo abaixo, podemos identificar essas pessoas.

–        Manduca…

–        Sim, papai?

– Onde está tua mãe? Eu quero saber por que tu não fazes essa pergunta a ela?

Nesta conversa podemos perceber que o pai de Manduca é quem se dirige ao filho – a pessoa que fala. Manduca é a pessoa com quem se fala. E a mãe de Manduca é a pessoa de quem se fala.

No diálogo, observamos que o pai de Manduca diz: eu quero saber… Portanto é a pessoa que fala, ou seja, a 1a. pessoa gramatical representada pela palavra eu.

Ao se dirigir a Manduca, o pai diz: … quero saber por que tu… Então a pessoa com quem se fala é a 2a. pessoa gramatical representada pela palavra tu.

Mas ainda existe uma terceira pessoa sobre quem eles falam: a mãe de Manduca, representada pela palavra ela: … porque tu não fazes essa pergunta a ela?

As palavras eu, tu, ela são pronomes pessoais porque designam pessoas gramaticais ou do discurso. Os pronomes pessoais são palavras variáveis que mudam de número e gênero, porque elas substituem ou acompanham o substantivo, que possui essa variação.

As formas eu, tu, ele/ela, nós, vós, eles/elas são chamadas de pronomes pessoais retos. A cada um desses pronomes pessoais retos há um correspondente pronome pessoal oblíquo.

No quadro abaixo, apresentamos os pronomes pessoais retos e oblíquos:

Pronome pessoal reto Pronome pessoal oblíquo
singular 1a. pessoa:

EU

Átonos Tônicos
me mim, comigo
2a. pessoa:

TU

te Ti, contigo
3a. pessoa:

ELE, ELA

lhe, o, a, se Si, consigo
plural 1a. pessoa:

NÓS

nos conosco
2a. pessoa:

VÓS

vos convosco
3a. pessoa:

ELES, ELAS

lhes, os, as, se Si, consigo

Os pronomes pessoais oblíquos também se referem às pessoas gramaticais, mas são usados só para representar a 2a. e 3a. pessoas do discurso. Veja o exemplo:

Mamãe, eu me cortei!

Na frase acima, temos:

EU = a pessoa que fala (1a pessoa do discurso)

Mamãe = a pessoa com quem eu falo (2a pessoa do discurso)

Me (eu mesmo) = a pessoa de quem se fala (3a. pessoa do discurso)

____________________________________________________________________

Exercícios.

Complete as frases:

1. Os pronomes pessoais que representam a pessoa que fala são ______e _______

2. Os pronomes pessoais que representam a pessoa com quem se fala são: ________ e _______

3. Os pronomes pessoais que representam a pessoa de quem se fala são:______, ______,_____ e _____

_______________________________________________________________________

GABARITO

Questão B:  1.  Eu, nós      2. Tu, vós     3. Ele, ela, eles, elas

_________________________________________________________________________

ANEXO D – Função dos pronomes pessoais retos e oblíquos.

Como vimos no quadro sobre os pronomes, para cada pronome pessoal reto existe o correspondente oblíquo. Os pronomes pessoais oblíquos também se referem às pessoas gramaticais envolvidas no processo da comunicação, mas como já foi dito, só são usadas para indicar a pessoa ou coisa de quem se fala.

Temos afirmado que o pronome é a palavra variável que se usa no lugar do substantivo. Você entenderá melhor, observando a frase abaixo:

Eu                  vi             Maria.

Pessoa que fala                pessoa de quem se fala

Podemos substituir o substantivo Maria por ela, que representa a 3a. pessoa gramatical:    Eu vi ela.

Entretanto, essa construção da frase, apesar de muito usada pelo povo, não está correta, do ponto de vista das normas gramaticais. O correto é:     Eu a vi.

Por que não se deve dizer: “eu vi ela”? Porque em português, os pronomes retos sempre exercerão a função de sujeito e os pronomes oblíquos exercerão a função de complemento do verbo (objeto direto ou indireto). Além disso, a expressão “vi ela” apresenta uma cacofonia (junção de palavras cujos sons podem indicar outra palavra que interfere no sentido):

vi + ela = viela (rua curta, estreita ou pequena).

