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DOM CASMURRO – Capítulo 30 – O SANTÍSSIMO

By 22 de março de 2015 No Comments

DOM CASMURRO – Capítulo 30

 O Santíssimo

          Terás entendido que aquela lembrança do Imperador acerca da medicina não era mais que a sugestão da minha pouca vontade de sair do Rio de Janeiro. Os sonhos do acordado são como os outros sonhos, tecem-se pelo desenho das nossas inclinações e das nossas recordações. Vá que fosse para São Paulo, mas a Europa… Era muito longe, muito mar e muito tempo. Viva a medicina! Iria contar estas esperanças à Capitu.

         – Parece que vai sair o Santíssimo, disse alguém no ônibus. Ouço um sino; é, creio que é em Santo Antônio dos Pobres1. Pare, Sr. recebedor!

         O recebedor das passagens puxou a correia que ia ter ao braço do cocheiro, o ônibus parou, e o homem desceu. José Dias deu duas voltas rápidas à cabeça, pegou-me no braço e fez-me descer consigo. Iríamos também acompanhar o Santíssimo. Efetivamente, o sino chamava os fiéis àquele serviço da última hora. Já havia algumas pessoas na sacristia. Era a primeira vez que me achava em momento tão grave; obedeci, a princípio constrangido, mas logo depois satisfeito, menos pela caridade do serviço que por me dar um ofício de homem. Quando o sacristão começou a distribuir as opas, entrou um sujeito esbaforido; era o meu vizinho Pádua, que também ia acompanhar o Santíssimo. Deu conosco, veio cumprimentar-nos. José Dias fez um gesto de aborrecido, e apenas lhe respondeu com uma palavra seca, olhando para o padre, que lavava as mãos. Depois como Pádua falasse ao sacristão, baixinho, aproximou-se deles; eu fiz a mesma coisa. Pádua solicitava ao sacristão uma das varas do pálio. José Dias pediu uma para si.

         – Há só uma disponível, disse o sacristão.

– Pois essa, disse José Dias.

– Mas eu tinha pedido primeiro, aventurou Pádua.

– Pediu primeiro, mas entrou tarde, retorquiu José Dias; eu já cá estava. Leve uma tocha.

       Pádua apesar do medo que tinha ao outro, teimava em querer a vara, tudo isto em voz baixa e surda. O sacristão achou meio de conciliar a rivalidade, tomando a si obter de um dos outros seguradores do pálio que cedesse a vara a Pádua, conhecido na paróquia, como José Dias. Assim fez; mas José Dias transtornou ainda esta combinação. Não, uma vez que tínhamos outra vara disponível, pediu-a para mim, “jovem seminarista”, a quem esta distinção cabia mais direitamente. Pádua ficou pálido, como as tochas. Era por à prova o coração de um pai. O sacristão, que me conhecia de me ver ali com minha mãe, aos domingos, perguntou de curioso se eu era deveras seminarista.

         – Ainda não, mas vai sê-lo, respondeu José Dias, piscando o olho esquerdo para mim, que, apesar do aviso, fiquei zangado.

– Bem, cedo ao nosso Bentinho, suspirou o pai de Capitu.

        Pela minha parte, quis ceder-lhe a vara; lembrou-me que ele costumava acompanhar o Santíssimo Sacramento aos moribundos, levando uma tocha, mas que a última vez conseguira uma vara do pálio. A distinção especial do pálio vinha de cobrir o vigário e o sacramento; para tocha qualquer pessoa servia. Foi ele mesmo que me contou e explicou isto, cheio de uma glória pia e risonha. Assim fica entendido o alvoroço com que entrara na igreja; era a segunda vez do pálio, tanto que cuidou logo de ir pedi-lo. E nada. E tornava à tocha comum, outra vez a interinidade interrompida; o administrador regressava ao antigo cargo… Quis ceder-lhe a vara; o agregado tolheu-me esse ato de generosidade, e pediu ao sacristão que nos pusesse, a ele e a mim, com as duas varas da frente, rompendo a marcha do pálio.

       Opas enfiadas, tochas distribuídas e acesas, padre e cibório2 prontos, o sacristão de hissope3 e campainha nas mãos, saiu o préstito à rua. Quando me vi com uma das varas, passando pelos fiéis, que se ajoelhavam, fiquei comovido. Pádua roía a tocha amargamente. É uma metáfora, não acho outra forma mais viva de dizer a dor e a humilhação do meu vizinho. De resto, não pude mirá-lo por muito tempo, nem ao agregado, que, paralelamente a mim, erguia a cabeça com o ar de ser ele próprio o Deus dos exércitos. Com pouco, senti-me cansado; os braços caíam-me, felizmente a casa era perto, na Rua do Senado.

