Passo a Passo da Leitura Literária

DOM CASMURRO – Capítulos 39 e 40

By 21 de junho de 2019 No Comments

DOM CASMURRO – Capítulo 39

A VOCAÇÃO

Padre Cabral estava naquela primeira hora das honras em que as mínimas congratulações valem por odes1. Tempo chega em que os dignificados recebem os louvores como um tributo usual, cara morta, sem agradecimentos. O alvoroço da primeira hora é melhor; esse estado de alma que vê na inclinação do arbusto, tocado do vento, um parabém da flora universal, traz sensações mais íntimas e finas que qualquer outro. Cabral ouviu as palavras de Capitu com infinito prazer.

– Obrigado, Capitu, muito obrigado; estimo que você goste também. Papai está bom? E mamãe? A você não se pergunta; essa cara é mesmo de quem vende saúde. E como vamos de rezas?

A todas as perguntas, Capitu ia respondendo prontamente e bem. Trazia um vestidinho melhor e os sapatos de sair. Não entrou com a familiaridade do costume, deteve-se um instante à porta da sala, antes de ir beijar a mão à minha mãe e ao padre. Como desse a este, duas vezes em cinco minutos, o título de protonotário, José Dias, para se desforrar da concorrência, fez um pequeno discurso em honra ao “coração paternal e augustíssimo de Pio IX”.

– Você é um grande prosa, disse tio Cosme, quando ele acabou.

José Dias sorriu sem vexame. Padre Cabral confirmou os louvores do agregado, sem os seus superlativos; ao que este acrescentou que o Cardeal Mastai evidentemente fora talhado para a tiara desde o princípio dos tempos. E, piscando-me o olho, concluiu:

– A vocação é tudo. O estado eclesiástico é perfeitíssimo, contanto que o sacerdote venha já destinado do berço. Não havendo vocação, falo de vocação sincera e real, um jovem pode muito bem estudar as letras humanas, que também são úteis e honradas.

Padre Cabral retorquia:

– A vocação é muito, mas o poder de Deus é soberano. Um homem pode não ter gosto à igreja e até persegui-la, e um dia a voz de Deus lhe fala, e ele sai apóstolo; veja S. Paulo2.

– Não contesto, mas o que eu digo é outra coisa. O que eu digo é que se pode muito bem servir a Deus sem ser padre, cá fora; pode-se ou não se pode?

– Pode-se.

– Pois então! exclamou José Dias triunfalmente, olhando em volta de si. Sem vocação é que não há bom padre, e em qualquer profissão liberal se serve a Deus, como todos devemos.

– Perfeitamente, mas a vocação não é só do berço que se traz.

– Homem, é a melhor.

– Um moço sem gosto nenhum à vida eclesiástica pode acabar por ser muito bom padre; tudo é que Deus o determine. Não me quero dar por modelo, mas aqui estou eu que nasci com a vocação da medicina; meu padrinho, que era coadjutor de Santa Rita3, teimou com meu pai para que me metesse no seminário; meu pai cedeu. Pois, senhor, tomei tal gosto aos estudos e à companhia dos padres, que acabei ordenando-me. Mas, suponha que não acontecia assim, e que eu não mudava de vocação, o que é que acontecia? Tinha estudado no seminário algumas matérias que é bom saber, e são sempre melhor ensinadas naquelas casas.

Prima Justina interveio:

– Como? Então pode-se entrar para o seminário e não sair padre?

Padre Cabral respondeu que sim, que se podia, e, voltando-se para mim, falou da minha vocação, que era manifesta; os meus brinquedos foram sempre de igreja, e eu adorava os ofícios divinos. A prova não provava; todas as crianças do meu tempo eram devotas. Cabral acrescentou que o reitor de S. José, a quem contara ultimamente a promessa de minha mãe, tinha o meu nascimento por milagre; ele era da mesma opinião. Capitu, cosida às saias de minha mãe, não atendia aos olhos ansiosos que eu lhe mandava; também não parecia escutar a conversação sobre o seminário e suas consequências, e, aliás, decorou o principal, como vim a saber depois. Duas vezes fui à janela, esperando que ele fosse também, e ficássemos à vontade, sozinhos, até acabar o mundo, se acabasse, mas Capitu não apareceu. Não deixou minha mãe, senão para ir embora. Eram ave-marias, despediu-se.

– Vai com ela, Bentinho, disse minha mãe.

– Não precisa, não, D. Glória, acudiu ela rindo, eu sei o caminho. Adeus, Sr. protonotário.

