Literatura BrasileiraPasso a Passo da Leitura Literária

DOM CASMURRO – Capítulos 24 e 25

By 21 de novembro de 2014 No Comments

DOM CASMURRO – CAPÍTULO 24

DE MÃE E DE SERVO

José Dias tratava-me com extremos de mãe e atenções de servo. A primeira coisa que conseguiu logo que comecei a andar fora, foi dispensar-me o pajem; fez-se pajem, ia comigo à rua. Cuidava dos meus arranjos em casa, dos meus livros, dos meus sapatos, da minha higiene e da minha prosódia. Aos oito anos os meus plurais careciam, alguma vez da desinência exata, ele a corrigia, meio sério para dar autoridade à lição, meio risonho para obter o perdão da emenda. Ajudava assim o mestre de primeiras letras. Mais tarde, quando o Padre Cabral me ensinava latim, doutrina e história sagrada, ele assistia às lições, fazia reflexões eclesiásticas, e, no fim, perguntava ao padre: “Não é verdade que o nosso jovem amigo caminha depressa?” Chamava-me “um prodígio”; diz a minha mãe ter conhecido outrora meninos muito inteligentes, mas que eu excedia a todos esses, sem contar que, para a minha idade, possuía já certo número de qualidades morais sólidas. Eu, posto não avaliasse todo o valor deste outro elogio, gostava do elogio; era um elogio.

