{"id":745,"date":"2013-06-22T15:21:41","date_gmt":"2013-06-22T15:21:41","guid":{"rendered":"http:\/\/portugues.camerapro.com.br\/?p=745"},"modified":"2013-06-22T15:21:41","modified_gmt":"2013-06-22T15:21:41","slug":"texto-para-interpretacao-60-o-homem-nu-nivel-medio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portuguesirado.com.br\/?p=745","title":{"rendered":"TEXTO PARA INTERPRETA\u00c7\u00c3O 60 &#8211; O HOMEM NU (N\u00edvel M\u00e9dio)"},"content":{"rendered":"<p>TEXTO PARA INTERPRETA\u00c7\u00c3O 60 \u2013 O HOMEM NU\u00a0 (N\u00cdVEL M\u00c9DIO)<\/p>\n<p>O texto que voc\u00ea vai ler \u00e9 uma cr\u00f4nica de autoria de Fernando Sabino, mineiro de Belo Horizonte, que nasceu em 1923 e morreu em 2004. Foi locutor de r\u00e1dio, colaborou com artigos, cr\u00f4nicas e contos em revistas, conquistando muito pr\u00eamios. O romance <b>O encontro marcado<\/b>, de 1956, foi o grande impulso para sua carreira liter\u00e1ria. Depois disso, Sabino resolveu viver exclusivamente como escritor e jornalista.<\/p>\n<p align=\"center\"><!--more-->O HOMEM NU<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ao acordar, disse para a mulher:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 &#8211; Escuta, minha filha: hoje \u00e9 dia de pagar a presta\u00e7\u00e3o da televis\u00e3o, vem a\u00ed o sujeito com a conta, na certa. Mas acontece que ontem eu n\u00e3o trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 &#8211; Explique isso ao homem \u2013 ponderou a mulher.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 &#8211; N\u00e3o gosto dessas coisas. D\u00e1 um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obriga\u00e7\u00f5es. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, n\u00e3o faz barulho, para ele pensar que n\u00e3o tem ningu\u00e9m. Deixa ele bater at\u00e9\u00a0 cansar \u2013 amanh\u00e3 eu pago.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a mulher j\u00e1 se trancara l\u00e1 dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um caf\u00e9. P\u00f4s a \u00e1gua a ferver e abriu a porta de servi\u00e7o para apanhar o p\u00e3o. Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos at\u00e9 ao embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o m\u00e1rmore do parapeito. Ainda era muito cedo, n\u00e3o poderia aparecer ningu\u00e9m. Mal seus dedos, por\u00e9m, tocavam o p\u00e3o, a porta atr\u00e1s de si fechou-se com estrondo, impulsionada pelo vento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Aterrorizado, precipitou-se at\u00e9 \u00e0 campainha e, depois de toc\u00e1-la, ficou \u00e0 espera, olhando ansiosamente ao redor. Ouviu l\u00e1 dentro o ru\u00eddo da \u00e1gua do chuveiro interromper-se de s\u00fabito, mas ningu\u00e9m veio abrir. Na certa a mulher pensava que j\u00e1 era o sujeito da televis\u00e3o. Bateu com o n\u00f3s dos dedos:<\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 &#8211; Maria! Abre a\u00ed, Maria. Sou eu \u2013 chamou em voz baixa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quanto mais batia, mais sil\u00eancio fazia l\u00e1 dentro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Enquanto isso, ouvia l\u00e1 embaixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponteiro subir lentamente os andares&#8230; Desta vez, era o homem da televis\u00e3o!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00e3o era. Refugiado no lance da escada entre os andares, esperou que o elevador passasse, e voltou para a porta do seu apartamento, sempre a segurar nas m\u00e3os nervosas o embrulho de p\u00e3o:<\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 &#8211; Maria, por favor! Sou eu!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Desta vez n\u00e3o teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindo l\u00e1 de baixo&#8230; Tomado de p\u00e2nico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na m\u00e3o, parecia executar um <i>ballet<\/i> grotesco e mal ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele sem onde se esconder. Correu para o elevador, apertou o bot\u00e3o. Foi o tempo de abrir a porta e entrar, e a empregada passava, vagarosa, encetando a subida de um lance de escada. Ele respirou, aliviado, enxugando o suor da testa com o embrulho do p\u00e3o. Mas eis que a porta interna do elevador se fecha e ele come\u00e7a a descer.