{"id":347,"date":"2011-04-28T17:44:30","date_gmt":"2011-04-28T21:44:30","guid":{"rendered":"http:\/\/juniormax.com.br\/site_portuguesirado\/?p=347"},"modified":"2011-04-28T17:44:30","modified_gmt":"2011-04-28T21:44:30","slug":"dom-casmurro-capitulo-12","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portuguesirado.com.br\/?p=347","title":{"rendered":"DOM CASMURRO &#8211; Cap\u00edtulo 12"},"content":{"rendered":"<p>Dom Casmurro \u2013 Cap\u00edtulo 12<\/p>\n<p>Os poetas sempre procuram traduzir, atrav\u00e9s das palavras, o que o ser humano sente quando ama algu\u00e9m. Quem nunca sentiu o que Machado de Assis descreve neste cap\u00edtulo? Principalmente quando era adolescente, como no caso de Bentinho e Capitu. Prezado leitor, vale a pena recordar seus sentimentos e emo\u00e7\u00f5es ao ler este relato.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><!--more-->NA VARANDA<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parei na varanda; ia tonto, atordoado, as pernas bambas, o cora\u00e7\u00e3o parecendo querer sair-me pela boca fora. N\u00e3o me atrevia a descer \u00e0 ch\u00e1cara, e passar ao quintal vizinho. Comecei a andar de um lado para outro, estacando para amparar-me, e andava outra vez e estacava. Vozes confusas repetiam o discurso do Jos\u00e9 Dias:<\/p>\n<p>\u201cSempre juntos&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cEm segredinhos&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cSe eles pegam de namoro&#8230;\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tijolos que pisei e repisei naquela tarde, colunas amareladas que me passastes \u00e0 direita ou \u00e0 esquerda, segundo eu ia ou vinha, em v\u00f3s me ficou a melhor parte da crise, a sensa\u00e7\u00e3o de um gozo novo, que me envolvia em mim mesmo, e logo me dispersava, e me trazia arrepios, e me derramava n\u00e3o sei que b\u00e1lsamo interior. \u00c0s vezes dava por mim, sorrindo, um ar de riso de satisfa\u00e7\u00e3o, que desmentia a abomina\u00e7\u00e3o do meu pecado. E as vozes repetiam-se confusas:<\/p>\n<p>\u201cEm segredinhos&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cSempre juntos &#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cSe eles pegam de namoro&#8230;\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um coqueiro, vendo-me inquieto e adivinhando a causa, murmurou de cima de si que n\u00e3o era feio que os meninos de quinze anos andassem nos cantos com as meninas de quatorze; ao contr\u00e1rio, os adolescentes daquela idade n\u00e3o tinham outro of\u00edcio, nem os cantos outras utilidade. Era um coqueiro velho, e eu cria nos coqueiros velhos, mais ainda que nos velhos livros. P\u00e1ssaros, borboletas, uma cigarra que ensaiava o estio, toda a gente viva do ar era da mesma opini\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com que ent\u00e3o em amava Capitu, e Capitu a mim?\u00a0 Realmente, andava cosido \u00e0s saias dela, mas n\u00e3o me ocorria nada entre n\u00f3s que fosse deveras secreto. Antes dela ir para o col\u00e9gio, eram tudo travessuras de crian\u00e7a; depois que saiu do col\u00e9gio, \u00e9 certo que n\u00e3o restabelecemos logo a antiga intimidade, mas esta voltou pouco a pouco, e no \u00faltimo ano era completa. Entretanto, a mat\u00e9ria das nossas conversa\u00e7\u00f5es era a de sempre. Capitu chamava-me \u00e0s vezes bonito, mocet\u00e3o, uma flor; outras pegava-me nas m\u00e3os para contar-me os dedos. E comecei a recordar esses e outros gestos e palavras, o prazer que sentia quando ela me passava a m\u00e3o pelos cabelos, dizendo que os achava lind\u00edssimos. Eu, sem fazer o mesmo aos dela, dizia que os dela eram muito mais lindos que os meus. Ent\u00e3o Capitu abanava a cabe\u00e7a com uma grande express\u00e3o de desengano e melancolia, tanto mais de espantar quanto que tinha os cabelos realmente admir\u00e1veis; mas eu retorquia chamando-lhe maluca. Quando me perguntava se sonhara com ela na v\u00e9spera, e eu dizia que n\u00e3o, ouvia-lhe contar que sonhara comigo, e eram aventuras extraordin\u00e1rias, que sub\u00edamos ao Corcovado pelo ar, que dan\u00e7\u00e1vamos na lua, ou ent\u00e3o que os anjos vinham perguntar-nos pelos nomes, a fim de os dar a outros anjos que acabavam de nascer. Em