{"id":1238,"date":"2014-11-21T11:46:09","date_gmt":"2014-11-21T11:46:09","guid":{"rendered":"http:\/\/portugues.camerapro.com.br\/?p=1238"},"modified":"2014-11-21T11:46:09","modified_gmt":"2014-11-21T11:46:09","slug":"dom-casmurro-capitulos-24-e-25","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portuguesirado.com.br\/?p=1238","title":{"rendered":"DOM CASMURRO &#8211; Cap\u00edtulos 24 e 25"},"content":{"rendered":"<p>DOM CASMURRO \u2013 CAP\u00cdTULO 24<br \/>\n<!--more--><\/p>\n<p>DE M\u00c3E E DE SERVO<\/p>\n<p>          Jos\u00e9 Dias tratava-me com extremos de m\u00e3e e aten\u00e7\u00f5es de servo. A primeira coisa que conseguiu logo que comecei a andar fora, foi dispensar-me o pajem; fez-se pajem, ia comigo \u00e0 rua. Cuidava dos meus arranjos em casa, dos meus livros, dos meus sapatos, da minha higiene e da minha pros\u00f3dia. Aos oito anos os meus plurais careciam, alguma vez da desin\u00eancia exata, ele a corrigia, meio s\u00e9rio para dar autoridade \u00e0 li\u00e7\u00e3o, meio risonho para obter o perd\u00e3o da emenda. Ajudava assim o mestre de primeiras letras. Mais tarde, quando o Padre Cabral me ensinava latim, doutrina e hist\u00f3ria sagrada, ele assistia \u00e0s li\u00e7\u00f5es, fazia reflex\u00f5es eclesi\u00e1sticas, e, no fim, perguntava ao padre: \u201cN\u00e3o \u00e9 verdade que o nosso jovem amigo caminha depressa?\u201d Chamava-me \u201cum prod\u00edgio\u201d; diz a minha m\u00e3e ter conhecido outrora meninos muito inteligentes, mas que eu excedia a todos esses, sem contar que, para a minha idade, possu\u00eda j\u00e1 certo n\u00famero de qualidades morais s\u00f3lidas. Eu, posto n\u00e3o avaliasse todo o valor deste outro elogio, gostava do elogio; era um elogio.<\/p>\n<p>DOM CASMURRO \u2013 CAP\u00cdTULO 25<\/p>\n<p>NO PASSEIO P\u00daBLICO<\/p>\n<p>          Entramos no Passeio P\u00fablico. Algumas caras velhas, outras doentes ou s\u00f3 vadias espalhavam-se melancolicamente no caminho que vai da porta ao terra\u00e7o. Seguimos para o terra\u00e7o. Andando, para me dar \u00e2nimo, falei do jardim:<br \/>\n          &#8211; H\u00e1 muito tempo que n\u00e3o venho aqui, talvez um ano.<br \/>\n          &#8211; Perdoe-me, atalhou ele, n\u00e3o h\u00e1 tr\u00eas meses que esteve aqui com o nosso vizinho P\u00e1dua; n\u00e3o<br \/>\nse lembra?<br \/>\n          &#8211; \u00c9 verdade, mas foi t\u00e3o de passagem&#8230;<br \/>\n          &#8211; Ele pediu a sua m\u00e3e que o deixasse trazer consigo, e ela, que \u00e9 boa como a m\u00e3e de Deus,<br \/>\nconsentiu; mas ou\u00e7a-me, j\u00e1 que falamos nisto, n\u00e3o \u00e9 bonito que voc\u00ea ande com o P\u00e1dua na rua.<br \/>\n          &#8211; Mas eu andei algumas vezes&#8230;<br \/>\n          &#8211; Quando era mais jovem; em crian\u00e7a, era natural, ele podia passar por criado. Mas, voc\u00ea est\u00e1 ficando mo\u00e7o, e ele vai tomando confian\u00e7a. D. Gl\u00f3ria, afinal, n\u00e3o pode gostar disto. A gente P\u00e1dua n\u00e3o \u00e9 de todo m\u00e1. Capitu, apesar daqueles olhos que o diabo lhe deu&#8230; Voc\u00ea j\u00e1 reparou nos olhos dela? S\u00e3o de cigana obl\u00edqua e dissimulada. Pois, apesar deles, poderia passar, se n\u00e3o fosse a vaidade e a adula\u00e7\u00e3o. Oh! a adula\u00e7\u00e3o! D. Fortunata merece estima, e ele n\u00e3o nego que seja honesto, tem um bom emprego, possui a casa em que mora, mas honestidade e estima n\u00e3o