– Adeus, Capitu.

Tendo dado um passo no sentido de atravessar a sala, é claro que o meu dever, o meu gosto, todos os impulsos da idade e da ocasião eram atravessá-la de todo, seguir a vizinha corredor fora, descer à chácara, entrar no quintal, dar-lhe terceiro beijo, e despedir-me. Não me importo a recusa, que cuidei simulada, e enfiei pelo corredor; mas, Capitu que ia depressa, estacou e fez-me sinal que voltasse. Não obedeci; cheguei-me a ela.

– Não venha, não; amanhã falaremos.

– Mas eu queria dizer a você…

– Amanhã.

– Escuta!

– Fica!

Falava baixinho; pegou-me na mão, e pôs o dedo na boca. Uma preta, que veio de dentro acender o lampião do corredor, vendo-nos naquela atitude quase às escuras, riu de simpatia e murmurou, em tom que ouvíssemos, alguma coisa que não entendi bem nem mal. Capitu segredou-se que a escrava desconfiara, e ia talvez contar às outras. Novamente me intimou que ficasse, e retirou-se; eu deixei-me estar parado, pregado, agarrado ao chão.

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Notas explicativas:

1 –Odes: poemas líricos composto de estrofes de versos com o mesmo número de sílabas.

2 –S. Paulo: o texto refere-se à conversão de Saulo na estrada de Damasco. Depois de convertido toma o nome de Paulo (Atos dos Apóstolos 9:1 a 18).

3 –Santa Rita: a igreja de Santa Rita de Cássia situa-se na Rua Miguel Couto/Rio de Janeiro, e foi conhecida também por Igreja dos Malfeitores, pois ali os presos condenados recebiam as últimas consolações.

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DOM CASMURRO – Capítulo 40

UMA ÉGUA

          Ficando só, refleti algum tempo, e tive uma fantasia. Já conheceis as minhas fantasias. Contei-vos a da visita imperial; disse-vos a desta casa do Engenho Novo, reproduzindo a de Matacavalos… A imaginação foi a companheira de toda a minha existência, viva, rápida, inquieta, alguma vez tímida e amiga de empacar, as mais delas capaz de engolir campanhas e campanhas, correndo. Creio haver lido em Tácito que as éguas iberas concebiam pelo vento; se não foi nele, foi noutro autor antigo1, que entendeu guardar essa crendice nos seus livros. Neste particular, a minha imaginação era uma grande égua ibera; a menor brisa lhe dava um potro, que saía logo cavalo de Alexandre2; mas deixemos de metáforas atrevidas e impróprias dos meus quinze anos. Digamos ocaso simplesmente. A fantasia daquela hora foi confessar a minha mãe os meus amores para lhe dizer que não tinha vocação eclesiástica. A conversa sobre vocação tornava-me agora toda inteira, e, ao passo que me assustava, abria-me uma porta de saída. “Sim, é isto, pensei; vou dizer à mamãe que não tenho vocação, e confesso o nosso namoro; se ela duvidar, conto-lhe o que se passou outro dia, o penteado e o resto…

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Notas explicativas:

1 –autor antigo: a dúvida de Machado de Assis era procedente – a citação pertence não a Tácito, mas a Virgílio (71 a 19 a.C.), poeta latino dos mais ilustres de seu tempo, autor de Eneida, Bucólicas, Geórgicas.

2 –Alexandre: o texto refere-se a Alexandre, o Grande, rei da Macedônia (356 a 323 a. C.), um dos mais famosos generais da Antiguidade. Sonhou conquistar o mundo conhecido da época, mas uma febre o matou na Babilônia. Assim mesmo, dominou toda a Ásia. O episódio do cavalo a que o texto refere é o de Bucéfalo, animal fogoso que ninguém conseguia domar, até que Alexandre, descobrindo que o mesmo tinha medo da própria sombra, fê-lo caminhar contra o sol, e alcançou o seu objetivo.

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Questões:

  1. No Cap. 39, José Dias levantou uma questão que para Bentinho seria um bom motivo para alegar não ir para o seminário e tornar-se padre. Qual foi?

2. O que José Dias pretendia com essa ideia de “não vocação para ser padre”?

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Gabarito:

  1. José Dias afirmou que a vocação para ser padre era essencial. Não havendo isso, melhor seria se preparar em outras áreas de estudo.
  2.  Ele começou a colocar em ação o plano para dissuadir a mãe de Bentinho de mandá-lo para o seminário, conforme ele havia prometido a Bentinho  (Cap. 26).

 

 

 

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