DOM CASMURRO – CAPÍTULO 25

NO PASSEIO PÚBLICO

Entramos no Passeio Público. Algumas caras velhas, outras doentes ou só vadias espalhavam-se melancolicamente no caminho que vai da porta ao terraço. Seguimos para o terraço. Andando, para me dar ânimo, falei do jardim:
– Há muito tempo que não venho aqui, talvez um ano.
– Perdoe-me, atalhou ele, não há três meses que esteve aqui com o nosso vizinho Pádua; não
se lembra?
– É verdade, mas foi tão de passagem…
– Ele pediu a sua mãe que o deixasse trazer consigo, e ela, que é boa como a mãe de Deus,
consentiu; mas ouça-me, já que falamos nisto, não é bonito que você ande com o Pádua na rua.
– Mas eu andei algumas vezes…
– Quando era mais jovem; em criança, era natural, ele podia passar por criado. Mas, você está ficando moço, e ele vai tomando confiança. D. Glória, afinal, não pode gostar disto. A gente Pádua não é de todo má. Capitu, apesar daqueles olhos que o diabo lhe deu… Você já reparou nos olhos dela? São de cigana oblíqua e dissimulada. Pois, apesar deles, poderia passar, se não fosse a vaidade e a adulação. Oh! a adulação! D. Fortunata merece estima, e ele não nego que seja honesto, tem um bom emprego, possui a casa em que mora, mas honestidade e estima não bastam, as outras qualidades perdem muito valor com as más companhias em que ele anda. Pádua tem uma tendência para gente reles. Em lhe cheirando a homem chulo é com ele. Não digo isto por ódio, nem porque ele fale mal de mim e se ria, como se riu, há dias, dos meus sapatos acalcanhados…
– Perdão, interrompi suspendendo o passo, nunca ouvi que falasse mal do senhor; pelo contrário, um dia, não há muito tempo, disse ele a um sujeito, em minha presença, que o senhor era “um homem de capacidade e sabia falar como um deputado nas Câmaras”.
José Dias sorriu deliciosamente, mas fez um esforço grande e fechou outra vez o rosto; depois replicou:
– Não lhe agradeço nada. Outros, de melhor sangue, me têm feito o favor de juízos altos. E nada disso impede que ele seja o que lhe digo.
Tínhamos outra vez andado, subimos ao terraço, e olhamos para o mar.
– Vejo que o senhor não quer senão o meu benefício, disse eu depois de alguns instantes.
– Pois que outra coisa, Bentinho?
– Neste caso, peço-lhe um favor.
– Um favor? Mande, ordene, o que é?
– Mamãe…
Durante algum tempo não pode dizer o resto, que era pouco, e vinha de cor. José Dias tornou a perguntou o que era, sacudia-me com brandura, levantava-me o queixo e espetava os olhos em mim, ansioso também, como a prima Justina na véspera.
– Mamãe quê? Que é que tem mamãe?
– Mamãe quer que eu seja padre, mas eu não posso ser padre, disse finalmente.
José Dias endireitou-se pasmado.
– Não posso, continuei eu, não menos pasmado que ele, não tenho jeito, não gosto da vida de padre. Estou por tudo o que ela quiser; mamãe sabe que eu faço tudo o que ela manda; estou pronto a ser o que for do seu agrado, até cocheiro de ônibus. Padre, não; não posso ser padre. A carreira é bonita, mas não é para mim.
Todo esse discurso não me saiu assim, de vez, enfiado naturalmente, peremptório, como pode parecer do texto, mas aos pedaços, mastigado, em voz um pouco surda e tímida. Não obstante, José Dias ouvira-o espantado. Não contava certamente com a resistência, por mais acanhada que fosse; mas o que ainda mais o assombrou foi esta conclusão:
– Conto com o senhor para salvar-me.
Os olhos do agregado escancararam-se, as sobrancelhas arquearam-se, e o prazer que eu contava dar-lhe com a escolha da proteção não se mostrou em nenhum dos músculos. Toda a cara dele era pouca para a estupefação. Realmente, a matéria do discurso revelara em mim uma alma nova; eu próprio não me conhecia. Mas a palavra final é que trouxe um vigor único. José Dias ficou aturdido. Quando os olhos tornaram às dimensões ordinárias:
– Mas que posso eu fazer? perguntou.
– Pode muito. O senhor sabe que, em nossa casa, todos o apreciam. Mamãe pede muita vez os seus conselhos, não é? Tio Cosme diz que o senhor é pessoa de talento…
– São bondades, retorquiu lisonjeado. São favores de pessoas dignas, que merecem tudo… Aí está! Nunca ninguém me há de ouvir dizer nada de pessoas tais; por quê? Porque são ilustres e virtuosas. Sua mãe é uma santa, seu tio é um cavalheiro perfeitíssimo. Tenho conhecido famílias distintas; nenhuma poderá vencer a sua em nobreza de sentimentos. O talento que seu tio acha em mim confesso que o tenho, mas é só um -, é o talento de saber o que é bom e digno de admiração e de apreço.
– Há de ter também o de proteger os amigos, como eu.
– Em que lhe posso valer, anjo do céu? Não hei de dissuadir sua mãe de um projeto que é, além de promessa, a ambição e o sonho de longos anos. Quando pudesse, é tarde. Ainda ontem fez-me o favor de dizer: “José Dias, preciso meter Bentinho no seminário”.
Timidez não é tão ruim moeda, como parece. Se eu fosse destemido, é provável que, com a indignação que experimentei, rompesse a chamar-lhe mentiroso, mas então seria preciso confessar-lhe que estivera à escuta, atrás da porta, e uma ação valia outra. Contentei-me de responder que não era tarde.
– Não é tarde, ainda é tempo, se o senhor quiser.
– Se eu quiser? Mas que outra coisa quero eu, senão servi-lo? Que desejo, senão que seja feliz, como merece?
– Pois ainda é tempo. Olhe, não é por vadiação. Estou pronto para tudo; se ela quiser que eu estude leis, vou para S. Paulo…
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Bentinho, no capitulo 23, pede para conversar com José Dias, mas quer que seja longe de casa. No capítulo 25, Bentinho informa a situação e pede ajuda a José Dias.

A) Qual o lugar escolhido para conversarem?
B) Sobre o que Bentinho queria conversar com José Dias?
C) Qual foi a reação de José Dias ao saber sobre a situação que Bentinho lhe expôs?
D) Qual foi o pedido que Bentinho fez a José Dias?
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GABARITO

A) O Passeio Público, logradouro da cidade do Rio de Janeiro, durante o século XIX.
B) Bentinho não queria ir para o Seminário para estudar e tornar-se padre, em virtude de uma promessa feita por sua mãe ao dar-lhe a luz.
C) Ficou aturdido, pasmo, espantado, pois não esperava que Bentinho ousasse discordar da mãe sobre o seu futuro trabalho.
D) Que tentasse dissuadir sua mãe de mandá-lo para um seminário.

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