{"id":169,"date":"2010-11-03T17:32:57","date_gmt":"2010-11-03T21:32:57","guid":{"rendered":"http:\/\/juniormax.com.br\/site_portuguesirado\/?p=169"},"modified":"2010-11-03T17:32:57","modified_gmt":"2010-11-03T21:32:57","slug":"dom-casmurro-capitulo-5","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portuguesirado.com.br\/?p=169","title":{"rendered":"DOM CASMURRO &#8211; Cap\u00edtulo 5"},"content":{"rendered":"<p>Dom Casmurro \u2013 Cap\u00edtulo 5<\/p>\n<p>Propondo-se a retratar fielmente o personagem, o escritor realista tanto procura representar o seu mundo interior, analisando o seu car\u00e1ter, motiva\u00e7\u00f5es e interesses, como procura situ\u00e1-lo em seu contexto social. \u00c9 o que Machado de Assis faz com o personagem Jos\u00e9 Dias, nos cap\u00edtulos 4 e 5. \u00c9 a <strong>an\u00e1lise psico-social do personagem.<\/strong><\/p>\n<p><!--more--> O agregado<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem sempre ia naquele passo vagaroso e r\u00edgido. Tamb\u00e9m se descompunha em acionados, era muita vez r\u00e1pido e <strong>l\u00e9pido<\/strong> nos movimentos, t\u00e3o natural nesta como naquela maneira. Outrossim, ria largo, se era preciso, de um grande riso sem vontade, mas comunicativo, a tal ponto as bochechas, os dentes, os olhos, toda a cara, toda a pessoa, todo o mundo pareciam rir nele. Nos graves, grav\u00edssimo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era nosso agregado desde muitos anos; meu pai ainda estava na antiga fazenda de Itagua\u00ed, e eu acabava de nascer. Um dia apareceu ali vendendo-se por m\u00e9dico <strong>homeopata<\/strong>; levava um <em>Manual<\/em> e uma <strong>botica.<\/strong> Havia ent\u00e3o um <strong>anda\u00e7o de febres<\/strong>; Jos\u00e9 Dias curou um feitor e uma escrava, e n\u00e3o quis receber nenhuma remunera\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o meu pai prop\u00f4s-lhe ficar ali vivendo com pequeno <strong>ordenado<\/strong>. Jos\u00e9 Dias recusou, dizendo que era justo levar a sa\u00fade \u00e0 casa de sap\u00e9 do pobre.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quem lhe impede que v\u00e1 a outras partes? V\u00e1 aonde quiser, mas fique morando conosco.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Voltarei daqui a tr\u00eas meses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltou dali a duas semanas, aceitou casa e comida sem outro <strong>estip\u00eandio<\/strong>, salvo o que quisessem dar por festas. Quando meu pai foi eleito deputado e veio para o Rio de Janeiro com a fam\u00edlia, ele veio tamb\u00e9m, e teve o seu quarto ao fundo da ch\u00e1cara. Um dia, reinando outra vez febres em Itagua\u00ed, disse-lhe meu pai que fosse ver a nossa escravatura. Jos\u00e9 Dias deixou-se estar calado, suspirou e acabou confessando que n\u00e3o era m\u00e9dico. Tomara este t\u00edtulo para ajudar a propaganda da nova escola, e n\u00e3o o fez sem estudar muito e muito; mas a consci\u00eancia n\u00e3o lhe permitia aceitar mais doentes.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mas, voc\u00ea curou das outras vezes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00a0 \u00a0 \u00a0Creio que sim; o mais acertado, por\u00e9m, \u00e9 dizer que foram os rem\u00e9dios indicados nos livros. Eles, sim, eles, abaixo de Deus. Eu era um charlat\u00e3o&#8230; N\u00e3o negue; os motivos do meu procedimento podiam ser e eram dignos; a homeopatia \u00e9 a verdade, e para servir \u00e0 verdade, menti; mas \u00e9 tempo de restabelecer tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o foi despedido, como pedia ent\u00e3o; meu pai j\u00e1 n\u00e3o podia dispens\u00e1-lo. Tinha o dom de se fazer aceito e necess\u00e1rio; dava-se por falta dele, como de pessoa da fam\u00edlia. Quando meu pai morreu, a dor que o pungiu foi enorme, disseram-me, n\u00e3o me lembra. Minha m\u00e3e ficou-lhe grata, e n\u00e3o consentiu que ele deixasse o quarto da ch\u00e1cara; ao s\u00e9timo dia, depois da missa, ele foi despedir-se dela.