{"id":132,"date":"2010-08-26T15:06:07","date_gmt":"2010-08-26T19:06:07","guid":{"rendered":"http:\/\/juniormax.com.br\/site_portuguesirado\/?p=132"},"modified":"2010-08-26T15:06:07","modified_gmt":"2010-08-26T19:06:07","slug":"dom-casmurro-capitulo-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portuguesirado.com.br\/?p=132","title":{"rendered":"DOM CASMURRO &#8211; Cap\u00edtulo 2"},"content":{"rendered":"<p>DOM CASMURRO \u2013 Machado de Assis<\/p>\n<p>Machado de Assis nasceu em 1839 e morreu em 1908, no Rio de Janeiro. Viveu sob o longo reinado de D. Pedro II, assistiu \u00e0 Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica e testemunhou os primeiros anos do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>\u201cDom Casmurro\u201d foi publicado em 1899. Faz parte do movimento liter\u00e1rio conhecido como Realismo. Uma das caracter\u00edsticas desse movimento liter\u00e1rio \u00e9 a an\u00e1lise psicol\u00f3gica dos personagens. A linguagem correta e cl\u00e1ssica, as frases curtas e a conversa com o leitor caracterizam os textos realistas.<\/p>\n<p><!--more-->CAP\u00cdTULO II &#8211; Do Livro<\/p>\n<p>Agora que expliquei o t\u00edtulo, passo a escrever o livro. Antes disso, por\u00e9m, digamos os motivos que me p\u00f5em a pena na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Vivo s\u00f3, com um criado. A casa em que moro \u00e9 pr\u00f3pria; fi-la construir de prop\u00f3sito, levado de um desejo t\u00e3o particular que me vexa imprimi-lo, mas v\u00e1 l\u00e1.<\/p>\n<p>Um dia, h\u00e1 bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Matacavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indica\u00e7\u00f5es que lhes fiz: \u00e9 o mesmo pr\u00e9dio assobradado, tr\u00eas janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas <em>alcovas<\/em> e salas. Na principal destas, a pintura do teto e das paredes \u00e9 mais ou menos igual, umas grinaldas de flores mi\u00fadas e grandes p\u00e1ssaros que as tomam no bico, de espa\u00e7o a espa\u00e7o. Nos quatro cantos do teto as figuras das esta\u00e7\u00f5es, e ao centro das paredes os medalh\u00f5es de C\u00e9sar\u2474, Augusto\u2475, Nero\u2476 e Massinissa\u2477, com os nomes por baixo&#8230; N\u00e3o alcan\u00e7o a raz\u00e3o de tais personagens. Quando fomos para a casa de Matacavalos, j\u00e1 ela estava assim decorada; vinha do dec\u00eanio anterior. Naturalmente era gosto do tempo meter sabor cl\u00e1ssico e figuras antigas em pinturas americanas. O mais \u00e9 tamb\u00e9m an\u00e1logo e parecido. Tenho <em>chacarinha,<\/em> flores, legume, uma <em>casuarina<\/em>, um po\u00e7o e lavadouro. Uso lou\u00e7a velha e mob\u00edlia velha. Enfim, agora, como outrora, h\u00e1 aqui o mesmo contraste da vida interior, que \u00e9 pacata, com a exterior, que \u00e9 ruidosa.<\/p>\n<p>O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolesc\u00eancia. Pois, senhor, n\u00e3o consegui recompor nem o que foi, nem o que fui. Em tudo, se o rosto \u00e9 igual, a fisionomia \u00e9 diferente. Se s\u00f3 me faltassem os outros, v\u00e1; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna \u00e9 tudo. O que aqui est\u00e1 \u00e9, mal comparado, semelhante \u00e0 pintura que se p\u00f5e na barba e nos cabelos, e que apenas conserva o h\u00e1bito externo, como se diz nas aut\u00f3psias; o interno n\u00e3o aguenta tinta. Uma certid\u00e3o que me desse vinte anos de idade poderia enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas n\u00e3o a mim. Os amigos que me restam s\u00e3o de data recente; todos os antigos <em>foram estudar a geologia dos campos santos<\/em>. Quanto \u00e0s amigas, algumas datam de quinze anos, outras de menos, e quase todas creem na mocidade. Duas ou tr\u00eas fariam crer nela aos outros, mas a l\u00edngua que falam obriga muita vez a consultar os dicion\u00e1rios, e tal frequ\u00eancia \u00e9 cansativa.<\/p>\n<p>Entretanto, vida diferente n\u00e3o quer dizer vida pior; \u00e9 outra coisa. A certos respeitos, aquela vida aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas \u00e9 tamb\u00e9m exato que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de mem\u00f3ria, conservo alguma recorda\u00e7\u00e3o doce e feiticeira. Em verdade, pouco apare\u00e7o e menos falo. Distra\u00e7\u00f5es raras. O mais do tempo \u00e9 gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e n\u00e3o durmo mal.