todos esses sonhos and\u00e1vamos unidinhos. Os que eu tinha com ela n\u00e3o eram assim, apenas reproduziam a nossa familiaridade, e muita vez n\u00e3o passavam da simples repeti\u00e7\u00e3o do dia, alguma frase, algum gesto. Tamb\u00e9m eu os contava. Capitu um dia notou a diferen\u00e7a, dizendo que os dela eram mais bonitos que os meus; eu, depois de certa hesita\u00e7\u00e3o, disse-lhe que eram como a pessoa que sonhava&#8230; Fez-se cor de pitanga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois, francamente, s\u00f3 agora entendia a emo\u00e7\u00e3o que me davam essas e outras confid\u00eancias. A emo\u00e7\u00e3o era doce e nova, mas a causa dela fugia-me, sem que eu a buscasse nem suspeitasse. Os sil\u00eancios dos \u00faltimos dias, que me n\u00e3o descobriam nada, agora os sentia como sinais de alguma coisa, e assim as meias-palavras, as perguntas curiosas, as respostas vagas, os cuidados, o gosto de recordar a inf\u00e2ncia. Tamb\u00e9m adverti que era fen\u00f4meno\u00a0 recente acordar com o pensamento em Capitu, e escut\u00e1-la de mem\u00f3ria, e estremecer quando lhe ouvia os passos. Se se falava nela, em minha casa, prestava mais aten\u00e7\u00e3o que dantes, e, segundo era louvor ou cr\u00edtica, assim me trazia gosto ou desgosto mais intensos que outrora, quando \u00e9ramos somente companheiros de travessura. Cheguei a pensar nela durante as missas daquele m\u00eas, com intervalos, \u00e9 verdade, mas com exclusivismo tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo isto me era agora apresentado pela boca de Jos\u00e9 Dias, que me denunciara a mim mesmo, e a quem eu perdoava tudo, o mal que dissera, o mal que fizera, e o que pudesse vir de um e de outro. Naquele instante, a eterna Verdade n\u00e3o valeria mais que ele, nem a eterna Bondade, nem as demais Virtudes eternas. Eu amava Capitu! Capitu amava-me! E as minhas pernas andavam, desandavam, estacavam, tr\u00eamulas e crentes de abarcar o mundo. Esse primeiro palpitar da seiva, essa revela\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia a si pr\u00f3pria, nunca mais me esqueceu, nem achei que lhe fosse compar\u00e1vel qualquer outra sensa\u00e7\u00e3o da mesma esp\u00e9cie. Naturalmente por ser minha. Naturalmente tamb\u00e9m por ser a primeira.<\/p>\n<p>_______________________________________________________<\/p>\n<p>Neste cap\u00edtulo, Bentinho passa a recordar certas situa\u00e7\u00f5es que o levam a concluir que ama Capitu. Identifique, pelo menos tr\u00eas trechos do cap\u00edtulo, que informam ao leitor essa conclus\u00e3o.<\/p>\n<p>_________________________________________________________<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\">Gabarito<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ff0000;\">O cap\u00edtulo\u00a0 12 todo \u00e9 composto de trechos e frases que informam ao leitor que Bentinho descobre que ama Capitu. S\u00f3 que ele n\u00e3o sabia disso at\u00e9 ouvir as insinua\u00e7\u00f5es de Jos\u00e9 Dias (contidas no cap\u00edtulo 3).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\">Entre os trechos existentes podemos citar alguns:<\/span><\/p>\n<ol>\n<li><span style=\"color: #ff0000;\">\u201c&#8230; a sensa\u00e7\u00e3o de um gozo novo, que me envolvia em mim mesmo, e logo me dispersava, e me trazia arrepios, e me derramava n\u00e3o sei que b\u00e1lsamo interior.\u201d<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #ff0000;\">\u201c&#8230; o prazer que sentia quando ela me passava a m\u00e3o pelos cabelos, dizendo que os achava lind\u00edssimos.\u201d<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #ff0000;\">\u201cPois, francamente, s\u00f3 agora entendia a emo\u00e7\u00e3o que me davam essa e outras confid\u00eancias. A emo\u00e7\u00e3o era doce e nova, mas a causa dela fugia-me sem que eu a buscasse nem suspeitasse.&#8221;<\/span><\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Casmurro \u2013 Cap\u00edtulo 12 Os poetas sempre procuram traduzir, atrav\u00e9s das palavras, o que o ser humano sente quando ama algu\u00e9m. Quem nunca sentiu o que Machado de Assis descreve neste cap\u00edtulo? Principalmente quando era adolescente, como no caso de Bentinho e Capitu. 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