Portanto, nunca use os pronomes pessoais retos para completar o sentido do verbo.

(errado)                                   (correto)

Eu vi ela.                                  Eu a vi.

Eu beijei tu.                              Eu te beijei.

Eu cocei eu.                             Eu me cocei.

Eu chamei eles.                       Eu os chamei.

Observe a frase:

Eu e João           vimos          Joana.

eu e João = Pessoas que falam                  Joana = pessoa de quem se fala

Agora vamos substituir as pessoas gramaticais pelos pronomes pessoais correspondentes:

Nós (eu e João, pessoas que falam)         vimos                    ela (Joana, pessoa de que se fala)

Já vimos que os pronomes pessoais retos (veja o quadro) só são usados para exercer a função de sujeito da oração. Quando esses pronomes estiverem na função de complemento do verbo (objeto direto ou indireto) devemos usar o seu correspondente oblíquo. Assim ela, na frase acima deve ser substituída por a (pronome oblíquo correspondente):     Nós      vimos      a.

Mas, será que a frase está escrita corretamente? Você diz: nós vimos a? Claro que não!

Em português existem algumas situações de construção da frase que não são reconhecidas pelos falantes. E essa é uma delas. Apesar de que “nós vimos ela” ser uma construção muito usada, porém não é correta. Isso será objeto de estudo em SINTAXE, quando estudarmos a localização dos pronomes oblíquos na estrutura da frase.

Mas, quando devo usar me/mim, te/ti, se/si? O uso desses pronomes oblíquos tem muito a ver com o tipo de complemento e o modo como está ligado ao verbo. Veja os exemplos:

  1. Mandou-me um presente valioso.
  2. Mandou para mim um presente valioso.

Os pronomes átonos (me, mim) exercem a função de objeto indireto. A diferença é que: o 1o está ligado ao verbo sem a presença da preposição; o 2o. está ligado ao verbo com a presença da preposição.

Os pronomes mim, ti, si sempre serão ligados ao verbo por uma preposição presente na frase. Já os pronomes me, te, se serão ligados ao verbo sem a presença da preposição na frase.

No Brasil, o uso dos pronomes tu e vós (2a. pessoa) tem sido substituída por você e vocês, principalmente na comunicação oral. O falante brasileiro, além de fazer essa substituição, também adapta a pessoa do verbo erroneamente. Veja um exemplo de alterações:

Tu resolveste o problema?            Você resolveu o problema?

Vós resolvestes o problema?        Vocês resolveram o problema?

Ao usar o você/vocês para indicar a pessoa com quem fala (tu/vós), o falante tem mudado a terminação da 2a. pessoa (resolveste/resolvestes) para a terminação da 3a. pessoa (ele resolveu/eles resolveram). É uma distorção gramatical que já está arraigada na língua falada. Mas é incorreta, segundo as normas gramaticais.

Outro fenômeno é o desuso da 2a. pessoa do plural (vós) tanto na fala quanto na escrita. O brasileiro comum não usa esta pessoa na sua fala escrita ou oral.

_____________________________________________________________

Vamos exercitar.

A. Substitua as expressões destacadas por pronomes pessoais correspondentes:

1. O pai não sabia o que era plebiscito. _____________________________

2. A mãe limpava a gaiola do canário. ______________________________

3. As meninas saíram da sala. ___________________________________

4. Os meninos liam histórias em quadrinhos. ________________________

5. A gaiola estava muito suja. ____________________________________

6. O canário cantava alegremente. ________________________________

7. Maria saiu. _________________________________________________

8. O professor faltou. ___________________________________________

9. As alunas entenderam a explicação? ____________________________

10. José e Pedro estudaram muito. ________________________________

11. Eu e Mário fomos ao teatro. ___________________________________

12. Tu e João sois o sal da terra. __________________________________

B. Substitua as expressões em destaque, pelos pronomes oblíquos correspondentes a cada pessoa gramatical, fazendo a construção correta da frase:

