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TEXTO PARA INTERPRETAÇÃO 86 – O MAL-ENTENDIDO ( Nível Médio)

By 10 de fevereiro de 2015 3 Comments

TEXTO PARA INTERPRETAÇÃO 86 – O MAL-ENTENDIDO (Nível Médio)

O mal-entendido

         Os dois garotos brincam na praia. Um branquinho, de os olhos claros, queimado de sol quase negro, de tamanho sol da manhã. O outro, negrinho retinto, de avós na senzala, de família do morro. Os dois descem à praia diariamente. O primeiro, de um nono andar, apartamento de frente para o mar, tapete no chão, lustres de cristal de muitas bocas, orgia de espelhos nas paredes. O outro, de um morro qualquer, barraco de madeira com São Jorge enfeitado de flor, um “dois-dois” de barro pintado, vaso de arruda na porta. Os amigos se encontram à hora certa, camaradagem de pé na areia igualitária. O primeiro traz bola. O segundo traz jogo. O primeiro é bem nutrido, atestado vivo de que caldo de vitamina batido em liquidificador é mesmo bom. O segundo é fino e sujo, os dentes inexplicavelmente claros e fortes, o riso irreverente, a gaforinha de areia sempre renovada nas pelejas da praia. Paulinho chama-se um, porque o avô foi Paulo e com ele começou a fortuna da casa. O outro chama-se Jorge, porque Ogum é padrinho.

         Descem os dois todo dia. Quando Paulinho vem acompanhado pelos pais, Jorginho assiste, com um grave olhar de técnico aposentado, a pelada em que a censura familiar não deixa preto se meter. Quando Paulinho vem só com a empregada – e é quase sempre – nem é preciso pedir licença. Jorginho tem lugar seguro, que ele é o artilheiro-mor da vizinhança. E a pelada se prolonga. Por ele, a manhã toda, a tarde toda, a vida toda. Não tem escola, não tem compromissos. Amendoim torrado ele só vende é mesmo à noite, ora à porta do Rian, ora do Roxy. Mas ao fim da meia hora, de uma hora, a pelada vai se desfazendo. Parentes e empregadas vêm recolher os futuros Garrinchas, os Pelés e Zagalos em formação. Paulinho fica mais tempo. E quando está só, ele e Jorginho descansam na areia. Inseparáveis na pelada – Paulinho arma o jogo, Jorginho apanha o couro e arremata de maneira inapelável – uma funda rivalidade os separa em tudo mais. Nunca se entendem. Porque Paulinho é importante, Jorginho um coitado. Paulinho vai à escola à tarde, de Cadillac. Jorginho vende amendoim na boca da noite. Oito anos, Paulinho. Nove anos, Jorginho. Reconhecendo a superioridade incrível do negro, no bate-bola, reclamando a sua colaboração, garantidora de tentos, Paulinho se vinga depois. E com a sua falta de diplomacia, tão própria da idade, faz valer os seus títulos, para humilhar o companheiro.

         – Tua casa tem tapete no chão?

Resposta negativa de Jorge.

– A minha tem. Até no quarto da empregada.

E continua:

– Tem lustre de cristal?

Jorginho pergunta o que é. Paulinho explica. Jorginho não tem. Luz no seu barraco vem dos fifós. Um vidro de sal de fruta, outro de Phymatosan.

– Teu pai tem sítio em Petrópolis?

– Não – responde sério Jorginho.

– O meu tem… Teu pai tem usina em Campos?

– Não.

– O meu tem.

– Teu pai tem iate?

– Não.

– O meu tem.

– Quantos apartamentos o teu pai tem?

– Nenhum.

– O meu pai tem dez. Só em Copacabana. O resto é na Tijuca.

– Jorginho baixa os olhos, acaricia o monte areia que está juntando.

– Teu pai tem televisão?

Nos olhos de Jorginho passa uma nuvem de tristeza. Nem responde.

– O meu tem – informa Paulinho.

Apanha a bola molhada, procura limpá-la dos grãozinhos de areia, pergunta de novo:

– Teu pai é deputado?

Jorginho não sabe o que seja aquilo, mas já diz que não, pelas dúvidas. Deve ser coisa importante.

– Teu pai tem automóvel?

Jorginho sorri tristemente, negando.

– O meu tem – diz novamente em triunfo o garoto bem-nascido.

– O meu tem. Um JK 61 que eu vou na escola, um 62 que ele vai pra idade, o Oldsmobile da mamãe, a camioneta do sítio, pra gente ir pra Petrópolis.

Jorginho está completamente esmagado. Paulinho sorri, orgulhoso. E agora ele nem pergunta mais, apenas informa:

– O meu pai tem quarenta ternos de roupa, o teu não tem…

Jorginho sente-se o menor dos moleques do morro.

– O meu pai tem três casas de campo, o teu não tem!

Jorginho sente-se o menor dos moleques do Rio.

– O meu pai tem dez cavalos de corrida, aposto que o teu não tem!

Jorginho sente-se o menor dos moleques do Brasil.

– O meu pai tem cem milhões de cruzeiros, garanto que o teu não tem!

Jorginho sente-se o menor dos moleques do mundo.

– O meu pai é amigo do Governador, o teu não é, pronto!

Jorginho sente-se o menor de todos os mortais.

Mas Paulinho ainda não está satisfeito.

– O meu pai tem retrato no jornal, o teu não tem, taí!

É quando Jorginho pula vitorioso. Dessa vez tem resposta. Retira do bolsinho do calção rasgado, um pedaço amarfanhado de jornal. Exibe-o, peito cheio, orgulhoso no olhar.

– Isso não! O meu pai também tem.

E em tom de desafio, irretorquível:

– Tu pensa que é só teu pai que é ladrão?

(ZONA SUL, in: Gilberto M. TELES (org) SELETA.

Rio de Janeiro, José Olympio, Brasília, INL, 1973)

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INTERPRETAÇÃO DO TEXTO

  1. Qual a grande diferença que separa os dois meninos?
  2. No primeiro parágrafo é mostrada a superioridade e habilidade que o negro tem com a bola. Transcreva a passagem do texto que demonstra isso.
  3. Quais as diferentes realidades de cada um personagens?
  4. De que maneira Paulinho consegue humilhar Jorginho após o jogo?
  5. Como Jorginho vai se sentindo a medida que Paulinho vai enumerando as suas vantagens econômicas?
  6. Como foi que Jorginho conseguiu se igualar ao amigo?
  7. Que tipo de interpretação Jorginho fez quando disse: “Tu pensa que é só teu pai que é ladrão?”
  8. Que outras interpretações se pode ter a respeito da afirmação de Jorginho?

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Gabarito

  1. A condição financeira de suas famílias: uma pobre e outra rica.
  2. “O segundo traz jogo.”
  3. Paulinho tem babá, estuda, mora em arranha-céu, e nunca soube o que não é ter o que comer; Jorginho não estuda, mora num barraco de madeira num morro do Rio de janeiro e trabalha, à noite, vendendo amendoim.
  4. Contando vantagens dos bens materiais de seu pai.
  5. Ele se sente cada vez mais diminuído, sem valor.
  6. Ao mostrar a foto do seu pai no jornal.
  7. Jorginho acreditava que os ladrões é que tem suas fotos estampadas nos jornais.
  8. Resposta pessoal justificada pelos fatos contidos no texto.

 

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