         A enferma era uma senhora viúva, tísica, tinha uma filha de quinze ou dezesseis anos, que estava chorando à porta do quarto. A moça não era formosa, talvez nem tivesse graça; os cabelos caíam despenteados, e as lágrimas faziam-lhe encarquilhar os olhos. Não obstante, o total falava e cativava o coração. O vigário confessou a doente, deu-lhe a comunhão e os santos óleos. O pranto da moça redobrou tanto que senti os meus olhos molhados e fugi. Vim para perto de uma janela. Pobre criatura! A dor era comunicativa em si mesma; complicada da lembrança de minha mãe, doeu-me mais, e, quando enfim pensei em Capitu, senti um ímpeto de soluçar também, enfiei pelo corredor, e ouvi alguém dizer-me:

         – Não chore assim!

       A imagem de Capitu ia comigo, e a minha imaginação, assim como lhe atribuíra lágrimas, há pouco, assim lhe encheu a boca de riso agora; vi-a escrever no muro, falar-me, andar à volta, com os braços o ar; ouvi distintamente o meu nome, de uma doçura que me embriagou, e a voz dela. As tochas acesas, tão lúgubres na ocasião, tinham-me ares de um lustre nupcial… Que era lustre nupcial? Não sei; era alguma coisa contrária à morte, e não vejo outra mais que bodas. Esta nova sensação me dominou tanto que José Dias veio a mim, e me disse ao ouvido, em voz baixa:

         – Não ria assim!

      Fiquei sério depressa. Era o momento da saída. Peguei da minha vara; e, como já conhecia a distância, e agora voltávamos para a igreja, o que fazia a distância menor, – o peso da vara era mui pequeno. Demais, o sol cá fora, a animação da rua, os rapazes da minha idade que me fitavam cheios de inveja, as devotas que chegavam às janelas ou entravam nos corredores e se ajoelhavam à nossa passagem, tudo me enchia a alma de lepidez nova.

      Pádua, ao contrário, ia mais humilhado. Apesar de substituído por mim, não acabava de se consolar da tocha, da miserável tocha. E contudo havia outros que também traziam tocha, e apenas mostravam a compostura do ato; não iam garridos, mas também não iam tristes. Via-se que caminhavam com honra.

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Notas explicativas:

  1. Igreja de Santo Antonio dos Pobres – teve humilde origem junto à irmandade do mesmo santo, em agosto de 1807, na Rua dos Inválidos. A igreja tomou grande incremento quando da construção do novo edifício. É hoje matriz e uma das mais visitadas do Rio de Janeiro.
  2. Cibório – é o vaso sagrado onde se guardam as hóstias para a comunhão dos fiéis.
  3. Hissope – é um pequeno instrumento composto de uma bola de madeira ou metálica com orifícios e com um cabo, pelos quais passam sedas e que servem para fazer aspersões.

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  1. Procure no dicionário o significado das seguintes palavras que aparecem nesse texto:                    a) préstito         b) encarquilhar         c) lepidez         d) garridos
  1. José Dias decidiu “acompanhar o Santíssimo” e levar Bentinho com ele. Explique o que é “acompanhar o Santíssimo”.
  1. No capítulo 26 desta obra (Dom Casmurro) José Dias comprometeu-se a ajudar Bentinho a não ir para o seminário. Entretanto, neste capítulo 30, José Dias afirmou que ele era um “jovem seminarista”. Explique o porquê dessa atitude contraditória.

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Gabarito

  1. a) procissão       b) enrrugar, encher de rugas     c) alegria       d) alegres
  1. Era um grupo de pessoas (fiéis) da Igreja Católica que acompanhavam o padre que ia levar a extrema-unção à alguém que estava à beira da morte. No século XIX isso era feito à pé, como todo o aparato que é descrito no texto.
  1. José Dias não gostava de ser contrariado, principalmente por pessoas que ele julgava inferior, como o sr. Pádua. Por isso, para mostrar que Bentinho tinha o direito de ficar em lugar de destaque na procissão, valeu-se da afirmativa de que ele era um “jovem seminarista”, o que deixou Bentinho zangado, pois tal situação não era verdadeira.

 

 

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