{"id":173,"date":"2010-12-30T07:57:41","date_gmt":"2010-12-30T11:57:41","guid":{"rendered":"http:\/\/juniormax.com.br\/site_portuguesirado\/?p=173"},"modified":"2010-12-30T07:57:41","modified_gmt":"2010-12-30T11:57:41","slug":"dom-casmurro-capitulo-6","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portuguesirado.com.br\/?p=173","title":{"rendered":"DOM CASMURRO &#8211; Cap\u00edtulo 6"},"content":{"rendered":"<p>DOM CASMURRO \u2013 CAP\u00cdTULO 6<\/p>\n<p>Propondo-se a retratar fielmente o personagem, o escritor realista tanto procura representar o seu mundo interior, analisando o seu car\u00e1ter, motiva\u00e7\u00f5es e interesses, como procura situ\u00e1-lo em seu contexto social. \u00c9 o que Machado de Assis faz com o personagem Tio Cosme, neste cap\u00edtulo. \u00c9 a <strong>an\u00e1lise psico-social do personagem.<\/strong><\/p>\n<p><!--more-->TIO COSME<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tio Cosme vivia com minha m\u00e3e, desde que ela enviuvou. J\u00e1 ent\u00e3o era vi\u00favo, como prima Justina; era a casa dos tr\u00eas vi\u00favos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fortuna troca muita vez as m\u00e3os \u00e0 natureza. Formado para as serenas fun\u00e7\u00f5es do capitalismo, tio Cosme n\u00e3o enriquecia no foro: ia comendo. Tinha o escrit\u00f3rio na antiga Rua das Violas<sup>1<\/sup>, perto do j\u00fari, que era no extinto Aljube<sup>2<\/sup>. Trabalhava no crime. Jos\u00e9 Dias n\u00e3o perdia as defesas orais do tio Cosme. Era quem lhe vestia e despia a toga, com muitos cumprimentos no fim. Em casa, referia os debates. Tio Cosme, por mais modesto que qui-sesse ser, sorria de <strong>persuas\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era gordo e pesado, tinha a respira\u00e7\u00e3o curta e os olhos dorminhocos. Uma das minhas recorda\u00e7\u00f5es mais antigas era v\u00ea-lo montar todas as ma-nh\u00e3s a besta que minha m\u00e3e lhe deu e que o levava ao escrit\u00f3rio. O preto que a tinha ido buscar \u00e0 cocheira, segurava o freio, enquanto ele erguia o p\u00e9 e pousava no estribo; a isto seguia-se um minuto de descanso ou reflex\u00e3o. Depois, dava um impulso, o primeiro, o corpo amea\u00e7ava subir, mas n\u00e3o subia; segundo impulso, igual efeito. Enfim, ap\u00f3s alguns instantes largos, tio Cosme enfeixava todas as for\u00e7as f\u00edsicas e morais, dava o \u00faltimo surto da terra, e desta vez ca\u00eda em cima do selim. Raramente a besta dei-xava de mostrar por um gesto que acabava de receber o mundo. Tio Cosme acomodava as carnes, e a besta partia a trote.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m n\u00e3o <em>me esqueceu<\/em> o que ele me fez uma tarde. Posto que nascido na ro\u00e7a (donde vim com dois anos) e apesar dos costumes do tempo, eu n\u00e3o sabia montar, e tinha medo ao cavalo. Tio Cosme pegou em mim e escanchou-me em cima da besta. Quando me vi no alto (tinha nove anos), sozinho e desamparado, o ch\u00e3o l\u00e1 em baixo, entrei a gritar desesperadamente: \u201cMam\u00e3e! Mam\u00e3e!\u201d Ela acudiu, p\u00e1lida e tr\u00eamula, cuidou que me estivessem matando, apeou-me, afagou-me, enquanto o irm\u00e3o perguntava:<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mana Gl\u00f3ria, pois um tamanh\u00e3o destes tem medo de besta mansa?<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00e3o est\u00e1 acostumado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Deve acostumar-se. Padre que seja, se for vig\u00e1rio na ro\u00e7a, \u00e9 preciso que monte a cavalo; e, aqui mesmo, ainda n\u00e3o sendo padre, se quiser florear como os outros rapazes, e n\u00e3o souber, h\u00e1 de queixar-se de voc\u00ea, mana Gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>&#8211; Pois que se queixe; tenho medo.<\/p>\n<p>&#8211; Medo! Ora, medo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A verdade \u00e9 que eu vim a aprender equita\u00e7\u00e3o mais tarde, menos por gosto que por vergonha de dizer que n\u00e3o sabia montar. \u201cAgora \u00e9 que ele vai namorar deveras\u201d, disseram quando eu comecei as li\u00e7\u00f5es. N\u00e3o se diria o mesmo de tio Cosme. Nele era velho costume e necessidade. J\u00e1 n\u00e3o dava para namoros. Contam que, em rapaz, foi aceito de muitas damas, al\u00e9m de partid\u00e1rio exaltado; mas os anos levaram-lhe o mais do ardor pol\u00edtico e se-xual, e a gordura acabou com o resto de ideias p\u00fablicas e espec\u00edficas. Agora s\u00f3 cumpria as obriga\u00e7\u00f5es do of\u00edcio e sem amor. Nas horas de lazer vivia olhando ou jogava. Uma ou outra vez dizia <strong>pilh\u00e9rias<\/strong>.<\/p>\n<p>_____________________________________________________<\/p>\n<p>Vocabul\u00e1rio<\/p>\n<p><strong>Rua das Violas<\/strong><sup><strong>1<\/strong><\/sup> \u2013 Atual Rua Te\u00f3filo Ot\u00f4ni<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Aljube<\/strong><sup><strong>2<\/strong><\/sup> \u2013 este pr\u00e9dio, no centro da cidade do Rio de Janeiro (hoje demolido)\u00a0foi constru\u00eddo em 1733 como pris\u00e3o para religiosos que cometessem crimes graves. D. Jo\u00e3o VI o transformou em cadeia comum\u00a0(1808). Em 1840, foi usado para abrigar o Tribunal do J\u00fari.<\/p>\n<p><strong>Persuas\u00e3o<\/strong> \u2013 convic\u00e7\u00e3o, certeza.<\/p>\n<p><strong>Pilh\u00e9rias<\/strong> \u2013 anedotas, piadas.<\/p>\n<p>________________________________________________________<\/p>\n<ol>\n<li>O cap\u00edtulo descreve um personagem do livro. Quem \u00e9?<\/li>\n<li>Fa\u00e7a um resumo da descri\u00e7\u00e3o do personagem contendo:<\/li>\n<\/ol>\n<p>a) rela\u00e7\u00e3o de parentesco entre o personagem e as outras pessoas citadas no cap\u00edtulo, inclusive com o narrador;<\/p>\n<p>b) atividade profissional;<\/p>\n<p>c) situa\u00e7\u00e3o social, financeira e familiar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DOM CASMURRO \u2013 CAP\u00cdTULO 6 Propondo-se a retratar fielmente o personagem, o escritor realista tanto procura representar o seu mundo interior, analisando o seu car\u00e1ter, motiva\u00e7\u00f5es e interesses, como procura situ\u00e1-lo em seu contexto social. \u00c9 o que Machado de Assis faz com o personagem Tio Cosme, neste cap\u00edtulo. \u00c9 a an\u00e1lise psico-social do 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