bastam, as outras qualidades perdem muito valor com as m\u00e1s companhias em que ele anda. P\u00e1dua tem uma tend\u00eancia para gente reles. Em lhe cheirando a homem chulo \u00e9 com ele. N\u00e3o digo isto por \u00f3dio, nem porque ele fale mal de mim e se ria, como se riu, h\u00e1 dias, dos meus sapatos acalcanhados&#8230;<br \/>\n          &#8211; Perd\u00e3o, interrompi suspendendo o passo, nunca ouvi que falasse mal do senhor; pelo contr\u00e1rio, um dia, n\u00e3o h\u00e1 muito tempo, disse ele a um sujeito, em minha presen\u00e7a, que o senhor era \u201cum homem de capacidade e sabia falar como um deputado nas C\u00e2maras\u201d.<br \/>\n          Jos\u00e9 Dias sorriu deliciosamente, mas fez um esfor\u00e7o grande e fechou outra vez o rosto; depois replicou:<br \/>\n          &#8211; N\u00e3o lhe agrade\u00e7o nada. Outros, de melhor sangue, me t\u00eam feito o favor de ju\u00edzos altos. E nada disso impede que ele seja o que lhe digo.<br \/>\n          T\u00ednhamos outra vez andado, subimos ao terra\u00e7o, e olhamos para o mar.<br \/>\n          &#8211; Vejo que o senhor n\u00e3o quer sen\u00e3o o meu benef\u00edcio, disse eu depois de alguns instantes.<br \/>\n          &#8211; Pois que outra coisa, Bentinho?<br \/>\n          &#8211; Neste caso, pe\u00e7o-lhe um favor.<br \/>\n          &#8211; Um favor? Mande, ordene, o que \u00e9?<br \/>\n          &#8211; Mam\u00e3e&#8230;<br \/>\n          Durante algum tempo n\u00e3o pode dizer o resto, que era pouco, e vinha de cor. Jos\u00e9 Dias tornou a perguntou o que era, sacudia-me com brandura, levantava-me o queixo e espetava os olhos em mim, ansioso tamb\u00e9m, como a prima Justina na v\u00e9spera.<br \/>\n          &#8211; Mam\u00e3e qu\u00ea? Que \u00e9 que tem mam\u00e3e?<br \/>\n          &#8211; Mam\u00e3e quer que eu seja padre, mas eu n\u00e3o posso ser padre, disse finalmente.<br \/>\n          Jos\u00e9 Dias endireitou-se pasmado.<br \/>\n          &#8211; N\u00e3o posso, continuei eu, n\u00e3o menos pasmado que ele, n\u00e3o tenho jeito, n\u00e3o gosto da vida de padre. Estou por tudo o que ela quiser; mam\u00e3e sabe que eu fa\u00e7o tudo o que ela manda; estou pronto a ser o que for do seu agrado, at\u00e9 cocheiro de \u00f4nibus. Padre, n\u00e3o; n\u00e3o posso ser padre. A carreira \u00e9 bonita, mas n\u00e3o \u00e9 para mim.<br \/>\n          Todo esse discurso n\u00e3o me saiu assim, de vez, enfiado naturalmente, perempt\u00f3rio, como pode parecer do texto, mas aos peda\u00e7os, mastigado, em voz um pouco surda e t\u00edmida. N\u00e3o obstante, Jos\u00e9 Dias ouvira-o espantado. N\u00e3o contava certamente com a resist\u00eancia, por mais acanhada que fosse; mas o que ainda mais o assombrou foi esta conclus\u00e3o:<br \/>\n          &#8211; Conto com o senhor para salvar-me.<br \/>\n          Os olhos do agregado escancararam-se, as sobrancelhas arquearam-se, e o prazer que eu contava dar-lhe com a escolha da prote\u00e7\u00e3o n\u00e3o se mostrou em nenhum dos m\u00fasculos. Toda a cara dele era pouca para a estupefa\u00e7\u00e3o. Realmente, a mat\u00e9ria do discurso revelara em mim uma alma nova; eu pr\u00f3prio n\u00e3o me conhecia. Mas a palavra final \u00e9 que trouxe um vigor \u00fanico. Jos\u00e9 Dias ficou aturdido. Quando os olhos tornaram \u00e0s dimens\u00f5es ordin\u00e1rias:<br \/>\n          &#8211; Mas que posso eu fazer? perguntou.