Passo a Passo da Leitura Literária

DOM CASMURRO – Capítulo 35

By 14 de junho de 2019 No Comments

DOM CASMURRO – Capítulo 35

O PROTONOTÁRIO APOSTÓLICO

          Enfim, peguei dos livros e corri à lição. Não corri precisamente; a meio caminho parei, advertindo que devia ser muito tarde, podiam ler-me no semblante alguma coisa. Tive ideia de mentir, alegar uma vertigem que me houvesse deitado ao chão; mas o susto que causaria à minha mãe fez-me rejeitá-la. Pensei em prometer algumas dezenas de padre-nossos; tinha, porém, outra promessa em aberto e outro favor pendente… Não, vamos ver; fui andando, ouvi vozes alegres, conversando ruidosamente. Quando entrei na sala, ninguém ralhou comigo.

O Padre Cabral recebera na véspera um recado do internúncio1; foi ter com ele, e sonhou que, por decreto pontifício, acabara de ser nomeado protonotário apostólico2. Esta distinção do Papa dera-lhe grande contentamento e a todos os nossos. Tio Cosme e prima Justina repetiam o título com admiração; era a primeira vez que ele soava aos nossos ouvidos, acostumados a cônegos, monsenhores, bispos, núncios, e internúncios; mas  o que era protonotário apostólico? O Padre Cabral explicou que não era propriamente o cargo da cúria, mas as honras dele. Tio Cosme viu exalçar-se no parceiro de voltarete, e repetia:

– Protonotário apostólico!

E voltando-se para mim:

– Prepara-te, Bentinho; tu podes vir a ser protonotário apostólico.

Cabral ouvia com gosto a repetição do título. Estava em pé, dava alguns passos, sorria ou tamborilava na tampa da boceta3. O tamanho do título como que lhe dobrava a magnificência, posto que, para ligá-lo ao nome, era demasiado comprido; esta segunda reflexão foi tio Cosme que a fez. Padre Cabral acudiu que não era preciso dizê-lo todo, bastava que lhe chamassem o protonotário Cabral. Subentendia-se apostólico.

– Protonotário Cabral.

– Sim, tem razão; protonotário Cabral.

– Mas, Sr. protonotário, – acudiu prima Justina para se ir acostumando ao uso do título – isto o obriga a ir a Roma?

– Não, D. Justina.

– Não, são só as honras, observou minha mãe.

– Agora, não impede – disse Cabral, que continuava a refletir -, não impede que nos casos de maior formalidade, atos públicos, cartas de cerimônia, etc., se empregue o título inteiro: protonotário apostólico. No uso comum, basta protonotário.

– Justamente, assentiram todos.

José Dias, que entrou pouco depois de mim, aplaudiu a distinção, e recordou, a propósito, os primeiros atos políticos de Pio IX4, grandes esperanças da Itália; mas ninguém pegou do assunto; o principal da hora e do lugar era o meu velho mestre de latim. Eu, voltando a mim do receio, entendi que devia cumprimentá-lo também, e este aplauso não lhe foi menos ao coração que os outros. Bateu-me na bochecha paternalmente. E acabou dando-me férias. Era muita felicidade para uma só hora. Um beijo e férias! Creio que o meu rosto disse isto mesmo, porque tio Cosme, sacudindo a barriga, chamou-me peralta; mas José Dias corrigiu a alegria:

– Não tem que festejar a vadiação; o latim sempre lhe há de ser preciso, ainda que não venha a ser padre.

Conheci aqui o meu homem. Era a primeira palavra, a semente lançada à terra, assim de passagem, como para acostumar os ouvidos da família. Minha mãe sorriu para mim, cheia de amor e tristeza, mas respondeu logo:

– Há de ser padre, e padre bonito.

– Não se esqueça, mana Glória, e protonotário também. Protonotário apostólico.

– O protonotário Santiago, acentuou Cabral.

Se a intenção do meu mestre de latim era ir acostumando ao uso do título com o nome, não sei bem; o que sei é que quando ouvi o meu nome ligado a tal título, deu-me vontade de dizer um desaforo. Mas a vontade aqui foi antes uma ideia, uma ideia sem língua, que se deixou ficar quieta e muda, tal como daí a pouco outras ideias… Mas essas pedem um capítulo especial. Rematemos este dizendo que o mestre de latim falou algum tempo da minha ordenação eclesiástica, ainda que sem grande interesse. Ele buscava um assunto alheio para se mostrar esquecido da própria glória, mas era esta que o deslumbrava na ocasião. Era um velho magro, sereno, dotado de qualidades boas. Alguns defeitos tinha; o mais excelso deles era ser guloso, não propriamente glutão; comia pouco, mas estimava o fino e o raro, e a nossa cozinha era simples, era menos pobre que a dele. Assim, quando minha mãe lhe disse que viesse jantar, a fim de se lhe fazer uma saúde, os olhos com que aceitou seriam de protonotário, mas não eram apostólicos. E para agradar a minha mãe, novamente pegou em mim, descrevendo o meu futuro eclesiástico, e queria saber se ia para o seminário agora, no ano próximo, e oferecia-se a falar ao “senhor bispo”, tudo marchetado do “protonotário Santiago”.

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Notas explicativas:

  1. internúncio– é o representante da cúria romana nos governos e cortes onde não há núncio, isto é, embaixador do Papa.
  2. protonotário apostólico– é o oficial da cúria romana superior a todos os notários. Isto é, escrivães, e que tem a função de expedir as ordens emanadas dos consistórios (reunião de cardeais) sob a presidência do Papa, para tratarem dos negócios da Igreja Católica.
  3. boceta– bolsa pequena, pequena caixa de rapé.
  4. Pio IX– José Maria Mastai Ferreti (1792-1878) tornou-se Papa com o nome de Pio IX, pela morte de Gregório XVI. Tomou certas medidas que logo granjearam sobre si muitas simpatias: restituiu a liberdade aos presos políticos e aos exilados, estabeleceu a municipalidade romana, admitiu vários leigos no seu ministério presidido pelo Cardeal Antonelli.

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  1. Qual é o assunto principal deste capítulo?

 

R. A nomeação do Padre Cabral para ser protonotário apostólico (uma espécie de escrivão) e a maneira como o padre recebeu esse título dado pelo Papa.

 

 

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