{"id":1280,"date":"2015-03-22T22:31:25","date_gmt":"2015-03-22T22:31:25","guid":{"rendered":"http:\/\/portugues.camerapro.com.br\/?p=1280"},"modified":"2015-03-22T22:31:25","modified_gmt":"2015-03-22T22:31:25","slug":"dom-casmurro-capitulo-30-o-santissimo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portuguesirado.com.br\/?p=1280","title":{"rendered":"DOM CASMURRO &#8211; Cap\u00edtulo 30 &#8211; O SANT\u00cdSSIMO"},"content":{"rendered":"<p>DOM CASMURRO \u2013 Cap\u00edtulo 30<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0O Sant\u00edssimo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!--more-->\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Ter\u00e1s entendido que aquela lembran\u00e7a do Imperador acerca da medicina n\u00e3o era mais que a sugest\u00e3o da minha pouca vontade de sair do Rio de Janeiro. Os sonhos do acordado s\u00e3o como os outros sonhos, tecem-se pelo desenho das nossas inclina\u00e7\u00f5es e das nossas recorda\u00e7\u00f5es. V\u00e1 que fosse para S\u00e3o Paulo, mas a Europa&#8230; Era muito longe, muito mar e muito tempo. Viva a medicina! Iria contar estas esperan\u00e7as \u00e0 Capitu.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 &#8211; Parece que vai sair o Sant\u00edssimo, disse algu\u00e9m no \u00f4nibus. Ou\u00e7o um sino; \u00e9, creio que \u00e9 em Santo Ant\u00f4nio dos Pobres<sup>1<\/sup>. Pare, Sr. recebedor!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O recebedor das passagens puxou a correia que ia ter ao bra\u00e7o do cocheiro, o \u00f4nibus parou, e o homem desceu. Jos\u00e9 Dias deu duas voltas r\u00e1pidas \u00e0 cabe\u00e7a, pegou-me no bra\u00e7o e fez-me descer consigo. Ir\u00edamos tamb\u00e9m acompanhar o Sant\u00edssimo. Efetivamente, o sino chamava os fi\u00e9is \u00e0quele servi\u00e7o da \u00faltima hora. J\u00e1 havia algumas pessoas na sacristia. Era a primeira vez que me achava em momento t\u00e3o grave; obedeci, a princ\u00edpio constrangido, mas logo depois satisfeito, menos pela caridade do servi\u00e7o que por me dar um of\u00edcio de homem. Quando o sacrist\u00e3o come\u00e7ou a distribuir as opas, entrou um sujeito esbaforido; era o meu vizinho P\u00e1dua, que tamb\u00e9m ia acompanhar o Sant\u00edssimo. Deu conosco, veio cumprimentar-nos. Jos\u00e9 Dias fez um gesto de aborrecido, e apenas lhe respondeu com uma palavra seca, olhando para o padre, que lavava as m\u00e3os. Depois como P\u00e1dua falasse ao sacrist\u00e3o, baixinho, aproximou-se deles; eu fiz a mesma coisa. P\u00e1dua solicitava ao sacrist\u00e3o uma das varas do p\u00e1lio. Jos\u00e9 Dias pediu uma para si.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 &#8211; H\u00e1 s\u00f3 uma dispon\u00edvel, disse o sacrist\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Pois essa, disse Jos\u00e9 Dias.<\/p>\n<p>&#8211; Mas eu tinha pedido primeiro, aventurou P\u00e1dua.<\/p>\n<p>&#8211; Pediu primeiro, mas entrou tarde, retorquiu Jos\u00e9 Dias; eu j\u00e1 c\u00e1 estava. Leve uma tocha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0P\u00e1dua apesar do medo que tinha ao outro, teimava em querer a vara, tudo isto em voz baixa e surda. O sacrist\u00e3o achou meio de conciliar a rivalidade, tomando a si obter de um dos outros seguradores do p\u00e1lio que cedesse a vara a P\u00e1dua, conhecido na par\u00f3quia, como Jos\u00e9 Dias. Assim fez; mas Jos\u00e9 Dias transtornou ainda esta combina\u00e7\u00e3o. N\u00e3o, uma vez que t\u00ednhamos outra vara dispon\u00edvel, pediu-a para mim, \u201cjovem seminarista\u201d, a quem esta distin\u00e7\u00e3o cabia mais direitamente. P\u00e1dua ficou p\u00e1lido, como as tochas. Era por \u00e0 prova o cora\u00e7\u00e3o de um pai. O sacrist\u00e3o, que me conhecia de me ver ali com minha m\u00e3e, aos domingos, perguntou de curioso se eu era deveras seminarista.