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Fique, Jos\u00e9 Dias.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Obede\u00e7o, minha senhora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Teve um pequeno legado no testamento, uma <strong>ap\u00f3lice<\/strong> e quatro palavras de louvor. Copiou as palavras, encaixilhou-as e pendurou-as no quarto, por cima da cama. \u201cEsta \u00e9 a melhor ap\u00f3lice\u201d, dizia ele muita vez. Com o tempo, adquiriu certa autoridade na fam\u00edlia, certa audi\u00eancia, ao menos; n\u00e3o abusava, e sabia opinar obedecendo. Ao cabo, era amigo, n\u00e3o direi \u00f3timo, mas nem tudo \u00e9 \u00f3timo neste mundo. E n\u00e3o lhe suponhas alma subalterna; as cortesias que fizesse vinham antes do c\u00e1lculo que da \u00edndole. A roupa durava-lhe muito; ao contr\u00e1rio das pessoas que enxovalham depressa o vestido novo, ele trazia o velho escovado e liso, cerzido, abotoado, de uma eleg\u00e2ncia pobre e modesta. Era lido, posto que de atropelo, o bastante para divertir ao ser\u00e3o e \u00e0 sobremesa, ou explicar algum fen\u00f4meno, falar dos efeitos do calor e do frio, dos p\u00f3los e de <strong>Robespierre.<\/strong> Contava muita vez uma viagem que fizera \u00e0 Europa, e confessava que a n\u00e3o sermos n\u00f3s, j\u00e1 teria voltado para l\u00e1; tinha amigos em Lisboa, mas a nossa fam\u00edlia, dizia ele, abaixo de Deus, era tudo.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Abaixo ou acima? perguntou-lhe tio Cosme um dia.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Abaixo, repetiu Jos\u00e9 Dias cheio de venera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E minha m\u00e3e, que era religiosa, gostou de ver que ele punha Deus no devido lugar, e sorriu aprovando. Jos\u00e9 Dias agradeceu de cabe\u00e7a. Minha m\u00e3e dava-lhe de quando em quando alguns cobres. Tio Cosme, que era advogado, confiava-lhe a c\u00f3pia de pap\u00e9is de autos.<\/p>\n<p>VOCABUL\u00c1RIO<\/p>\n<p>L\u00e9pido \u2013 ligeiro, \u00e1gil<\/p>\n<p>Homeopata \u2013 m\u00e9dico que trata as doen\u00e7as com subst\u00e2ncias em doses muito pequenas<\/p>\n<p>Botica \u2013 farm\u00e1cia<\/p>\n<p>Anda\u00e7o de febres \u2013 epidemia de febres<\/p>\n<p>Ordenado \u2013 sal\u00e1rio, remunera\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Estip\u00eandio \u2013 pagamento, remunera\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Ap\u00f3lice \u2013 documento que formaliza contrato de seguro<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Robespierre \u2013 Maximiliano Francisco Isidoro de Robespierre (1758-1794), era advogado. Exerceu grande dom\u00ednio pol\u00edtico durante a crise decorrente da queda da monarquia por ocasi\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. Acabou morrendo na guilhotina, para onde tinha mandado muitas pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_______________________________________________<\/p>\n<p>De acordo com Bentinho, Jos\u00e9 Dias:<\/p>\n<p>a. (\u00a0\u00a0 ) fingiu ser m\u00e9dico para ganhar dinheiro<\/p>\n<p>b. (\u00a0 ) era um calculista. Todas as suas a\u00e7\u00f5es eram bem articuladas para redundar em benef\u00edcios para si.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Casmurro \u2013 Cap\u00edtulo 5 Propondo-se a retratar fielmente o personagem, o escritor realista tanto procura representar o seu mundo interior, analisando o seu car\u00e1ter, motiva\u00e7\u00f5es e interesses, como procura situ\u00e1-lo em seu contexto social. \u00c9 o que Machado de Assis faz com o personagem Jos\u00e9 Dias, nos cap\u00edtulos 4 e 5. \u00c9 a an\u00e1lise 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