Passo a Passo da Leitura Literária

DOM CASMURRO – Capítulo 33 – O Penteado

By 18 de abril de 2017 No Comments

DOM CASMURRO – Capítulo 33
O PENTEADO

Capitu deu-me as costas, voltando-se para o espelhinho. Peguei-lhe dos cabelos, colhi-os todos e entrei a alisá-los com o pente, desde a testa até as últimas pontas, que lhe desciam à cintura. Em pé não dava jeito: não esquecestes que ela era um nadinha mais alta que eu, mas ainda que fosse da mesma altura. Pedi-lhe que sentasse.
– Senta aí, é melhor.
Sentou-se. “Vamos ver o grande cabeleireiro”, disse-me rindo. Continuei a alisar os cabelos, com muito cuidado, e dividi-os em duas porções iguais, para compor as duas tranças. Não as fiz logo, nem assim depressa, como podem supor os cabeleireiros de ofício, mas devagar, devagarinho, saboreando pelo tato aqueles fios grossos, que eram parte dela. O trabalho era atrapalhado, às vezes por descaso, outras de propósito para desfazer o feito e refazê-lo. Os dedos roçavam na nuca da pequena ou nas espáduas vestidas de chita, e a sensação era um deleite. Mas, enfim, os cabelos iam acabando, por mais que eu os quisesse intermináveis. Não pedi ao céu que eles fossem tão longos como os de Aurora1, porque não conhecia ainda esta divindade que os velhos poetas me apresentaram depois; mas, desejei penteá-los por todos os séculos dos séculos, tecer duas tranças que pudessem envolver o infinito por um número inominável de vezes. Se isto vos parecer enfático, desgraçado leitor, é que nunca penteastes uma pequena, nunca pusestes as mãos adolescentes na jovem cabeça de uma ninfa… Uma ninfa! Todo eu estou mitológico. Ainda há pouco, falando dos seus olhos de ressaca, cheguei a escrever Tétis2, risquei Tétis, risquemos ninfa; digamos somente uma criatura amada, palavra que envolve todas as potências cristãs e pagãs. Enfim, acabei as duas tranças. Onde estava a fita para atar-lhes as pontas? Em cima da mesa, um triste pedaço de fita enxovalhada. Juntei as pontas das tranças, uni-as por um laço, retoquei a obra alargando aqui, achatando ali, até que exclamei:
– Pronto!
– Estará bom?
– Veja no espelho.
Em vez de ir ao espelho, que pensais que fez Capitu? Não vos esqueçais que estava sentada, de costas para mim. Capitu derreou a cabeça, a tal ponto que me foi preciso acudir com as mãos e ampará-la; o espaldar da cadeira era baixo. Inclinei-me depois sobre ela, rosto a rosto, mas trocados, os olhos de uma na linha da boca do outro. Pedi-lhe que levantasse a cabeça, podia ficar tonta, machucar o pescoço. Cheguei a dizer-lhe que estava feia; mas nem esta razão a moveu.
– Levanta, Capitu!
Não quis, não levantou a cabeça, e ficamos assim a olhar um para o outro, até que ela abrochou os lábios, eu desci os meus, e…
Grande foi a sensação do beijo; Capitu ergueu-se, rápida, eu recuei até à parede com uma espécie de vertigem, sem fala, os olhos escuros. Quando me clarearam, vi que Capitu tinha os seus no chão. Não me atrevi a dizer nada; ainda que quisesse, faltava-me língua. Preso, atordoado, não achava gesto nem ímpeto que me descolasse da parede e me atirasse a ela com mil palavras cálidas e mimosas… Não mofes dos meus quinze anos, leitor precoce. Com dezessete, Des Grieux3 (e mais era Des Grieux) não pensava ainda na diferença dos sexos.

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Notas explicativas:

1. Aurora – segundo a Mitologia Grega, Aurora era a deusa da manhã, que tinha a incumbência de abrir para o Sol as portas do Oriente.
2. Tétis – existem duas Tétis referidas pela Mitologia Grega. Uma, cuja transcrição literal seria Tethys, é filha de Ouranos e Gaia, e casada com o Oceano, do qual teve mais de três mil filhos, que são todos os rios do mundo. A segunda Thetys é uma das nereidas, filha de Nereu, o Velho do Mar, e de Dóris. É uma divindade marinha e imortal, a mais célebre de todas as nereidas. Possuía o dom da transformação. É certo que Machado de Assis se refere a esta última, pela coincidência da nereida com Capitu, de quem se fala neste trecho: os “olhos de ressaca”, isto é, olhos que lembram o movimento violento das ondas quando se lançam contra qualquer obstáculo; e o poder de transformação de Capitu, dissimulada e astuciosa.
3. Des Grieux – personagem do romance Manon Lescaut, do abade Prévost. Machado de Assis refere-se ao fato de que Des Grieux, cedo destinado a pertencer à Ordem de Malta, viveu para os estudos em seus anos de adolescência. Só depois de abandonar a escola de Amiens é que conheceu Manon Lescaut, que acaba perturbando definitivamente sua vida, graças a uma paixão vulcânica que supera todo os princípios morais e os interesses da família e da carreira.
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1. Este capítulo descreve algo que Bentinho sentiu. Do que se trata?

2. Identifique as situações que levaram Bentinho a beijar Capitu.

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Gabarito:

1.O capitulo descreve as condições a que ele foi levado a dar o primeiro beijo em Capitu.

2.a) começou a pentear os cabelos de Capitu;
b) quando Bentinho terminou o penteado, Capitu escorregou de propósito da cadeira e Bentinho teve que segurá-la de tal modo que seus rostos ficaram muito próximos, terminando no beijo.

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