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 &#8211; Ainda n\u00e3o, mas vai s\u00ea-lo, respondeu Jos\u00e9 Dias, piscando o olho esquerdo para mim, que, apesar do aviso, fiquei zangado.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, cedo ao nosso Bentinho, suspirou o pai de Capitu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Pela minha parte, quis ceder-lhe a vara; lembrou-me que ele costumava acompanhar o Sant\u00edssimo Sacramento aos moribundos, levando uma tocha, mas que a \u00faltima vez conseguira uma vara do p\u00e1lio. A distin\u00e7\u00e3o especial do p\u00e1lio vinha de cobrir o vig\u00e1rio e o sacramento; para tocha qualquer pessoa servia. Foi ele mesmo que me contou e explicou isto, cheio de uma gl\u00f3ria pia e risonha. Assim fica entendido o alvoro\u00e7o com que entrara na igreja; era a segunda vez do p\u00e1lio, tanto que cuidou logo de ir pedi-lo. E nada. E tornava \u00e0 tocha comum, outra vez a interinidade interrompida; o administrador regressava ao antigo cargo&#8230; Quis ceder-lhe a vara; o agregado tolheu-me esse ato de generosidade, e pediu ao sacrist\u00e3o que nos pusesse, a ele e a mim, com as duas varas da frente, rompendo a marcha do p\u00e1lio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Opas enfiadas, tochas distribu\u00eddas e acesas, padre e cib\u00f3rio<sup>2<\/sup> prontos, o sacrist\u00e3o de hissope<sup>3<\/sup> e campainha nas m\u00e3os, saiu o <em>pr\u00e9stito<\/em> \u00e0 rua. Quando me vi com uma das varas, passando pelos fi\u00e9is, que se ajoelhavam, fiquei comovido. P\u00e1dua ro\u00eda a tocha amargamente. \u00c9 uma met\u00e1fora, n\u00e3o acho outra forma mais viva de dizer a dor e a humilha\u00e7\u00e3o do meu vizinho. De resto, n\u00e3o pude mir\u00e1-lo por muito tempo, nem ao agregado, que, paralelamente a mim, erguia a cabe\u00e7a com o ar de ser ele pr\u00f3prio o Deus dos ex\u00e9rcitos. Com pouco, senti-me cansado; os bra\u00e7os ca\u00edam-me, felizmente a casa era perto, na Rua do Senado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A enferma era uma senhora vi\u00fava, t\u00edsica, tinha uma filha de quinze ou dezesseis anos, que estava chorando \u00e0 porta do quarto. A mo\u00e7a n\u00e3o era formosa, talvez nem tivesse gra\u00e7a; os cabelos ca\u00edam despenteados, e as l\u00e1grimas faziam-lhe <em>encarquilhar<\/em> os olhos. N\u00e3o obstante, o total falava e cativava o cora\u00e7\u00e3o. O vig\u00e1rio confessou a doente, deu-lhe a comunh\u00e3o e os santos \u00f3leos. O pranto da mo\u00e7a redobrou tanto que senti os meus olhos molhados e fugi. Vim para perto de uma janela. Pobre criatura! A dor era comunicativa em si mesma; complicada da lembran\u00e7a de minha m\u00e3e, doeu-me mais, e, quando enfim pensei em Capitu, senti um \u00edmpeto de solu\u00e7ar tamb\u00e9m, enfiei pelo corredor, e ouvi algu\u00e9m dizer-me:<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 &#8211; N\u00e3o chore assim!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0A imagem de Capitu ia comigo, e a minha imagina\u00e7\u00e3o, assim como lhe atribu\u00edra l\u00e1grimas, h\u00e1 pouco, assim lhe encheu a boca de riso agora; vi-a escrever no muro, falar-me, andar \u00e0 volta, com os bra\u00e7os o ar; ouvi distintamente o meu nome, de uma do\u00e7ura que me embriagou, e a voz dela. As tochas acesas, t\u00e3o l\u00fagubres na ocasi\u00e3o, tinham-me ares de um lustre nupcial&#8230; Que era lustre nupcial? N\u00e3o sei; era alguma coisa contr\u00e1ria \u00e0 morte, e n\u00e3o vejo outra mais que bodas. Esta nova sensa\u00e7\u00e3o me dominou tanto que Jos\u00e9 Dias veio a mim, e me disse ao ouvido, em voz baixa:<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 &#8211; N\u00e3o ria assim!