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DOM CASMURRO – Capítulo 4

By 25 de setembro de 2010 6 Comments

DOM CASMURRO – Capítulo 4

Outra característica do movimento literário Realismo é o detalhismo descritivo. Procurando ser mais preciso possível em sua descrição, o escritor realista se detém na apresentação minuciosa dos personagens e dos ambientes, chegando, às vezes a um verdadeiro exagero detalhista. É o que percebemos no capítulo a seguir.

UM DEVER AMARÍSSIMO

José Dias amava os superlativos. Era um modo de dar feição monumental às idéias; não as havendo, servia a prolongar as frases. Levantou-se para ir buscar o gamão, que estava no interior da casa. Cosi-me muito à parede, e vi-o passar com as suas calças brancas engomadas, presilhas, rodaque e gravata de mola. Foi dos últimos que usaram presilhas no Rio de Janeiro, e talvez neste mundo. Trazia as calças curtas para que ficassem bem esticadas. A gravata de cetim preto, com um arco de aço por dentro, imobilizava-lhe o pescoço; era então moda. O rodaque de chita, veste caseira e leve, parecia nele uma casaca de cerimônia. Era magro, chupado, com um princípio de calva; teria os seus cinquenta e cinco anos. Levantou-se com o passo vagaroso de costume, não aquele vagar arrastado, mas um vagar calculado e deduzido, um silogismo completo, a premissa antes da conseqüência, a conseqüência antes da conclusão. Um dever amaríssimo!

Vocabulário

AMARÍSSIMO – forma superlativa absoluta sintética do adjetivo amargo

PRESILHA – tira de pano que tem na extremidade uma espécie de fivela em que se enfia um botão para apertar ou prender

RODAQUE –  traje masculino, espécie de casaco e colete

SILOGISMO – raciocínio formado por duas afirmações (premissas) que chegam a uma conclusão.

Ex: Todos os homens são mortais (1a. afirmação ou premissa)

Eu sou homem (2a. afirmação ou premissa)

Logo, eu sou mortal (conclusão ou consequência)

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1. Qual o tipo de texto deste capítulo?

a. (   ) descrição         b. (   ) narração         c. (   ) dissertação

2. No trecho: “José Dias amava os superlativos. Era um modo de dar feição monumental às idéias…”. Explique qual é a relação de sentido entre a 1a. e a 2a. frase.

3. O personagem José Dias abusava do emprego dos superlativos. Identifique, no texto, o adjetivo empregado no grau superlativo.

4. Ainda em relação à frase “Era um modo de dar feição monumental às ideias…” o que se pode depreender do jeito de ser do personagem José Dias?

5. Se você sabe desenhar ou tem habilidades nessa arte, tente materializar, no papel a imagem de José Dias, de acordo com a descrição feita neste capítulo.

 

6 Comments

  • rayane disse:

    Poderia ter o enredo do capitulo 4 (um dever amaríssimo)?

    • admin disse:

      Rayane, não entendi bem o que você quis dizer com “ter o enredo do capítulo 4″ de Dom Casmurro. Este capítulo faz parte de uma história que está sendo contada pelo seu principal personagem, Bentinho. No capítulo em questão, o narrador descreve um dos personagens, José Dias, tanto fisicamente quanto à maneira como este personagem se conduzia diante das situações. É que o chamamos de descrição psicológica do personagem.
      José Dias, fisicamente era: ” magro, chupado, com um princípio de calva; teria seus cinquenta e cinco anos.”
      José Dias, psicologicamente, gostava de andar bem arrumado: “… calças brancas engomadas, presilhas, rodaque e gravata de mola.” “…. trazia as calças curtas para que lhe ficassem bem esticadas.”

      José Dias, apesar da idade, tinha um andar elegante, e gostava de usar palavras que traduzissem ideias grandiosas ( José Dias amava os superlativos ) mas isso fazia parte da sua maneira de se apresentar diante das pessoas, principalmente diante da família de Bentinho: “… passo vagaroso do costume, não aquele vagar arrastado dos preguiçosos, mas um vagar calculado e deduzido…”

      Machado de Assis termina o capítulo apresentado as partes que compõem um silogismo – premissa, consequência e conclusão, aplicando-o à figura de José Dias.

      Esperamos ter contribuído para esclarecer o que você pediu.

  • Filipe disse:

    (São Paulo/SP) Olá! Ótima explicação. Gostaria de confirmar, porém, o meu entendimento a respeito do título. Seria “um dever amaríssimo” pois, como José Dias era um “criado” da família, toda a elegância do personagem não seria compatível com sua posição social?
    Muito obrigado!

    • admin disse:

      Felipe, para José Dias, um dos personagens da obra “Dom Casmurro”, era um “dever amaríssimo” (amar muito, muito, muito!) que ele tinha para com a família de Bentinho. Ele não era um “criado” no sentido que costumamos dar a esta palavra: empregado, aquele que faz trabalhos domésticos. Se você ler o capítulo seguinte (O agregado) vai entender que José Dias não era um empregado ou criado da família. Ele procurava se apresentar de forma elegante, tanto no vestir como no falar ou andar, pois queria se sentir à altura da família que o acolhera. Esperamos ter aclarado suas dúvidas.

  • Carol disse:

    Gabarito, Por favor!!

    • Olá, Carol! Obrigada pela visita ao nosso site. Quanto ao seu pedido sobre o gabarito das questões colocadas nos Capítulos da obra “Dom Casmurro”, não o colocamos porque nosso objetivo é que o leitor, ao fazer a leitura dos capítulos, mergulhe no enredo da história, de modo que consiga, ele mesmo achar as respostas. Isso representa uma forma de interpretação do texto ou da história escrita por Machado de Assis.

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