1. Eu esqueci eu mesmo do caderno. _____________________________

2. Irei com tu ao cinema. ________________________________________

3. Eu cuidarei de tu, minha filha! __________________________________

4. Eu devolverei o livro para ele. __________________________________

5. Ele levou a mala. ____________________________________________

6. Não reconheci ela. ___________________________________________

7. Trouxeste este presente para eu? _______________________________

8. Eu não encontrei ele, porque já havia saído. _______________________

9. Nós vimos João no cinema. ____________________________________

10. Você resolveu aqueles problemas? ____________________________

C. Preencha as lacunas com um dos pronomes oblíquos: me, mim, comigo, te, ti, contigo.

1. Você sairá _________________?

2. Eu não ____________ lembrei da prova.

3. Este presente é para __________?

4. Entregue _________ o livro amanhã.

5. O professor _________ explicará melhor a lição.

6. Recorrerei a ________ sempre que eu precisar.

7. Iremos _____________ à missa.

8. Minha filha, sempre penso em _______.

________________________________________________________________________

GABARITO

Questão A:  1. Ele          2. Ela       3. Elas      4. Eles     5. Ela    6. Ele    7. Ela.   8. Ele    9. Elas    10. Eles      11. Nós    12. Vós

Questão B:

  1. Eu me esqueci do caderno.
  2. Irei contigo ao cinema.
  3. Eu cuidarei de ti, minha filha!
  4. Eu lhe devolverei o livro amanhã.
  5. Ele a levou.
  6. Não a reconheci.
  7. Trouxeste este presente para mim.
  8. Eu não o encontrei porque ele já havia saído.
  9. Nós o vimos no cinema.
  10. Você os resolveu?

Questão C: 1. comigo  2. me/te   3. mim/ti   4. me   5. me/te    6. ti   7. contigo  8. mim/ti

________________________________________________________________________

ANEXO E – Pronomes de tratamento

Ainda com relação às pessoas do discursos, temos formas especiais relacionadas às 2a. e 3a. pessoas (tu, ele, vós, eles). São os pronomes de tratamento. São usados em situação de formalidade e quando nos dirigimos para determinadas autoridades. Veja o quadro:

abreviaturas Pronome de tratamento: Usado para:
V. A.

V. Emª

V. Excª

V. Magª

V. M.

V. Excª Revª

V. Revª

V. S.

V. Sª

Sr. / Sra.

Vossa Alteza

Vossa Eminência

Vossa Excelência

Vossa Magnificência

Vossa Magestade

Vossa Excelência Reverendíssima

Vossa Reverendíssima

Vossa Santidade

Vossa Senhoria

Senhor, senhora

Príncipes e duques

Cardeais

Altas autoridades do poder Executivo,  Legislativo e  Judiciário

Reitores de universidades

Reis e imperadores

Bispos e arcebispos

Sacerdotes em geral

Papa

Funcionários públicos graduados e pessoas de cerimônia

Pessoas mais velhas do que a pessoa que fala ou com as quais não se tem intimidade.

Ao falarmos a respeito de qualquer autoridade, substituímos “Vossa” por “Sua”. Assim, Sua Alteza, Sua Eminência, Sua Excelência será usado quando nos referimos a essas pessoas com alguém.

Ex: Sua Excelência, o Presidente Lula, viajou para a África.

Observações:

1. No Brasil, a palavra “você” é uma forma de tratamento oriunda de Vossa Mercê” que foi se transformando ao longo do tempo.

Vossa Mercê > Vosmicê > Vossuncê > Você

2. Em Portugal, o pronome “tu” é empregado naturalmente na fala e na escrita. Já no Brasil, o seu uso acontece principalmente na Região Sul. Em quase todo território nacional o “tu, vós” foi substituído por “você, vocês”. Percebe-se que a imensa maioria dos brasileiros usa, na fala e na escrita:

. você(s) como forma de tratamento informal revelando intimidade entre os falantes;

. senhor, senhora para demonstrar respeito ou cortesia para com pessoas mais velhas ou com as quais não se tem intimidade.