<\/p>\n<p>Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por <em>exaurir<\/em>-me tamb\u00e9m. Quis variar, e lembrou-me escrever um livro. Jurisprud\u00eancia, Filosofia e Pol\u00edtica acudiram-me, mas n\u00e3o me acudiram as for\u00e7as necess\u00e1rias. Depois, pensei em fazer uma Hist\u00f3ria dos Sub\u00farbios, menos seca que as mem\u00f3rias do padre Lu\u00eds Gon\u00e7alves dos Santos, relativas \u00e0 cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas, como preliminares, tudo \u00e1rido e longo. Foi ent\u00e3o que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, uma vez que eles n\u00e3o alcan\u00e7avam reconstituir-me os tempos idos, pegasse da pena e contasse alguns. Talvez a narra\u00e7\u00e3o me desse a ilus\u00e3o, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, n\u00e3o o do trem, mas o do Fausto: \u201cA\u00ed vindes outra vez, inquietas sombras!&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Fiquei t\u00e3o alegre com esta id\u00e9ia, que ainda agora me treme a pena na m\u00e3o. Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande C\u00e9sar, que me incitas a fazer os meus coment\u00e1rios, agrade\u00e7o-vos o conselho, e vou deitar ao papel as <em>reminisc\u00eancias<\/em> que me vierem vindo. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a m\u00e3o para alguma obra de maior tomo.<\/p>\n<p>Eia, comecemos a evoca\u00e7\u00e3o por uma c\u00e9lebre tarde de novembro, que nunca me esqueceu. Tive outras muitas, melhores e piores, mas aquela nunca se me apagou do esp\u00edrito. \u00c9 o que vais entender, lendo.<\/p>\n<p>____________________________________________<\/p>\n<p>NOTAS:<\/p>\n<p>1. J\u00falio C\u00e9sar (101 a 44 a.C.) ditador romano, assassinado em consequ\u00eancia de uma conspira\u00e7\u00e3o dentro do Senado romano.<\/p>\n<p>2. C\u00e9sar Ot\u00e1vio Augusto (63 a.C. a 14 d.C.), sobrinho de J\u00falio C\u00e9sar e seu herdeiro ao trono de Roma, como imperador.<\/p>\n<p>3. L\u00facio Dom\u00edcio Nero Cl\u00e1udio (37 a 68 d.C.), imperador romano que governou Roma de 54 a 68 d.C., conhecido por suas atrocidades contra os crist\u00e3os.<\/p>\n<p>4. Massinissa (238 a 148 a.C.) rei da Num\u00eddia, norte da \u00c1frica, aliado dos romanos.<\/p>\n<p>______________________________________________<\/p>\n<p>Vocabul\u00e1rio:<\/p>\n<p>Alcovas \u2013 quartos de dormir<\/p>\n<p>Chacarinha \u2013 s\u00edtio ou ch\u00e1cara pequena<\/p>\n<p>Casuarina \u2013 tipo de \u00e1rvore ornamental<\/p>\n<p>Foram estudar a geologia dos campo santos \u2013 morreram<\/p>\n<p>Exaurir \u2013 acabar com as for\u00e7as f\u00edsicas ou mentais<\/p>\n<p>Reminisc\u00eancias \u2013 lembran\u00e7as do passado<\/p>\n<p>________________________________________________________<\/p>\n<p>Analisando o texto.<\/p>\n<p>1. Qual o assunto do cap\u00edtulo?<\/p>\n<p>2. Que motivos levaram o narrador a escrever o livro?<\/p>\n<p>3. O narrador descreve um lugar. Que lugar \u00e9 esse?<\/p>\n<p>4. O narrador come\u00e7a a colocar no papel as suas reminisc\u00eancias. Como faz isso?<\/p>\n<p>5. A rua citada no texto, atualmente, \u00e9 chamada de Rua do Riachuelo, localizada no centro da cidade do Rio de Janeiro. Machado de Assis localiza sua narrativa nesse espa\u00e7o urbano. Acesse o site maps.google.com.br e localize no mapa da cidade do Rio de Janeiro a regi\u00e3o citada no texto: Engenho Novo e Petr\u00f3polis; ou se voc\u00ea mora na cidade do Rio de Janeiro, fa\u00e7a um roteiro de visita aos lugares citados nos cap\u00edtulos 1 e 2 de Dom Casmurro.<\/p>\n<p>____________________________________________________________<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\">GABARITO<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\">1. Explica\u00e7\u00e3o dos motivos que levaram o narrador a escrever o livro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\">2. a) o isolamento e a monotonia em que vivia \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0b) o desejo de reviver os dias da adolesc\u00eancia, atrav\u00e9s das lembran\u00e7as.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\">3.\u00a0A casa onde ele cresceu localizada na Rua de Matacavalos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\">4. Descrevendo a casa da sua inf\u00e2ncia e a casa onde mora, depois de velho.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DOM CASMURRO \u2013 Machado de Assis Machado de Assis nasceu em 1839 e morreu em 1908, no Rio de Janeiro. Viveu sob o longo reinado de D. Pedro II, assistiu \u00e0 Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica e testemunhou os primeiros anos do s\u00e9culo XX. \u201cDom Casmurro\u201d foi publicado em 1899. 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