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TEXTO PARA INTERPRETAÇÃO 96 – Como um trapezista de circo (Nível Fundamental)

By 26 de fevereiro de 2016 4 Comments

TEXTO PARA INTERPRETAÇÃO 96 – Como um trapezista de circo (Nível Fundamental)


COMO UM TRAPEZISTA DE CIRCO

         Fora demasiada audácia atacar aquela casa da Rua Rui Barbosa. Perto dali, na Praça do Palácio, andavam muitos guardas, investigadores, soldados. Mas eles tinham sede de aventura, estavam cada vez maiores, cada vez mais atrevidos. Porém havia muita gente na casa, deram o alarme, os guardas chegaram. Pedro Bala e João Grande abalaram pela ladeira da Praça. Barandão abriu no mundo também. Mas o Sem-Pernas ficou encurralado na rua. Jogava picula com os guardas. Estes tinham se despreocupado dos outros, pensavam que já era alguma coisa pegar aquele coxo. Sem-Pernas corria de um lado para outro da rua, os guardas avançavam. Ele fez que ia escapulir por outro lado, driblou um dos guardas, saiu pela ladeira. Mas em vez de descer e tomar pela Baixa dos Sapateiros, se dirigiu para a praça do Palácio. Porque Sem-Pernas sabia que se corresse na rua o pegariam com certeza. Eram homens, de pernas maiores que as suas, e além do mais ele era coxo, pouco podia correr. E acima de tudo não queria que o pegassem. Lembrava-se da vez que fora à polícia. Dos sonhos das suas noites más. Não o pegariam e enquanto corre este é o único pensamento que vai com ele. Os guardas veem nos seus calcanhares. Sem-Pernas sabe que eles gostarão de o pegar, que a captura de um dos Capitães da Areia é uma bela façanha para um guarda. Essa será a sua vingança. Não deixará que o peguem, não tocarão a mão no seu corpo. Sem-Pernas os odeia como odeia a todo mundo, porque nunca pôde ter um carinho. E no dia que o teve fora obrigado a o abandonar porque a vida já o tinha marcado demais. Nunca tivera uma alegria de criança. Se fizera homem antes dos dez anos para lutar pela mais miserável das vidas: a vida de criança abandonada. Nunca conseguira amar a ninguém, a não ser a este cachorro que o segue. Quando os corações das demais crianças ainda estão puros de sentimentos, o de Sem-Pernas já estava cheio de ódio. Odiava a cidade, a vida, os homens. Amava unicamente o seu ódio, sentimento que o fazia forte e corajoso apesar do defeito físico. Uma vez uma mulher foi boa para ele. Mas em verdade não o fora para ele e sim para o filho que perdera e que pensara que tinha voltado. De outra feita outra mulher se deitara com ele numa cama, acariciava seu sexo, se aproveitara dele para colher as migalhas do amor que nunca tivera. Nunca, porém, o tinham amado pelo que ele era, menino abandonado, aleijado e triste. Muita gente o tinha odiado. E ele odiara a todos. Apanhara na polícia, um homem ria quando o surravam. Para ele é este homem que corre em sua perseguição na figura dos guardas. Se o levarem, o homem rirá de novo. Não o levarão. Vem em seus calcanhares, mas não o levarão. Pensam que ele vai parar junto ao grande elevador. Mas Sem-Pernas não para. Sobe para o pequeno muro, volve o rosto para os guardas que ainda correm, ri com toda a força do seu ódio, cospe na cara de um que se aproxima estendendo os braços, se atira de costas no espaço como se fosse um trapezista de circo.
A praça toda fica em suspenso por um momento. Se jogou, diz uma mulher, e desmaia. Sem-Pernas se rebenta na montanha como um trapezista de circo que não tivesse alcançado o outro trapézio. O cachorro late entre as grades do muro.
(Jorge Amado. Capitães da Areia. 123 Edição, Record, Rio de Janeiro, 2007)

Após a leitura do texto responda às questões a seguir:
1. Qual o significado que o autor utilizou para o substantivo “homem” na frase abaixo:
“Se fizera homem antes dos dez anos…”

2.Substitua a expressão “de outra feita” existente na frase: “De outra feita outra mulher se deitara com ele…” por um sinônimo.

3. Sem-Pernas, assim apelidado por ser coxo de uma perna, era um dos capitães da areia, grupo de garotos e rapazes abandonados que viviam na marginalidade em Salvador, capital da Bahia. Que motivos tinha ele para tentar escapar da polícia?

4. Sem-Pernas odiava a todos e a causa de seu ódio era a falta de:                                                             a.(   ) saúde     b. (   ) carinho    c. (   ) alimento     d. (   ) amizade

5. Na corrida que empreendia para escapar da polícia, Sem-Pernas recordou-se de dois momentos em que o trataram de modo diferente. Nesses dois momentos, porém, ele percebeu que fora enganado. Por quê?

6. A polícia acreditava na captura de Sem-Pernas naquele momento. Por quê?

7. O garoto agiu de modo inesperado. O que fez ele?

8. Sem-Pernas conseguiu a vingança que desejava? Explique de acordo com as informações do texto.

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GABARITO
Questão 1. Pessoa do sexo masculino que, mesmo não sendo adulto, teve que se comportar como um homem adulto, isto é, teve que comandar e decidir sua própria vida.

Questão 2. Pode ser utilizado qualquer uma das expressões a seguir: Em outra ocasião… – Em oportunidade diferente…

Questão 3. Escapar era, para ele, uma vingança pelos maus tratos e deboches de que foi vítima e um modo de frustrar uma bela façanha policial.

Questão 4. Alternativa B

Questão 5. No primeiro momento, uma mulher julgou ser ele o filho que perdera; no segundo momento, uma mulher aproveitou-se dele, tentando obter o que nunca tivera.

Questão 6. Porque o garoto estava encurralado e deveria parar junto ao elevador Lacerda, pois não teria outra saída, pois o que havia a sua frente era o precipício para o mar.

Questão 7. Subiu na mureta da praça e saltou, de costas, para o precipício, isto é, para a morte.

Questão 8. Sim, pois a polícia não conseguiu prendê-lo.

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