3. Ao se usar “você(s), senhor(a)”, a terminação do verbo é usada na 3a, pessoa, apesar de a pessoa do discurso ser a 2a. Apresentamos abaixo  a conjugação dos verbos gostar, vender e preferir no tempo presente do modo indicativo. Observe depois o uso das formas dentro das frases dadas.

Sing. 1a. pessoa

2a. pessoa

3a. pessoa

Eu gosto

Tu gostas

Ele gosta

Eu vendo

Tu vendes

Ele vende

Eu prefiro

Tu preferes

Ele prefere

Plur. 1a. pessoa

2a. pessoa

3a. pessoa

Nós gostamos

Vós gostais

Eles gostam

Nós vendemos

Vós vendeis

Eles vendem

Nós preferimos

Vós preferis

Eles preferem

Ex: Tu gostas de maçãs?  Você gosta de maçã?

Vós vendeis peixe? Vocês vendem peixe?

Vós preferis carne cozida ou assada? Os senhores preferem carne cozida ou assada?

O brasileiro está mudando as regras de uso dos pronomes pessoais e de tratamento e, consequentemente, das terminações verbais relativas a esses pronomes. É por isso que alguns estudiosos da Língua Portuguesa falada no Brasil, defende a idéia de uma Língua Brasileira.

____________________________________________________________________

Exercícios:

1. Identifique os pronomes pessoais e separe-os dentro do quadro, conforme sua classificação.

a) Eu te disse que ela não nos esperaria, mas se desculparia.

b) Nós pensávamos que Vossa Senhoria jantaria conosco.

c) Disseram-me que tu te machucaste com o brinquedo que te demos.

d) Nós não o conhecíamos, mas você nos conhecia bem.

e) O senhor quer tomar um cafezinho?

Pronome reto Pronome oblíquo Pronome de tratamento
a)
b)
c)
d)
e)

2. Substitua as expressões em negrito por pronomes adequados. Faça as adaptações necessárias às frases:

a) Ana, traga para mim um livro para eu ler o livro.

b) Rui quer uma bicicleta e vai comprar ela.

c) Eu e José já vamos. Quem vai com nós?

d) Deram para mim uma notícia para eu espalhar.

e) Você era magro quando eu conheci você.

f) Nós desejamos paz a quem ajuda nós.

_________________________________________________________

GABARITO

QUESTÃO 1

Pronome reto Pronome oblíquo Pronome de tratamento
a) eu, ela Te, nos, se
b) nós conosco Vossa Senhoria
c) tu Me, te, te
d) nós O, nos Você
e)  não tem Não tem senhor

Questão 2.

a)      Ana traga-me um livro para eu lê-lo.

b)      Rui quer uma bicicleta e vai comprá-la.

c)      Nós já vamos. Quem vai conosco?

d)      Deram-me uma notícia para eu espalhar.

e)      Tu eras magro quando eu te conheci.

f)       Nós desejamos paz a quem nos ajuda.

__________________________________________________________________

AUTO-AVALIAÇÃO

A. Substitua as expressões destacadas por pronomes pessoais correspondentes:

1. O pai não sabia o que era plebiscito. _____________________________

2. A mãe limpava a gaiola do canário. ______________________________

3. As meninas saíram da sala. ___________________________________

4. Os meninos liam histórias em quadrinhos. ________________________

5. A gaiola estava muito suja. ____________________________________

6. O canário cantava alegremente. ________________________________

7. Maria saiu. _________________________________________________

8. O professor faltou. ___________________________________________

9. As alunas entenderam a explicação? ____________________________

10. José e Pedro estudaram muito. ________________________________

11. Eu e Mário fomos ao teatro. ___________________________________

12. Tu e João sois o sal da terra. __________________________________

B. Complete as frases:

1. Os pronomes pessoais que representam a pessoa que fala são ______e _______

2. Os pronomes pessoais que representam a pessoa com quem se fala são:________ e _______

3. Os pronomes pessoais que representam a pessoa de quem se fala são:______, ______,_____ e _____

C. Substitua as expressões em destaque, pelos pronomes oblíquos correspondentes a cada pessoa gramatical, fazendo a construção correta da frase:

1. Eu esqueci eu mesmo do caderno. _____________________________

2. Irei com tu ao cinema. ________________________________________

3. Eu cuidarei de tu, minha filha! __________________________________

4. Eu devolverei o livro para ele. __________________________________

5. Ele levou a mala. ____________________________________________

6. Não reconheci ela. ___________________________________________

7. Trouxeste este presente para eu? _______________________________

8. Eu não encontrei ele, porque já havia saído. _______________________

9. Nós vimos João no cinema. ____________________________________

10. Você resolveu aqueles problemas? ____________________________

D. Preencha as lacunas com um dos pronomes oblíquos: me, mim, comigo, te, ti, contigo.

1. Você sairá _________________?

2. Eu não ____________ lembrei da prova.

3. Este presente é para __________?

4. Entregue _________ o livro amanhã.

5. O professor _________ explicará melhor a lição.

6. Recorrerei a ________ sempre que eu precisar.

7. Iremos _____________ à missa.

8. Minha filha, sempre penso em _______.

E. Identifique os pronomes pessoais e separe-os dentro do quadro, conforme sua classificação.

1) Eu te disse que ela não nos esperaria, mas se desculparia.

2) Nós pensávamos que Vossa Senhoria jantaria conosco.

3) Disseram-me que tu te machucaste com o brinquedo que te demos.

4) Nós não o conhecíamos, mas você nos conhecia bem.

5) O senhor quer tomar um cafezinho?

Pronome reto Pronome oblíquo Pronome de tratamento
1)
2)
3)
4)
5)

F. Substitua as expressões em negrito por pronomes adequados. Faça as adaptações necessárias às frases:

1) Ana, traga para mim um livro para eu ler o livro.

2) Rui quer uma bicicleta e vai comprar ela.

3) Eu e José já vamos. Quem vai com nós?

4) Deram para mim uma notícia para eu espalhar.

5) Você era magro quando eu conheci você.

6) Nós desejamos paz a quem ajuda nós.

________________________________________________________________

Atribua para cada resposta correta, o valor de 2 pontos. Você deverá obter, no mínimo, 80 pontos para ser considerado aprovado neste assunto. Caso isso não aconteça, verifique as orientações das Atividades Suplementares, que estão no início deste Roteiro

GABARITO

Questão A:

1. Ele          2. Ela    3. Elas      4. Eles     5. Ela    6. Ele    7. Ela.   8. Ele    9. Elas   10. Eles    11. Nós       12. Vós

Questão B:  1.  Eu, nós      2. Tu, vós     3. Ele, ela, eles, elas

Questão C:

  1. Eu me esqueci do caderno.
  2. Irei contigo ao cinema.
  3. Eu cuidarei de ti, minha filha!
  4. Eu lhe devolverei o livro amanhã.
  5. Ele a levou.
  6. Não a reconheci.
  7. Trouxeste este presente para mim.
  8. Eu não o encontrei porque ele já havia saído.
  9. Nós o vimos no cinema.
  10. Você os resolveu?

Questão D:

1. comigo        2. me/te     3. mim/ti      4. me     5. me/te    6. ti     7. contigo    8. mim/ti

QUESTÃO E

Pronome reto Pronome oblíquo Pronome de tratamento
1) eu, ela Te, nos, se Não tem
2) nós conosco Vossa Senhoria
3) tu Me, te, te Não tem
4) nós O, nos Você
5)  não tem Não tem senhor

Questão F.

  1. Ana traga-me um livro para eu lê-lo.
  2. Rui quer uma bicicleta e vai comprá-la.
  3. Nós já vamos. Quem vai conosco?
  4. Deram-me uma notícia para eu espalhar.
  5. Tu eras magro quando eu te conheci.
  6. Nós desejamos paz a quem nos ajuda.

_____________________________________________________________________________

LEITURA PARA REFLEXÃO

O PORTUGUÊS DE JÂNIO QUADROS

Vamos fazer um recreio? Recreio ou intervalo é o nome que se dá aos quinze minutos de descanso entre as aulas.

