{"id":532,"date":"2012-06-30T11:55:43","date_gmt":"2012-06-30T15:55:43","guid":{"rendered":"http:\/\/juniormax.com.br\/site_portuguesirado\/?p=532"},"modified":"2012-06-30T11:55:43","modified_gmt":"2012-06-30T15:55:43","slug":"dom-casmurro-capitulos-16-e-17","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portuguesirado.com.br\/?p=532","title":{"rendered":"DOM CASMURRO &#8211; Cap\u00edtulos 16 e 17"},"content":{"rendered":"<p>DOM CASMURRO \u2013 Cap\u00edtulos 16<\/p>\n<p>Nestes Cap\u00edtulos, Bentinho passa a dar informa\u00e7\u00f5es sobre seu futuro sogro.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><!--more--> O administrador interino<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">P\u00e1dua era empregado em reparti\u00e7\u00e3o dependente do Minist\u00e9rio da Guerra. N\u00e3o ganhava muito, mas a mulher gastava pouco, e a vida era barata. Demais, a casa em que morava, assobradada como a nossa, posto que menor, era propriedade dele. Comprou-a com a sorte grande que lhe saiu num bilhete de loteria, dez contos de r\u00e9is. A primeira ideia do P\u00e1dua, quando lhe saiu o pr\u00eamio, foi comprar um cavalo do Cabo<sup>1<\/sup>, um adere\u00e7o de brilhantes para a mulher, uma sepultura perp\u00e9tua para a fam\u00edlia, mandar vir da Europa alguns p\u00e1ssaros, etc.; mas a mulher, esta D. Fortunata que ali est\u00e1 \u00e0 porta dos fundos da casa, em p\u00e9, falando \u00e0 filha, alta, forte, cheia como a filha, a mesma cabe\u00e7a, os mesmos olhos claros, a mulher \u00e9 que lhe disse que o melhor era comprar a casa e guardar o que sobrasse para acudir \u00e0s mol\u00e9stias grandes. P\u00e1dua hesitou muito; afinal, teve de ceder aos conselhos de minha m\u00e3e, a quem D. Fortunata pediu aux\u00edlio. N\u00e3o foi s\u00f3 nessa ocasi\u00e3o que minha m\u00e3e lhes valeu; um dia chegou a salvar a vida do P\u00e1dua. Escutai; a anedota \u00e9 curta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O administrador da reparti\u00e7\u00e3o em que P\u00e1dua trabalhava teve de ir ao Norte, em comiss\u00e3o. P\u00e1dua, ou por ordem regulamentar, ou por especial designa\u00e7\u00e3o, ficou substituindo o administrador com os respectivos honor\u00e1rios. Esta mudan\u00e7a de fortuna trouxe-lhe certa vertigem; era antes dos dez contos. N\u00e3o se contentou em reformar a roupa e a copa, atirou-se \u00e0s despesas sup\u00e9rfluas, deu joias \u00e0 mulher, nos dias de festas matava um leit\u00e3o, era visto em teatros, chegou aos sapatos de verniz. Viveu assim vinte e dois meses na suposi\u00e7\u00e3o de uma eterna interinidade. Uma tarde entrou em nossa casa, aflito e desvairado, ia perder o lugar, porque chegara o efetivo naquela manh\u00e3. Pediu \u00e0 minha m\u00e3e que velasse pelas infelizes que deixava; n\u00e3o podia sofrer a desgra\u00e7a, matava-se. Minha m\u00e3e falou-lhe com bondade, mas ele n\u00e3o atendia a coisa nenhuma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o, minha senhora, n\u00e3o consentirei em tal vergonha! Fazer descer a fam\u00edlia, tornar atr\u00e1s&#8230; J\u00e1 disse, mato-me! N\u00e3o hei de confessar \u00e0 minha gente esta mis\u00e9ria. E os outros? Que dir\u00e3o os vizinhos? E os amigos? E o p\u00fablico?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Que p\u00fablico, Sr. P\u00e1dua? Deixe-se disse; seja homem. Lembre-se que sua mulher n\u00e3o tem outra pessoa&#8230; e que h\u00e1 de fazer? Pois um homem&#8230; Seja homem, ande.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">P\u00e1dua enxugou os olhos e foi para casa, onde viveu prostrado alguns dias, mudo, fechado na alcova, ou ent\u00e3o no quintal, ao p\u00e9 do po\u00e7o, como se a ideia da morte teimasse nele. D. Fortunata ralhava:<\/p>\n<p>&#8211; Jo\u00e3ozinho, voc\u00ea \u00e9 crian\u00e7a?