ATIVIDADES/EXERCÍCIOSTeoria da Comunicação

TEORIA DA COMUNICAÇÃO – As várias linguagens

By 13 de janeiro de 2011 3 Comments

AS VÁRIAS LINGUAGENS

Ao analisar de forma bem-humorada modos e comportamentos de alguns povos, Luis Fernando Veríssimo brinca com a curiosa linguagem dos tapinhas, tapas e socos com que amigos íntimos dialogam.

Os franceses se beijam, e não apenas quando estão se condecorando. Mas dois franceses só chegam ao ponto de se beijar no fim de um longo processo de desinformalização do seu relacionamento que começa quando um propõe ao outro que abandone o “vous”, e eles passem a se tratar por “tu”, geralmente depois de se conhecer por alguns anos. Não sei se existe um certo prazo para o “vous” dar lugar ao “tu”, mas é um passo importante e, até ele ser dado, o cumprimento entre os dois jamais passará de um seco aperto de mão.

Os russos se beijam com qualquer pretexto e dizem que a progressão, lá, não é do aperto de mão para o abraço e o beijo, mas de beijos protocolares para beijos cada vez mais longos e estalados.

Na Itália, os homens andam de braços dados na rua, sem que isso indique que são noivos, e o beijo entre amigos é comum.

Os anglo-saxões são mais comedidos e mesmo os americanos, que são ingleses sem barbatana, reagem quando você, esquececendo onde está, ameaça abraçá-los. Ninguém é mais informal que um americano, ninguém mais antifrancês na velocidade com que se chega à etapa equivalente ao “tu” sem ritual intermediário, mas a informalidade não se estende à demonstração física. Até aquele nosso hábito de bater no braço do outro quando se aperta a mão, aquela amostra grátis de abraço, eles estranham.

Já nós somos da terra do abraço, mas também temos nossas hesitações afetivas. O brasileiro é expansivo, mas tem, ao mesmo tempo, um certo pudor dos seus sentimentos. O meio-termo encontrado é um insulto carinhoso.

Não sei se é uma características exclusivamente brasileira, mas é uma instituição nacional.

–        Seu filho da mãe!

–        Seu cafajeste!

São dois amigos que se encontram.

–        Não! Só me faltava encontrar você. Estragou meu dia.

–        Este lugar já foi mais bem frequentado…

Depois dos insultos, se abraçam com fúria. Os sonoros tapas nas costas – outra instituição brasileira – chegam ao limite entre a cordialidade e a costela partida.

Eles se adoram, mas ninguém se engane. É amor de homem. Quanto maior a amizade, maior a agressão. E você pode ter certeza que dois brasileiros são íntimos quando põem a mãe no meio. A mãe é o último tabu brasileiro. Você só insulta a mãe do seu melhor amigo.

–        Sua mãe continua na zona?

–        Aprendendo com a sua.

–        Dá cá um abraço!

E lá vêm os tapas.

Um estrangeiro despreparado pode levar alguns sustos antes de se acostumar com a nossa selvageria amorosa.

–        Crápula!

–        Vigarista!

–        Farsante!

–        My Good! Eles vão se matar!

Não se matam. Se abraçam, às gargalhadas. Talvez ensaiem alguns socos nos braços ou simulem diretos no queixo. Mas são amigos. Depois de algum tempo o estrangeiro se acostuma com cenas como esta. Até acha graça.

– Olha aqueles dois se batendo. Até parece briga. Um batendo na cara do outro. Devem ser muito amigos. Agora trocam pontapés. É enternecedor. Agora um pega uma pedra no chão e… Acho que é briga mesmo!

Às vezes é briga mesmo.

(Luis Fernando Veríssimo. O Estado de São Paulo. 09/nov/1992)

ANÁLISE DO TEXTO

1. Qual o grau de intimidade que deve ser atingido para que dois franceses cheguem ao ponto de se beijar?

2. Quem são os anglo-saxões?

3. No contexto, explique por que um americano é um antifrancês.

4. De acordo com o texto, explique a frase: “Você só insulta a mãe de seu melhor amigo”.

5. Identifique os autores das seguintes falas:

a. – Crápula!                           b. – Vigarista!

c. – Farsante!                          d. – My Good! Eles vão se matar!

6. Sempre considerando o contexto, qual o sujeito das orações abaixo e o que indicam os pronomes destacados:

“Não se matam. Se abraçam, às gargalhadas.”

7. Considerando as dez classes gramaticais em língua portuguesa, classifique as locuções:

a) “My Good!”                           b) “às gargalhadas”

8. Explique as expressões:

a) Você vai de encontro a seu amigo.

b) Você vai ao encontro de seu amigo.

c) O mau motorista vai de encontro ao poste.

d) O mau motorista vai ao encontro do poste.

9. Quais tipos de linguagem foram utilizadas na comunicação entre os amigos citados no texto?

_______________________________________________

Gabarito.

1. De acordo com o texto, isto só acontece “ao fim de um longo processo de desinformalização do relacionamento que começa quando um propõe ao outro que abandone o “vous” e eles passem a se tratar por “tu”. A partir do momento  em que eles passam a se tratar por “tu”, o grau de intimidade vai crescendo dando oportunidades para que se cumprimentem com beijos.

2. Anglo-saxões foram os primitivos habitantes da região onde se localiza o Reino Unido e que deram origem aos ingleses.

3. De acordo com o texto, o americano é um antifrancês porque leva menos tempo que os franceses para estabelecer uma intimidade com outra pessoa.

4. De acordo com o texto, no Brasil, referir-se à mãe de alguém de maneira insultuosa, só se os amigos forem muito, muito íntimos. Mas ainda assim, o autor exagerou nessa informação. Referir-se à mãe como descrito no texto, no Brasil, levará a uma briga com final desastroso, mesmo entre amigos.

5. De acordo com o texto, as falas a), b) e c) foram ditas entre amigos que se encontram. Em d), a fala foi dita por alguém que não conhece os amigos e presenciou o encontro.

6. Sujeito = eles, os amigos. Os pronomes indicam reciprocidade de ação.

7. a) locução interjectiva        b) locução adverbial de modo

8. a) “ir de encontro a seu amigo” significa não concordar, confrontar.

b) “ir ao encontro de seu amigo” significa locomover-se até onde o outro está.

c) “ir de encontro ao poste” significa chocar-se com o poste.

d) “ir ao encontro do poste” significa locomover-se até o poste.

9. A linguagem verbal representada por palavras e a não-verbal, representada por tapas, beijos, apertos de mão, socos, abraços.

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