Guilhermino César, de quem fui aluno em Porto Alegre, em turma memorável, integrada, entre outros, por Antônio Hohlfeldt, depois o primeiro vereador do PT no Rio Grande do Sul, Estado do qual foi vice-governador, já pelo PSDB; pela romancista Lya Luft, até então apenas poetisa e cronista; dos críticos e professores Ligia Aberbuck e Sergius Gonzaga.

Pois Guilhermino César, que, à semelhança de Jánio Quadros, omitia o da Silva de seu sobrenome, jamais nos liberava para o intervalo, mas para o recreio.

Ora, intervalo veio do latim intervallum, designando espaço entre um valo e outro. Como tantas outras palavras, veio das lides militares, guerreiras. Os soldados construíam valos e paliçadas – alguns dicionários autorizam a grafia antiga, palissada – para organizar a defesa nos campos de batalha. Intervalo foi, pois, na origem, o espaço entre os valos ou entre as estacas. Já recreio tem origem mais bonita. Você interrompe o que está fazendo e vai fazer outra coisa. Recreio procede de recrear, que em latim é recreare, cujo significado é fazer brotar de novo, tendo também o sentido de reanimar.

Para nós, seus alunos, era melhor ainda quando o mestre continuava o recreio na volta à sala de aula. E vice-versa. Era um encanto ouvi-lo. E assim registro que professores como Guilhermino César são lembrados a vida inteira. Vamos ao recreio e a Jânio Quadros.

Políticos dos mais controvertidos que o Brasil já teve, Jânio era professor de Português e de Geografia. E respeitava a norma culta de nossa língua em declarações, bilhetes, cartas, documentos, em tudo o que dizia e escrevia. Muitas de suas tiradas ficaram célebres.

Candidato a governador de São Paulo, enfrentou em Ribeirão Preto uma autêntica armadilha, que lhe fora preparada por seu notório adversário, Adhemar de Barros. Também candidato, Adhemar paga um repórter para que vá à entrevista coletiva de Jânio, pedindo ao jornalista que faça uma única pergunta: “O senhor sabe que a família interiorana é moralista e conservadora. Gostaria de lhe perguntar: por que o senhor bebe”? A resposta veio bem ao estilo de Jânio: “Bebo porque é liquido. Se fosse sólido, comê-lo-ia.”

O flagrante revela um cuidado específico que Jânio Quadros tinha na colocação dos pronomes, um drama para jejunos em português. “Comê-lo-ia” equivale a “o comeria”. A síntese, desjeitosa para a fala, que prefere “comeria ele”, soa pernóstica. Aliás, não em Jânio apenas.

Em outra ocasião, o humorista Leon Eliachar lhe pergunta: “Se eleito, colocará os pronomes nos seus devidos lugares?” Sua resposta: “Os pronomes não aguardam a minha eleição para que se coloquem nos seus lugares. Estão sempre neles. A boêmia dos verbos é que mutila a boa ordem das frases. Há que lhes perdoar. Não se desgrudam da idéia de movimento”. (Atualmente, é mais usual boemia, sem acento). E provocando o candidato, Leon alude a famoso comercial: “Só ESSO dá ao seu carro o máximo?” Jânio respondeu: “Não entendi a pergunta. Pressinto-a sutil como o próprio interpelante. Resta-me, pois, neste instante de perplexidade, o recurso à passagem de volta: só isso dá ao seu cargo o máximo?”.

Para terminar o recreio, vejamos o final da mesma entrevista. Leon Eliachar faz a última pergunta: “O oval da ESSO é oval ou aval?” Jânio tira de letra: “Sugiro-lhe, amistosamente, uma consulta a qualquer psicanalista. O Brasil é tão mencionado no seu dicionário, quanto a ESSO”.

Nelson Valente, autor do livro “Luz… Câmera… Jânio Quadros em Ação” (o avesso da comunicação), de onde foram extraídos os trechos aqui citados, conclui piedosamente: “Ele podia dormir sem essa”.

(Deonísio da Silva, A Língua Nossa de Cada Dia. Novo Século Editora, 2007, Osasco, SP)

11 Comments

Leave a Reply