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, tanto lhe ouvia falar em morte que teve medo, e um dia correu a pedir \u00e0 minha m\u00e3e que lhe fizesse o favor de ver se lhe salvava o marido que se queria matar. Minha m\u00e3e foi ach\u00e1-lo \u00e0 beira do po\u00e7o, e intimou-lhe que vivesse. Que maluquice era aquela de parecer que ia ficar desgra\u00e7ado, por causa de uma gratifica\u00e7\u00e3o menos, e perder um emprego interino? N\u00e3o, senhor, devia ser homem, pai de fam\u00edlia, imitar a mulher e a filha&#8230; P\u00e1dua obedeceu; confessou que acharia for\u00e7as para cumprir a vontade de minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8211; Vontade minha, n\u00e3o; \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o sua.<\/p>\n<p>&#8211; Pois seja obriga\u00e7\u00e3o; n\u00e3o desconhe\u00e7o que \u00e9 assim mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos dias seguintes, continuou a entrar e sair de casa, cosido \u00e0 parede, cara no ch\u00e3o. N\u00e3o era o mesmo homem que estragava o chap\u00e9u em cortejar a vizinhan\u00e7a, risonho, olhos no ar, antes mesmo da administra\u00e7\u00e3o interina. Vieram as semanas, a ferida foi sarando. P\u00e1dua come\u00e7ou a interessar-se pelos neg\u00f3cios dom\u00e9sticos, a cuidar dos passarinhos, a dormir tranquilo as noites e as tardes, a conversar e dar not\u00edcias da rua. A serenidade regressou; atr\u00e1s dela veio a alegria, um domingo, na figura de dois amigos, que iam jogar o solo, a tentos. J\u00e1 ele ria, j\u00e1 brincava, tinha o ar do costume; a ferida sarou de todo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o tempo veio um fen\u00f4meno interessante. P\u00e1dua come\u00e7ou a falar da administra\u00e7\u00e3o interina, n\u00e3o somente sem as saudades dos honor\u00e1rios, nem o vexame da perda, mas at\u00e9 com desvanecimento e orgulho. A administra\u00e7\u00e3o ficou sendo a h\u00e9jira<sup>2<\/sup>, donde ele contava para diante e para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>&#8211; No tempo em que eu era administrador&#8230;<\/p>\n<p>Ou ent\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ah! sim, lembra-me, foi antes da minha administra\u00e7\u00e3o, um ou dois meses antes&#8230; Ora espere; a minha administra\u00e7\u00e3o come\u00e7ou&#8230; \u00c9 isto, m\u00eas e meio antes; foi m\u00eas e meio antes, n\u00e3o foi mais.<\/p>\n<p>Ou ainda:<\/p>\n<p>&#8211; Justamente; havia j\u00e1 seis meses que eu administrava&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal \u00e9 o sabor p\u00f3stumo das gl\u00f3rias interinas. Jos\u00e9 Dias bradava que era a vaidade sobrevivente; mas o Padre Cabral, que levava tudo para a Escritura, dizia que o vizinho P\u00e1dua se dava a li\u00e7\u00e3o de Elif\u00e1s a J\u00f3: \u201cN\u00e3o desprezes a corre\u00e7\u00e3o do Senhor; Ele fere e cura.\u201d<sup>3<\/sup><\/p>\n<p>DOM CASMURRO \u2013 Cap\u00edtulo 17<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Os vermes<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEle fere e cura!\u201d Quando, mais tarde, vim a saber que a lan\u00e7a de Aquiles tamb\u00e9m curou uma ferida que fez<sup>4<\/sup>, tive tais ou quais veleidades de escrever uma disserta\u00e7\u00e3o a este prop\u00f3sito. Cheguei a pegar em livros velhos, livros mortos, livros enterrados, a abri-los, a compar\u00e1-los, catando o texto e o sentido, para achar a origem comum do or\u00e1culo pag\u00e3o e do pensamento israelita. Catei os pr\u00f3prios vermes dos livros, para que me dissessem o que havia nos textos ro\u00eddos por eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, n\u00f3s n\u00e3o sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; n\u00f3s roemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem passado a palavra, repetiam a mesma cantilena. Talvez esse discreto sil\u00eancio sobre os textos ro\u00eddos, fosse ainda um modo de roer o ro\u00eddo.