Passo a Passo da Leitura Literária

DOM CASMURRO – Capítulo 2

By 26 de agosto de 2010 No Comments

DOM CASMURRO – Machado de Assis

Machado de Assis nasceu em 1839 e morreu em 1908, no Rio de Janeiro. Viveu sob o longo reinado de D. Pedro II, assistiu à Proclamação da República e testemunhou os primeiros anos do século XX.

“Dom Casmurro” foi publicado em 1899. Faz parte do movimento literário conhecido como Realismo. Uma das características desse movimento literário é a análise psicológica dos personagens. A linguagem correta e clássica, as frases curtas e a conversa com o leitor caracterizam os textos realistas.

CAPÍTULO II – Do Livro

Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro. Antes disso, porém, digamos os motivos que me põem a pena na mão.

Vivo só, com um criado. A casa em que moro é própria; fi-la construir de propósito, levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo, mas vá lá.

Um dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Matacavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal destas, a pintura do teto e das paredes é mais ou menos igual, umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam no bico, de espaço a espaço. Nos quatro cantos do teto as figuras das estações, e ao centro das paredes os medalhões de César⑴, Augusto⑵, Nero⑶ e Massinissa⑷, com os nomes por baixo… Não alcanço a razão de tais personagens. Quando fomos para a casa de Matacavalos, já ela estava assim decorada; vinha do decênio anterior. Naturalmente era gosto do tempo meter sabor clássico e figuras antigas em pinturas americanas. O mais é também análogo e parecido. Tenho chacarinha, flores, legume, uma casuarina, um poço e lavadouro. Uso louça velha e mobília velha. Enfim, agora, como outrora, há aqui o mesmo contraste da vida interior, que é pacata, com a exterior, que é ruidosa.

O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor nem o que foi, nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. O que aqui está é, mal comparado, semelhante à pintura que se põe na barba e nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias; o interno não aguenta tinta. Uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim. Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos santos. Quanto às amigas, algumas datam de quinze anos, outras de menos, e quase todas creem na mocidade. Duas ou três fariam crer nela aos outros, mas a língua que falam obriga muita vez a consultar os dicionários, e tal frequência é cansativa.

Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior; é outra coisa. A certos respeitos, aquela vida aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira. Em verdade, pouco apareço e menos falo. Distrações raras. O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não durmo mal.

Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também. Quis variar, e lembrou-me escrever um livro. Jurisprudência, Filosofia e Política acudiram-me, mas não me acudiram as forças necessárias. Depois, pensei em fazer uma História dos Subúrbios, menos seca que as memórias do padre Luís Gonçalves dos Santos, relativas à cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas, como preliminares, tudo árido e longo. Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse da pena e contasse alguns. Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do Fausto: “Aí vindes outra vez, inquietas sombras!…”

Fiquei tão alegre com esta idéia, que ainda agora me treme a pena na mão. Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande César, que me incitas a fazer os meus comentários, agradeço-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo.

Eia, comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro, que nunca me esqueceu. Tive outras muitas, melhores e piores, mas aquela nunca se me apagou do espírito. É o que vais entender, lendo.

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NOTAS:

1. Júlio César (101 a 44 a.C.) ditador romano, assassinado em consequência de uma conspiração dentro do Senado romano.

2. César Otávio Augusto (63 a.C. a 14 d.C.), sobrinho de Júlio César e seu herdeiro ao trono de Roma, como imperador.

3. Lúcio Domício Nero Cláudio (37 a 68 d.C.), imperador romano que governou Roma de 54 a 68 d.C., conhecido por suas atrocidades contra os cristãos.

4. Massinissa (238 a 148 a.C.) rei da Numídia, norte da África, aliado dos romanos.

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Vocabulário:

Alcovas – quartos de dormir

Chacarinha – sítio ou chácara pequena

Casuarina – tipo de árvore ornamental

Foram estudar a geologia dos campo santos – morreram

Exaurir – acabar com as forças físicas ou mentais

Reminiscências – lembranças do passado

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Analisando o texto.

1. Qual o assunto do capítulo?

2. Que motivos levaram o narrador a escrever o livro?

3. O narrador descreve um lugar. Que lugar é esse?

4. O narrador começa a colocar no papel as suas reminiscências. Como faz isso?

5. A rua citada no texto, atualmente, é chamada de Rua do Riachuelo, localizada no centro da cidade do Rio de Janeiro. Machado de Assis localiza sua narrativa nesse espaço urbano. Acesse o site maps.google.com.br e localize no mapa da cidade do Rio de Janeiro a região citada no texto: Engenho Novo e Petrópolis; ou se você mora na cidade do Rio de Janeiro, faça um roteiro de visita aos lugares citados nos capítulos 1 e 2 de Dom Casmurro.

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GABARITO

1. Explicação dos motivos que levaram o narrador a escrever o livro.

2. a) o isolamento e a monotonia em que vivia       b) o desejo de reviver os dias da adolescência, através das lembranças.

3. A casa onde ele cresceu localizada na Rua de Matacavalos.

4. Descrevendo a casa da sua infância e a casa onde mora, depois de velho.

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