<br \/>\n          &#8211; Pode muito. O senhor sabe que, em nossa casa, todos o apreciam. Mam\u00e3e pede muita vez os seus conselhos, n\u00e3o \u00e9? Tio Cosme diz que o senhor \u00e9 pessoa de talento&#8230;<br \/>\n          &#8211; S\u00e3o bondades, retorquiu lisonjeado. S\u00e3o favores de pessoas dignas, que merecem tudo&#8230; A\u00ed est\u00e1! Nunca ningu\u00e9m me h\u00e1 de ouvir dizer nada de pessoas tais; por qu\u00ea? Porque s\u00e3o ilustres e virtuosas. Sua m\u00e3e \u00e9 uma santa, seu tio \u00e9 um cavalheiro perfeit\u00edssimo. Tenho conhecido fam\u00edlias distintas; nenhuma poder\u00e1 vencer a sua em nobreza de sentimentos. O talento que seu tio acha em mim confesso que o tenho, mas \u00e9 s\u00f3 um -, \u00e9 o talento de saber o que \u00e9 bom e digno de admira\u00e7\u00e3o e de apre\u00e7o.<br \/>\n          &#8211; H\u00e1 de ter tamb\u00e9m o de proteger os amigos, como eu.<br \/>\n          &#8211; Em que lhe posso valer, anjo do c\u00e9u? N\u00e3o hei de dissuadir sua m\u00e3e de um projeto que \u00e9, al\u00e9m de promessa, a ambi\u00e7\u00e3o e o sonho de longos anos. Quando pudesse, \u00e9 tarde. Ainda ontem fez-me o favor de dizer: \u201cJos\u00e9 Dias, preciso meter Bentinho no semin\u00e1rio\u201d.<br \/>\n          Timidez n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o ruim moeda, como parece. Se eu fosse destemido, \u00e9 prov\u00e1vel que, com a indigna\u00e7\u00e3o que experimentei, rompesse a chamar-lhe mentiroso, mas ent\u00e3o seria preciso confessar-lhe que estivera \u00e0 escuta, atr\u00e1s da porta, e uma a\u00e7\u00e3o valia outra. Contentei-me de responder que n\u00e3o era tarde.<br \/>\n          &#8211; N\u00e3o \u00e9 tarde, ainda \u00e9 tempo, se o senhor quiser.<br \/>\n          &#8211; Se eu quiser? Mas que outra coisa quero eu, sen\u00e3o servi-lo? Que desejo, sen\u00e3o que seja feliz, como merece?<br \/>\n          &#8211; Pois ainda \u00e9 tempo. Olhe, n\u00e3o \u00e9 por vadia\u00e7\u00e3o. Estou pronto para tudo; se ela quiser que eu estude leis, vou para S. Paulo&#8230;<br \/>\n________________________________________________________________________________<\/p>\n<p>Bentinho, no capitulo 23, pede para conversar com Jos\u00e9 Dias, mas quer que seja longe de casa. No cap\u00edtulo 25, Bentinho informa a situa\u00e7\u00e3o e pede ajuda a Jos\u00e9 Dias.<\/p>\n<p>A)\tQual o lugar escolhido para conversarem?<br \/>\nB)\tSobre o que Bentinho queria conversar com Jos\u00e9 Dias?<br \/>\nC)\tQual foi a rea\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Dias ao saber sobre a situa\u00e7\u00e3o que Bentinho lhe exp\u00f4s?<br \/>\nD)\tQual foi o pedido que Bentinho fez a Jos\u00e9 Dias?<br \/>\n_________________________________________________________________________________<\/p>\n<p>GABARITO<\/p>\n<p>A) O Passeio P\u00fablico, logradouro da cidade do Rio de Janeiro, durante o s\u00e9culo XIX.<br \/>\nB) Bentinho n\u00e3o queria ir para o Semin\u00e1rio para estudar e tornar-se padre, em virtude de uma promessa feita por sua m\u00e3e ao dar-lhe a luz.<br \/>\nC)  Ficou aturdido, pasmo, espantado, pois n\u00e3o esperava que Bentinho ousasse discordar da m\u00e3e sobre o seu futuro trabalho.<br \/>\nD) Que tentasse dissuadir sua m\u00e3e de mand\u00e1-lo para um semin\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DOM CASMURRO \u2013 CAP\u00cdTULO 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