<\/p>\n<p>________________________________________________________________________<\/p>\n<p>Notas explicativas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 \u2013 cavalo do Cabo: No s\u00e9culo XIX, os cariocas abastados faziam quest\u00e3o de importar cavalos de ra\u00e7a, que os ingleses criavam no Cabo da Boa Esperan\u00e7a. Eram animais \u00e1geis, elegantes, de grande resist\u00eancia.<\/p>\n<p>2 \u2013 h\u00e9jira: ponto de partida da cronologia mul\u00e7umana que tem como marco a partida de Maom\u00e9 para Medina, no ano 622 da era crist\u00e3.<\/p>\n<p>3 \u2013 o trecho a que se refere Machado de Assis, encontra-se no Livro de J\u00f3 5:17-18.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 \u2013 Conta uma lenda que T\u00e9folos, rei de M\u00edsia, ao enfrentar Aquiles durante uma batalha, foi ferido por este. Esta ferida n\u00e3o cicatrizava nunca. T\u00e9folos foi aconselhado por um or\u00e1culo a procurar Aquiles, pois Apolo havia dito que ele s\u00f3 seria curado por quem o ferira. Ent\u00e3o T\u00e9folos procurou Aquiles, que o curou.<\/p>\n<p>___________________________________________________________________<\/p>\n<p>Interpreta\u00e7\u00e3o do texto.<\/p>\n<ol>\n<li>Qual era o trabalho do sr. P\u00e1dua?<\/li>\n<li>Durante um certo tempo o. Sr.      P\u00e1dua passou a ganhar um sal\u00e1rio maior. Por qu\u00ea?<\/li>\n<li>Durante esse per\u00edodo, qual foi a      atitude do sr. P\u00e1dua?<\/li>\n<li>Por quanto tempo ficou o Sr. P\u00e1dua      ganhando o sal\u00e1rio do chefe?<\/li>\n<li>Como o sr. P\u00e1dua ficou durante      muito tempo exercendo a chefia da sua reparti\u00e7\u00e3o, achou que isso seria uma      situa\u00e7\u00e3o que tinha vindo para ficar. O que foi que aconteceu depois de 22      meses e qual foi sua rea\u00e7\u00e3o?<\/li>\n<li>O sr. P\u00e1dua cumpriu a promessa de      suicidar-se? Relate o que aconteceu depois que ele conversou com\u00a0 m\u00e3e de Bentinho.<\/li>\n<li>Que li\u00e7\u00e3o quis nos dar Machado de      Assis com esse cap\u00edtulo?<\/li>\n<\/ol>\n<p>_______________________________________________________________<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\">Gabarito<\/span><\/p>\n<ol>\n<li><span style=\"color: #ff0000;\">Funcion\u00e1rio p\u00fablico.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #ff0000;\">Porque ficou substituindo o seu      chefe durante a aus\u00eancia desse, o que tamb\u00e9m lhe deu o direito de ganhar      os honor\u00e1rios relativos \u00e0 chefia que ia exercer.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #ff0000;\">Passou a gastar com coisas      sup\u00e9rfluas e a ostentar uma atitude vaidosa de quem tem muito dinheiro.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #ff0000;\">Vinte e dois meses ou 01 ano e dez      meses. <\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #ff0000;\">O chefe efetivo voltara para      assumir o posto e o sr. P\u00e1dua ficou aflito, pois voltaria a ser um simples      funcion\u00e1rio da reparti\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de n\u00e3o receber mais o alto sal\u00e1rio que      vinha recebendo. Em vista disso, pensou em dar fim a sua vida, pois      segundo ele, n\u00e3o aguentaria sofrer a vergonha de voltar a ser um simples      funcion\u00e1rio, diante dos vizinhos e de outras pessoas que o conheciam.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #ff0000;\">N\u00e3o. O sr. P\u00e1dua ficou alguns dias      triste, calado, mas aos poucos foi esquecendo o epis\u00f3dio e passou at\u00e9      mesmo a se referir ao per\u00edodo de interinidade como um per\u00edodo que marcou      sua vida de funcion\u00e1rio p\u00fablico.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #ff0000;\">Resposta pessoal. Devemos ser      humildes e n\u00e3o deixar que a vaidade nos impe\u00e7a de ver que existem situa\u00e7\u00f5es      passageiras em nossa vida.<\/span><\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DOM CASMURRO \u2013 Cap\u00edtulos 16 Nestes Cap\u00edtulos, Bentinho passa a dar informa\u00e7\u00f5es sobre seu futuro 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