<\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 &#8211; Ah, isso \u00e9 que n\u00e3o! \u2013 fez o homem nu, sobressaltado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E agora? Algu\u00e9m l\u00e1 embaixo abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em p\u00ealo, podia mesmo ser algum vizinho conhecido&#8230; Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez mais longe de seu apartamento, come\u00e7ava a viver um verdadeiro pesadelo de Kafka, instaurava-se naquele momento o mais aut\u00eantico e desvairado Regime do Terror!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 &#8211; Isso \u00e9 que n\u00e3o! \u2013 repetiu, furioso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Agarrou-se \u00e0 porta do elevador e abriu-a com for\u00e7a entre os andares, obrigando-o a parar. Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a moment\u00e2nea ilus\u00e3o de que sonhava. Depois experimentou apertar o bot\u00e3o do seu andar. L\u00e1 embaixo continuavam a chamar o elevador. Antes de mais nada: \u201cEmerg\u00eancia: parar\u201d. Muito bem. E agora? Iria subir ou descer?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Com cautela desligou a parada de emerg\u00eancia, largou a porta, enquanto insistia em fazer o elevador subir. O elevador subiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 &#8211; Maria! Abre esta porta! \u2013 gritava, desta vez esmurrando a porta, j\u00e1 sem nenhum cautela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ouviu que outra porta se abria atr\u00e1s de si. Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho de p\u00e3o. Era a velha do apartamento vizinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 &#8211; Bom dia, minha senhora \u2013 disse ele, confuso. \u2013 Imagine que eu&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A velha, estarrecida, atirou os bra\u00e7os para cima, soltou um grito:<\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 &#8211; Valha-me Deus! O padeiro est\u00e1 nu!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E correu ao telefone para chamar a radiopatrulha:<\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 &#8211; Tem um homem pelado aqui na porta!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 &#8211; \u00c9 um tarado!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 &#8211; Olha, que horror!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 &#8211; N\u00e3o olha n\u00e3o! J\u00e1 pra dentro, minha filha!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma l\u00e1 fora, bateram na porta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 &#8211; Deve ser a pol\u00edcia \u2013 disse ele, ainda ofegante, indo abrir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00e3o era: era o cobrador da televis\u00e3o.<\/p>\n<div>\n<p align=\"right\">(FERNANDO SABINO. In: <i>Para Gostar de Ler. Vol. 3<\/i> \u2013 <i>Cr\u00f4nicas<\/i>. Editora \u00c1tica, S\u00e3o Paulo, 1996)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"right\">__________________________________________________________________<\/p>\n<\/div>\n<p>Responda \u00e0s quest\u00f5es abaixo:<\/p>\n<ol>\n<li>A narrativa desta cr\u00f4nica est\u00e1 em que pessoa verbal?<\/li>\n<li>Quais os tempos verbais predominantes nesta cr\u00f4nica?<\/li>\n<li>Qual \u00e9 o nome do homem nu?<\/li>\n<li>Por que o casal n\u00e3o poderia abrir a porta do apartamento?<\/li>\n<li>O homem saiu do apartamento com qual objetivo e como ele estava?<\/li>\n<li>O que aconteceu quando o homem nu saiu para pegar o embrulho de p\u00e3o?<\/li>\n<li>Qual o efeito c\u00f4mico que o autor explora nesta situa\u00e7\u00e3o corriqueira?<\/li>\n<li>Apesar do homem bater e chamar por sua mulher, ela n\u00e3o veio abrir a porta. Por qu\u00ea?