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DOM CASMURRO – Capítulo 13

By 21 de setembro de 2011 No Comments

DOM CASMURRO – Capítulo 13

CAPITU

De repente, ouvi bradar uma voz de dentro da casa ao pé:

–        Capitu!

E no quintal:

–        Mamãe!

E outra vez na casa:

–        Vem cá!

Não me pude ter. As pernas desceram-me os três degraus que davam para a chácara, e caminharam para o quintal vizinho. Era costume delas, às tardes, e às manhãs também. Que as pernas também são pessoas, apenas inferiores aos braços, e valem de si mesmas, quando a cabeça não as rege por meio das ideias. As minhas chegaram ao pé do muro. Havia ali uma porta de comunicação mandada rasgar por minha mãe, quando Capitu e eu éramos pequenos. A porta não tinha chave nem taramela; abria-se empurrando de um lado ou puxando de outro, e fechava-se ao peso de uma pedra pendente de uma corda. Era quase que exclusivamente nossa. Em crianças, fazíamos visita batendo de um lado, e sendo recebido do outro com muitas mesuras. Quando as bonecas de Capitu adoeciam, o médico era eu. Entrava no quintal dela com um pau debaixo do braço, para imitar o bengalão do Doutor João da Costa; tomava o pulso à doente, e pedia-lhe que mostrasse a língua. “É surda, coitada!” exclamava Capitu. Então eu coçava o queixo, como o doutor, e acabava mandando aplicar-lhe umas sanguessugas ou dar-lhe um vomitório: era a terapêutica habitual do médico.

–        Capitu!

–        Mamãe!

–        Deixa de estar esburacando o muro; vem cá.

A voz da mãe era agora mais perto, como se viesse já da porta dos fundos. Quis passar ao quintal, mas as pernas, há pouco tão andarilhas, pareciam agora presas ao chão. Afinal fiz um esforço, empurrei a porta, e entrei. Capitu estava ao pé do muro fronteiro, voltada para ele, riscando com um prego. O rumor da porta fê-la olhar para trás; ao dar comigo, encostou-se ao muro, como se quisesse esconder alguma coisa. Caminhei para ela; naturalmente levava o gesto mudado, porque ela veio a mim, e perguntou-me inquieta:

–        Que é que você tem?

–        Eu? Nada.

–        Nada, não; você tem alguma coisa.

Quis insistir que nada, mas não achei língua. Todo eu era olhos e coração, um coração que desta vez ia sair, com certeza, pela boca fora. Não podia tirar os olhos daquela criatura de quatorze anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio desbotado. Os cabelos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas atadas uma à outra, à moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, tinha boca fina e o queixo largo. As mãos, a despeito de alguns ofícios rudes, eram curadas com amor; não cheiravam a sabões finos nem águas de toucador, mas com água do poço e sabão comum trazia-as sem mácula. Calçava sapatos de duraque1, rasos e velhos, a que ela mesma dera alguns pontos.

–        Que é que você tem?

–        Não é nada, balbuciei finalmente.

E emendei logo:

–        É uma notícia.

–        Notícia de quê?

Pensei em dizer-lhe que ia entrar para o seminário e espreitar a impressão que lhe faria. Se a consternasse é que realmente gostava de mim; se não, é que não gostava. Mas todo esse cálculo foi obscuro e rápido; senti que não poderia falar claramente, tinha agora a vista não sei como…

–        Então?

–        Você sabe…

Nisto olhei para o muro, o lugar em que ela estivera riscando, escrevendo ou esburacando, como dissera a mãe. Vi uns riscos abertos, e lembou-me o gesto que ela fizera para cobri-los. Então quis vê-los de perto, e dei um passo. Capitu agarrou-me, mas, ou por temer que eu acabasse fugindo, ou por negar de outra maneira, correu adiante e apagou o escrito. Foi o mesmo que acender em mim o desejo de ler o que era.

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Notas explicativas:

1 – duraque: tecido forte e consistente, que era usado na confecção de calçados de senhoras.

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Exercício.

No capítulo anterior (12) Bentinho ouviu uma conversa que o deixou alvoroçado: ele amava Capitu e Capitu o amava! Mas, será que era verdade? No capítulo 13, Bentinho resolveu verificar se era mesmo verdade que Capitu o amava. Explique a maneira que o personagem Bentinho pensou em usar para descobrir isso e o que aconteceu.

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Gabarito:

Redija um pequeno texto que traduza os acontecimentos e as ações descritas no capítulo. Use suas próprias palavras para escrever aquilo que você entendeu. Mostre sua resposta para alguém da sua confiança que possa avaliá-la.

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