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 Fiquei s\u00e9rio depressa. Era o momento da sa\u00edda. Peguei da minha vara; e, como j\u00e1 conhecia a dist\u00e2ncia, e agora volt\u00e1vamos para a igreja, o que fazia a dist\u00e2ncia menor, &#8211; o peso da vara era mui pequeno. Demais, o sol c\u00e1 fora, a anima\u00e7\u00e3o da rua, os rapazes da minha idade que me fitavam cheios de inveja, as devotas que chegavam \u00e0s janelas ou entravam nos corredores e se ajoelhavam \u00e0 nossa passagem, tudo me enchia a alma de <em>lepidez<\/em> nova.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 P\u00e1dua, ao contr\u00e1rio, ia mais humilhado. Apesar de substitu\u00eddo por mim, n\u00e3o acabava de se consolar da tocha, da miser\u00e1vel tocha. E contudo havia outros que tamb\u00e9m traziam tocha, e apenas mostravam a compostura do ato; n\u00e3o iam <em>garridos<\/em>, mas tamb\u00e9m n\u00e3o iam tristes. Via-se que caminhavam com honra.<\/p>\n<p>\u00a0______________________________________<\/p>\n<p>Notas explicativas:<\/p>\n<ol>\n<li><strong>Igreja de Santo Antonio dos Pobres &#8211;<\/strong> teve humilde origem junto \u00e0 irmandade do mesmo santo, em agosto de 1807, na Rua dos Inv\u00e1lidos. A igreja tomou grande incremento quando da constru\u00e7\u00e3o do novo edif\u00edcio. \u00c9 hoje matriz e uma das mais visitadas do Rio de Janeiro.<\/li>\n<li><strong>Cib\u00f3rio \u2013<\/strong> \u00e9 o vaso sagrado onde se guardam as h\u00f3stias para a comunh\u00e3o dos fi\u00e9is.<\/li>\n<li><strong>Hissope \u2013<\/strong> \u00e9 um pequeno instrumento composto de uma bola de madeira ou met\u00e1lica com orif\u00edcios e com um cabo, pelos quais passam sedas e que servem para fazer aspers\u00f5es.<\/li>\n<\/ol>\n<p>______________________________________________________________________<\/p>\n<ol>\n<li>Procure no dicion\u00e1rio o significado das seguintes palavras que aparecem nesse texto: \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0a) pr\u00e9stito \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0b) encarquilhar \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0c) lepidez \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0d) garridos<\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"2\">\n<li>Jos\u00e9 Dias decidiu \u201cacompanhar o Sant\u00edssimo\u201d e levar Bentinho com ele. Explique o que \u00e9 \u201cacompanhar o Sant\u00edssimo\u201d.<\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"3\">\n<li>No cap\u00edtulo 26 desta obra (Dom Casmurro) Jos\u00e9 Dias comprometeu-se a ajudar Bentinho a n\u00e3o ir para o semin\u00e1rio. Entretanto, neste cap\u00edtulo 30, Jos\u00e9 Dias afirmou que ele era um \u201cjovem seminarista\u201d. Explique o porqu\u00ea dessa atitude contradit\u00f3ria.<\/li>\n<\/ol>\n<p>________________________________________________<\/p>\n<p>Gabarito<\/p>\n<ol>\n<li>a) prociss\u00e3o\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 b) enrrugar, encher de rugas\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 c) alegria\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 d) alegres<\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"2\">\n<li>Era um grupo de pessoas (fi\u00e9is) da Igreja Cat\u00f3lica que acompanhavam o padre que ia levar a extrema-un\u00e7\u00e3o \u00e0 algu\u00e9m que estava \u00e0 beira da morte. No s\u00e9culo XIX isso era feito \u00e0 p\u00e9, como todo o aparato que \u00e9 descrito no texto.<\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"3\">\n<li>Jos\u00e9 Dias n\u00e3o gostava de ser contrariado, principalmente por pessoas que ele julgava inferior, como o sr. P\u00e1dua. Por isso, para mostrar que Bentinho tinha o direito de ficar em lugar de destaque na prociss\u00e3o, valeu-se da afirmativa de que ele era um \u201cjovem seminarista\u201d, o que deixou Bentinho zangado, pois tal situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era verdadeira.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DOM CASMURRO \u2013 Cap\u00edtulo 30 \u00a0O 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