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DOM CASMURRO – Capítulos 19 e 20

By 18 de novembro de 2012 No Comments

DOM CASMURRO – CAPÍTULO 19

SEM FALTA

Quando voltei à casa era noite. Vim depressa, não tanto, porém, que não pensasse nos termos em que falaria ao agregado. Formulei o pedido de cabeça, escolhendo as palavras que diria e o tom delas, entre seco e benévolo. Na chácara, antes de entrar em casa, repeti-as comigo, depois em voz alta, para ver se eram adequadas e se obedeciam às recomendações de Capitu: “Preciso falar-lhe, sem falta, amanhã; escolha o lugar e diga-me.” Proferi-as lentamente, e mais lentamente ainda as palavras sem falta, como para sublinhá-las. Repeti-as ainda, e então achei-as secas demais, quase ríspidas, e, francamente, impróprias de um criançola para um homem maduro. Cuidei de escolher outras, e parei.

Afinal disse comigo que as palavras podiam servir, tudo era dizê-las em tom que não ofendesse. E a prova é que, repetindo-as novamente, saíram-me quase súplices. Bastava não carregar tanto, nem adoçar muito, um meio-termo. “E Capitu tem razão, pensei, a casa é minha, ele é um simples agregado… Jeitoso é, pode muito bem trabalhar por mim, e desfazer o plano de mamãe.”

DOM CASMURRO – CAPÍTULO 20

MIL PADRE-NOSSOS E MIL AVE-MARIAS

Levantei os olhos ao céu, que começava a embruscar-se, mas não foi para vê-lo coberto ou descoberto. Era ao outro céu que eu erguia a minha alma; era ao meu refúgio, ao meu amigo. E então disse de mim para mim:

“Prometo rezar mil padre-nossos e mil ave-marias, se José Dias arranjar que eu não vá para o seminário.”

A soma era enorme. A razão é que eu andava carregado de promessas não cumpridas. A última foi de duzentos padre-nossos e duzentas ave-marias, se não chovesse em certa tarde de passeio a Santa Tereza. Não choveu, mas eu não rezei as orações. Desde pequenino eu acostumara-me a pedir ao céu os seus favores, mediante orações que diria, se eles viessem. Disse as primeiras, as outras foram adiadas, e à medida que se amontoavam iam sendo esquecidas. Assim cheguei aos números vinte, trinta, cinquenta. Entrei nas centenas e agora no milhar. Era um modo de peitar a vontade divina pela quantia das orações; além disso, cada promessa nova era feita e jurada no sentido de pagar a dívida antiga. Mas vão lá matar a preguiça de uma alma que a trazia do berço e não a sentia atenuada pela vida! O céu fazia-me o favor, eu adiava a paga. Afinal perdi-me nas contas.

“Mil, mil”, repeti comigo.

Realmente, a matéria do benefício era agora imensa, não menos que a salvação ou o naufrágio da minha existência inteira. Mil, mil, mil. Era preciso uma soma que pagasse os atrasados todos. Deus podia muito bem, irritado com os esquecimentos, negar-se a ouvir-me sem muito dinheiro… Homem grave, é possível que estas agitações de menino te enfadem, se é que não as achas ridículas. Sublimes não eram. Cogitei muito no modo de resgatar a dívida espiritual. Não achava outra espécie em que, mediante a intenção, tudo se cumprisse, fechando a escrituração da minha consciência moral sem déficit. Mandar dizer cem missas, ou subir de joelhos a ladeira da Glória1 para ouvir uma, ir à Terra Santa, tudo o que as velhas escravas me contavam de promessas célebres, tudo me acudia sem se fixar de vez no espírito. Era muito duro subir uma ladeira de joelhos; devia feri-los por força. A Terra Santa ficava muito longe. As missas eram numerosas, podiam empenhar-me outra vez a alma…

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Notas explicativas:

  1. ladeira da Glória – A ladeira da Glória, ao lado do Catete, era, até 1944, a única via de acesso à Igreja de Nossa Senhora da Glória, muitíssimo procurada pela família real, desde os tempos de D. João VI, quando aqui chegou, em 1808.

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  1. A ameaça de ser mandado para o seminário levou Bentinho a procurar ajuda divina, como sempre fazia. A quem ele se dirigiu e o que prometeu?
  2. Por que Bentinho prometeu pagar um preço tal alto pela ajuda divina?
  3. Você acha que rezar uma certa quantidade de orações para pagar uma promessa feita a Deus é prática eficaz para se modificar certas situações de vida?

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Gabarito:

  1. Ele se dirigiu a Deus e prometeu rezar mil padre-nossos e mil ave-marias.
  2. Porque ele considerou que tinha promessas não pagas e que necessitava aumentar a quantidade de rezas para pagar a dívida.
  3. Resposta pessoal.

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