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DOM CASMURRO – Capítulo 11

By 6 de janeiro de 2011 3 Comments

DOM CASMURRO – CAPÍTULO 11

Machado de Assis fez um intervalo na narrativa e retoma aqui o que interrompeu no capítulo 3. Nos capítulos 4 a 7, apresenta alguns dos personagens e faz digressões nos capítulo 8, 9 e 10.

A PROMESSA

Tão depressa vi desaparecer o agregado no corredor, deixei o esconderijo, e corri à varanda do fundo. Não quis saber de lágrimas nem da causa que as fazia verter a minha mãe. A causa eram, provavelmente os seus projetos eclesiásticos, e a ocasião destes é a que vou dizer, por ser já então história velha; datava de dezesseis anos.

Os projetos vinham do tempo em que fui concebido. Tendo-lhe nascido morto o primeiro filho, minha mãe pegou-se com Deus para que o segundo vingasse, prometendo, se fosse varão, metê-lo na Igreja. Talvez esperasse uma menina. Não disse nada a meu pai, nem antes, nem depois de me dar à luz; contava fazê-lo quando eu entrasse para a escola, mas enviuvou antes disso. Viúva, sentiu o terror de separar-se de mim; mas era tão devota, tão temente a Deus, que buscou testemunhas da obrigação, confiando a promessa a parentes e familiares. Unicamente, para que nos separássemos o mais tarde possível, fez-me aprender em casa primeiras letras, latim e doutrina, por aquele Padre Cabral, velho amigo do tio Cosme, que ia lá jogar às noites.

Prazos largos são fáceis de subscrever; a imaginação os faz infinitos. Minha mãe esperou que os anos viessem vindo. Entretanto, ia-me afeiçoando à ideia da Igreja, brincos de criança, livros devotos, imagens de santos, conversações de casa, tudo convergia para o altar. Quando íamos à missa, dizia-me sempre que era para aprender a ser padre, e que reparasse no padre, não tirasse os olhos do padre. Em casa, brincava de missa -, um tanto às escondidas, porque minha mãe dizia que missa não era coisa de brincadeira. Arranjávamos um altar, Capitu e eu. Ela servia de sacristão, e alterávamos o ritual, no sentido de dividirmos a hóstia entre nós; a hóstia era sempre um doce. No tempo em que brincávamos assim, era muito comum ouvir à minha vizinha: “Hoje há missa?” Eu já sabia o que isto queria dizer, respondia afirmativamente, e ia pedir hóstia por outro nome. Voltava com ela, arranjávamos o altar, engrolávamos o latim e precipitávamos as cerimônias. Dominus, non sum dignus…1 Isto, que eu devia dizer três vezes, penso que só dizia uma, tal era a gulodice do padre e do sacristão. Não bebíamos vinho nem água; não tínhamos o primeiro e a segunda viria tirar-nos o gosto do sacrifício. Ultimamente não me falavam já do seminário, a tal ponto que eu supuha ser negócio findo. Quinze anos, não havendo vocação, pediam antes o seminário do mundo que o de S. José2. Minha mãe ficava muita vez a olhar para mim, como alma perdida, ou pegava-me na mão, a pretexto de nada, para apertá-la muito.

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NOTAS EXPLICATIVAS

  1. Dominus, non sum dignus… – frase em latim, significa “Senhor não sou digno…” e faz parte do ritual da missa católica. Foram palavras ditas pelo centurião de Cafarnaum por ocasião da cura de seu criado por Jesus (Mateus 8:8).
  2. Seminário de S. José – localizava-se na área atualmente ocupada pela Biblioteca Nacional, ao lado do Morro do Castelo, na cidade do Rio de Janeiro.

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Vocabulário

Digressões – desvio de rumo ou de assunto.

Verter – expelir; fazer correr um líquido para fora de um recipiente.

  1. Qual é a promessa contida neste capítulo?
  2. O que motivou esta promessa?

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