<\/li>\n<li>O autor utiliza a descri\u00e7\u00e3o de sons durante a narrativa. Qual a import\u00e2ncia desses sons na narrativa?<\/li>\n<li>Em alguns momentos, a narrativa \u00e9 pontuada por perguntas como: \u201cE agora? Iria subir ou descer?\u201d. O que essas perguntas retratam na narrativa?<\/li>\n<li>Por que a velha disse: \u201cO padeiro est\u00e1 nu!\u201d ?<\/li>\n<li>O texto apresenta uma boa quantidade de falas e di\u00e1logos curtos. Que efeito eles imprimem \u00e0 narrativa?<\/li>\n<li>Qual o ponto m\u00e1ximo de tens\u00e3o da narrativa?<\/li>\n<li>Dividindo-se a narrativa em tr\u00eas partes, descreva com uma frase:\n<ol>\n<li>a situa\u00e7\u00e3o inicial \u2013<\/li>\n<li>o conflito \u2013<\/li>\n<li>a resolu\u00e7\u00e3o final \u2013<\/li>\n<\/ol>\n<\/li>\n<\/ol>\n<div>\n<p>\u00a0___________________________________________________________________<\/p>\n<\/div>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\">Gabarito:<\/span><\/p>\n<ol start=\"1\">\n<li><span style=\"color: #ff0000;\">Em terceira pessoa.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #ff0000;\">Pret\u00e9rito perfeito e imperfeito do modo indicativo.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #ff0000;\">O texto n\u00e3o informa.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #ff0000;\">Era dia de pagar a presta\u00e7\u00e3o da televis\u00e3o e o homem n\u00e3o tinha dinheiro para pag\u00e1-la. O casal combinou que n\u00e3o responderiam ou abririam a porta para que o cobrador pensasse que n\u00e3o havia ningu\u00e9m no apartamento e com isso fosse embora.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #ff0000;\">Para pegar o embrulho de p\u00e3o deixado pelo padeiro e ele estava nu, uma vez que havia se despido para tomar banho, mas sua esposa j\u00e1 havia entrado no banheiro.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #ff0000;\">A porta do seu apartamento fechou-se impulsionada pelo vento.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #ff0000;\">O homem nu fica preso fora do seu apartamento.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #ff0000;\">Porque, naturalmente, ela pensou que era o cobrador quem batia \u00e0 porta.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #ff0000;\">S\u00e3o importantes porque transmitem a situa\u00e7\u00e3o de suspense, p\u00e2nico, medo do personagem.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #ff0000;\">Indicam indaga\u00e7\u00f5es do personagem. Seria como ouvir seus pensamentos.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #ff0000;\">Porque o homem carregava um pacote de p\u00e3o nas m\u00e3os.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #ff0000;\">Ajuda a criar um clima ca\u00f3tico durante o cl\u00edmax da narrativa.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #ff0000;\">O encontro do homem nu com os vizinhos, no corredor do edif\u00edcio.<\/span><\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ff0000;\">a) A situa\u00e7\u00e3o inicial \u2013 casal n\u00e3o deseja ser incomodado por um cobrador e decide n\u00e3o abrir a porta do apartamento para ningu\u00e9m naquele dia.<\/span><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ff0000;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0b) O conflito \u2013 homem sai nu do apartamento para pegar o p\u00e3o, mas a porta, impulsionada pelo vento, fecha-se atr\u00e1s dele, impedindo-o de voltar para dentro do apartamento.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ff0000;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 c) a resolu\u00e7\u00e3o final \u2013 o homem consegue entrar em casa, mas acaba abrindo a porta para o cobrador, porque esquece que estava se escondendo dele.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>TEXTO PARA INTERPRETA\u00c7\u00c3O 60 \u2013 O HOMEM NU\u00a0 (N\u00cdVEL M\u00c9DIO) O texto que voc\u00ea vai ler \u00e9 uma cr\u00f4nica de autoria de Fernando Sabino, mineiro de Belo Horizonte, que nasceu em 1923 e morreu em 2004. 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